domingo, 18 de outubro de 2009

Lembranças lusas


Portugal me comove. Podem falar o que for - país de passado colonialista e predador, racista, etc (e com algumas críticas eu concordo) - mas o fato é que Portugal me deixa comovido como o diabo. Eles, os portugueses, com seu jeito rude e muitas vezes abrutalhado, carregam uma melancolia transparente, mesclada às letras melodramáticas dos fados, a um humor negrérrimo e às expressões do dia-a-dia, com o uso incansável do diminutivo... "Ai, o pobrezito!"...

Portugal voltou ao noticiário, com os lusitanos mordendo as canelas da atriz Maitê Proença. Num momento infeliz, a atriz apareceu num vídeo tirando sarro da propalada falta de inteligência lusa. Maitê foi deselegante, mas os que a criticaram por aqui foram hipócritas. Rir da lógica portuguesa é um esporte tão popular entre nós quanto falar mal de argentinos - mas como foi Maitê que deu a cara a tapa, joga pedra na Maitê. Atenção, eu não estou defendendo a atriz, longe disso - mas questionando os críticos. Quem nunca fez piada com portugueses que atire o primeiro tremoço.

Em campos mais tranquilos, Portugal voltou às minhas lembranças, enquanto lia a deliciosa novela de Luís Ruffato, "Estive em Lisboa e lembrei de você". O livro, com menos de 100 páginas, é uma delícia. Conta a história de Sérgio, um mineirinho de Cataguases que, pelas voltas da vida, acaba num hoteleco de Lisboa. Seus desencontros amorosos com uma prostituta, seus sonhos de vencer na vida trabalhando como subempregado... e sua resistência ao vício do cigarro... Vale a pena ler o novo livro de Ruffato, um autor que manuseia as palavras com prazer e transmite esse prazer a quem lê. Cada página do livro me trazia Lisboa à memória - e olhem que eu, bom paulistano que sou, sou o maior fã do Porto...


Embalado no livro, acabei indo ver "Fados", o novo filme de Carlos Saura. Será um documentário? Não, não é. Ficção, também não é. É um filme de Saura, para o bem e para o mal. É bom, porque faz desfilar diante de nós uma série imensa de cantores influenciados pelo ritmo português - um ritmo que, para minha surpresa, nasceu no século 19. Ou seja, é relativamente novo. E as vozes, as letras... ah, só mesmo em Portugal se pode ouvir um rap influenciado pelo fado. E só mesmo lá uma letra de rap usa a segunda pessoa de forma correta! (E vou defender minha tese: o rap foi feito para a prosódia lusitana - eles comem tantas vogais ao falar que, quando cantam rap, é como se estivessem a falar normalmente).


O mal do filme é o mesmo que atingia "O mistério do samba", o musical que Marisa Monte produziu sobre a escola de samba Portela: se você não conhece minimamente aquele universo, entra do filme mudo e sai calado, sem entender pissiricas. Falta didatismo ao filme, para explicar quem são aqueles cantores e porque Caetano Veloso, Chico Buarque, Toni Garrido e até a mexicana Lila Downs, ótima, estão fazendo ali. Há várias nuances no fado e ele também influenciou vários estilos musicais em países de língua lusa: Cabo Verde e Moçambique aparecem em belos números musicais, mas quem entende?


O problema de"Fados" é ser um filme de Saura - e Saura, senhoras e senhores, enferrujou. Herança de "Carmem" e outros musicais 'saurianos', os balés que enfeitam os números musicais em "Fados" são cafonas até o limite do aceitável. Aliás, eles passam fácil esse limite e batem o mau gosto no número de Lila Downs. Ao mesmo tempo, Saura mostra que continua o bom e velho esquerdista d'antanho. O número que mostra Chico Buarque cantando "Fado Tropical" - que ele compôs para a trilha da peça Calabar - mistura a imagem do cantor a cenas da Revolução dos Cravos. É de chorar, de tão lindo.

Também emociona o número que Carlos do Carmo, um dos maiores fadistas da terrinha, canta "Um homem na cidade" entre imagens lindas de sua Lisboa natal (Carlos do Carmo era o 'fadista da esquerda', enquanto Amália, a grande dama, era a 'fadista da direita'. O tempo se encarregou de limar essas bobagens). Amália, aliás, é lindamente homenageada no filme, que a mostra ensaiando um número e, em seguida, mostra Caetano Veloso cantando "Estranha forma de vida", um dos maiores sucessos da cantora (cuja casa de Lisboa, hoje transformada em Museu, está na foto que ilustra esse post).

