sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fernanda, 80 anos hoje



Conheci Fernanda Montenegro em 1973. Quem nos apresentou foi Medéia, numa adaptação da tragédia, assinada por Oduvaldo Vianna Filho - e que, alguns anos depois, viraria "Gota d´Água", com as deslumbrantes músicas de Chico Buarque. Devo ser sincero: na época não entendi muita coisa daquele caso especial, a não ser que a mulher enciumada matava os filhos e a nova mulher do ex-marido... Por volta de 1976-77, fui ao cinema assistir "Tudo Bem", uma comédia dirigida por Arnaldo Jabor (e, ao lado de "Toda Nudez será Castigada", um de seus melhores filmes). Me apaixonei de vez por aquela atriz ensandecida, que delirava com as traições imaginárias do marido e tratava os pedreiros com uma "bondade classe média" apavorante.


Desde aquela época já estive com Fernanda em várias situações. Ela era a estilista apaixonada por uma jovem Renata Sorrah, em "As lágrimas amargas de Petra von Kant"... Era a madrasta enlouquecida de amor por um ainda-sem-plástica Edson Celulari em "Fedra"... Era a dona de casa trocada por uma universitária, em "É...", de Millor Fernandes, ou a mulher soterrada na lama em uma peça de Samuel Beckett... Era a prima maluca de Paulo Autran na novela "Guerra dos Sexos"... Era a Zulmida de "A Falecida", a Dora de "Central do Brasil" e a Romana de "Eles não usam black-tie". E era também Adélia Prado, no monólogo "Dona Doida", um recital de poemas da autora mineira.
Não me lembro, nunca, de ter saído menos que hipnotizado por Fernanda. Mesmo quando não gosto muito, como o "Viver sem tempos mortos", em que ela vive Simone de Beauvoir, não posso dizer que ela estava fora de contexto. Fernanda cria o contexto. Cria o mundo.
O prazer da minha companhia, mesmo, ela só desfrutou em duas fugazes ocasiões. Durante a maratona de entrevistas para o lançamento de "Central do Brasil", Fernanda saiu do Espaço Unibanco e deu de cara com uma fila de gente comprando ingressos para outro filme. Era mais que um encontro, era um esbarrão inevitável. Ela encarou a todos nós e cumprimentou um por um, pegando na mão e tudo. Dizia algo do tipo "como vai, tudo bem, que legal que você está indo ao cinema"...
A outra vez foi quando, repórter da Folha, eu fazia uma matéria sobre cultivo de flores... sei lá porque, aquelas pautas da Folha... mas resolvi que Fernanda poderia dizer alguma coisa. Fui direto ao teatro onde ela estava em cartaz (o Cultura Artística, e ela fazia "Fedra") e, sem passar por assessor nem nada, pedi pra ouvi-la, expliquei o assunto ao porteiro e, depois de um tempo, recebi autorização pra subir ao camarim. Ela estava sentada, descansando antes do espetáculo. Me viu parado à porta, meio besta, e sorriu: "Você é o rapaz das flores?" Foram cinco minutos de conversa, da qual obviamente não lembro patavinas.
De resto, só conheço o que todo mundo conhece. E guardo na memória algumas cenas... Fernanda e Guarnieri catando feijão na mesa, em "Eles não usam black-tie" - fala sério, poucas cenas do cinema nacional são tão emocionantes. Fernanda recitando um poema de Adélia em que fala do silêncio cúmplice de um casal limpando peixes de madrugada... Fernanda ressuscitando o desejo pela virilidade de Othon Bastos em "Central do Brasil"... Fernanda e Paulo Autran despejando o café da manhã inteiro um no outro, numa tomada única e perfeita...
Fernanda, aos 80 anos, corre o risco de virar unanimidade. Uns, para criticar, falam que ela adora o dinheirinho do cachê, como se isso fosse pecado. Caramba, a mulher é o quê? Atriz. Vive do quê? De representar. Pra isso, precisa ser paga, pois não? Ah, esse nosso pudor católico em 'rejeitar' dinheiro...
O que me importa é assistir Fernanda em cena, admirar sua inflexão de voz e seus gestos precisos... É entender pelo olhar a alma do personagem... Não é preciso teorizar nem buscar explicações sociológicas: o prazer de um trabalho bem feito e que nos faz reconhecer o humano que existe no outro... Pra mim, dona Fernanda é isso