Mesmo com defeitos, a gente sai do cinema com vontade de ouvir mais fados - os da nova sensação Mariza, uma moçambicana criada em Lisboa e que tem os cabelos curtinhos, provocantes, a emoldurar um vozeirão fantástico. Ou daqueles cantores que se apresentam numa casa de fados simples, cada um se levantando e se exibindo, numa espécie de desafio sem competição...

Isso me fez lembrar uma noite em Coimbra, quando - ao lado de alguns jornalistas - fomos parar numa casa de fados alternativa. Era uma birosca frequentada só por estudantes (Coimbra...), com fumaça de cigarro até dizer chega, e onde ouvi os melhores fados da minha vida. Ceça Brito, do Recife, estava comigo e deve lembrar dessa linda noitada de fados...

Voltando... A gente sai do filme do Saura (mesmo que se coçando com raiva dos balés), sentindo vontade de abrir um vinho Dão, mandar descer uns bolinhos de bacalhau e ler alguma cousa do Eça... Sejamos patriotas - mantenhamos o Dão, os bolinhos e abramos o livro do Ruffato. Ó pá, isto é muito giro!


20 comentários:

  1. Mário, desculpe, mas não há outra forma de falar com alguém da equipe de PP. Você que é um homem sensível, por favor, semsibilize o LCM para não nos torturar tanto. Deixe Tony e Lígia viverem felizes essa linda história e, não mate a Mamma Freda, assim, ninguém aguenta, é dose cavalar. Sucesso a vocês, abs. Edi

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  2. Edi, a novela termina em fevereiro... até lá, muita água vai rolar pra Ligia e Tony... Agora, vai morrer muita gente legal na história... A gente sofre também, mas na vida também acontece isso, né? bjs

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  3. Por isso que eu não gosto de começo de novela, os vilões saem ganhando em todas, dá um nervoso na gente!
    Ainda não vi nennhum capítulo da sua novela só estou palpitando para alimentar a onversa.
    Quanto a Saura, acho que nunca foi muito bom mesmo, vendiam que era, eu fui daquelas que compraram essa ideia, como em muitas outras coisas que assisti e li, mas no fundo nunca gostei, achava chato. Hoje acho que estou mais esperta, não minto para mim mesma e aceito a possibildiade de não gostar de um trabalho tido como genial.
    Muita gente falando bem do livro do Ruffato bem capaz de eu arriscar.

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  4. Oi Mário, obrigada por ter respondido, você é sempre gentil. Sempre leio seus textos, adorei o "Dá Licença". Nesse aqui, não dá pra trocar "humor negrérrimo" por outra cor? Sei que há uma longa e polêmica discussão sobre o assunto, mas, na dúvida...
    Uma perguntinha: A Mara, do blog "Apaixonadas(os) por Tony e Lígia" quer saber se você pode dar uma entrevista sobre PP para o blog. Ela envia as perguntas e você avalia e responde as que considerar adequadas e oportunas, assim com fez o Sr. Lancellotti. Desculpe o atrevimento, se poder, será legal. bjs. edi

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  5. Ester, o Saura fez grandes filmes, especialmente nos anos 70, isso é indiscutível. Podem ter envelhecido aqui e ali, mas há ainda os fortes.
    "Cria cuervos", "Bodas de Sangue"... tem coisa boa no trabalho dele, sim. Quanto ao Ruffato, me permita sugerir também "Eles eram muitos cavalos", deslumbrante em técnica e conteúdo.

    Edi, eu não tô autorizado a responder em nome do Lauro sobre a novela. Pede desculpas à Mara, tá? Quanto ao "humor negrérrimo", não mudo, não. A expressão (pra mim, pelo menos) não tem conotação racial nenhuma. Humor negro é humor negro - e aliás, eu adoro. Não conheço sinônimo.
    bjs.

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  6. Ok! Mário, sem problemas. bjs. edi

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  8. Não há nada indiscutível nesse mundo, MV, nem gosto por livro de Dostoiewski, que dirá critica da filmografia do Saura. Seus filmes já eram chatos e envelheceram, nada pior do que velho chato. Tenta ver na tv para você ver, eu já tentei, é insuportável.

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  9. Ai, Ester, como diz a vox populi, gosto é gosto.

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  10. Qualquer filme de cinema fica chata na TV. São linguagens parecidas, mas beeeeemmmm diferentes. Que a Ester me desculpe, mas Saura fez coisas fantásticas. Jamais vou esquecer o impacto que senti ao ver o Antonio Gades dançando. Ele era baixinho, feio até, mas qdo dançava e a câmera do Saura ampliava os movimentos... ele era lindo! rs
    MV, estou completamente apaixonada por Bastardos Inglórios! O menino Tarantino melhora a cada filme ou é impressão minha?

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  11. Não há do que se desculpar, cara Ana. Sem dúvida cinema e tv são linguagens diferemtes. Mas La Strada por exemplo é lindo até assistindo no celular. E Fale com Ela é para ser visto no cinema, mas se se ninguem soube parece até que foi feito para assitir no sofá da sala. Claro que tem filmes que perdem, Senhor dos Anéis,por exemplo, mesmo assim ficou muito bom na tv.
    A questão que gosto de ressaltar é que muita coisa nos é imposta pela "inteligencia" assim como pela industria cultural. Gosto dessa polêmica, de sacar o mico que paguei porque era inocente a mercê de bons trabalhos de divulgação ou imposições estéticas, ideológigicas mesmo. Gosto da polêmica você já deve ter percebido. Além disso minha amizade com o Mário sempre foi assim, a gente discorda, briga, mas se ama. Se ama não é Mário? Há controvérsia (rs).
    Precisamos marcar uma ida boteco com o pessoal do blog para aperfeiçoar o debate.

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  12. Deixa dar meu pitaco. O Saura só tem um problema: muita mulher bonita dançando, mas nenhuma fica pelada.... Desculpem, mas eu precisava dizer isso....

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  13. engraçado, eu lembro de coisas que não gostava pq não era "engajado" gostar... e hoje acho o máximo, tipo Nos Tempos da Brilhantina... As coisas que eram importantes e envelheceram... bom, isso é da vida, com gente também acontece isso. Como diz o grande Arnaldo Antunes, "a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer".
    Jura, Vita, que vc queria ver a Cristina Hoyos pelada?!

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  14. Os acontecimentos do passado não envelhecem, eles passam, somos nós que mudamos, é o nosso olhar que muda. Não sei podemos chamar isso de envelhecer, penso que se voce tiver sorte de ter um presente tranquilo o passado será visto com tranquilidade. As nossas experiências nos transformaram naquilo que somos hoje. Ainda bem que li todo os livros que li e que asisti todos os filmes que assisti sou eu hoje...velho eu???que nada sou moderno!!sou eu mesmo....

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  16. Nem sei quem é essa Cristina, Mário, mas já vi filmes de dança dele com moças bonitas, com tacones lejanos, toc, toc,toc, aqueles vestidões que rodam, aqueles cabelos presos, aquelas bocas pintadas, aqueles corpos em transe....aquelas guitarras... Ou será que era algum filme pornô com a Carmen Maura? Acho que era "Mulheres a beira de um ataque de orgasmo". Será? Já não lembro direito, coisas da idade...

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  17. Filme pornô com a Carmem Maura? Jesus! Isso ultrapassa até a Playboy com a Fernanda Young. Aliás, eu provoquei muitos risos esta semana numa roda de potenciais leitores da Playboy: "Você bateria uma com a foto da Fernanda Young?"

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  18. Mário, entrei atrasada no blog (não lia há dias) e estou chocada porque ninguém comentou a primeira parte do seu comentário, ou seja, Portugal...
    Portugal, é claro, me comove mais ainda. Me incomoda, me irrita também, porque está no sangue e isso eu não posso tirar, sou eu também.
    Mas um traço que eu acho comovente, como vc diz, é como os portugueses, abrutalhados na aparência, são tão mais sentimentais e melancólicos lá dentro... Quase todos. Não o Salazar, nem os membros da PIDE, nem os críticos do Saramago pelo ateísmo - gostar do que ele escreve ou não é de foro íntimo, querer voltar à inquisição, nunca!
    Portugal é uma coisa assim, difícil de decifrar. É por isso que o Brasil é assim também, saímos de lá. Mas adicionamos muitas outras coisas na misturinha que nos deu, assim, catitos...

    Quanto ao Saura, ele tem coisas lindas e caquéticas - Cria Cuervos e Bodas de Sangue são geniais. Não vi Fados ainda, vou ver.

    bjs

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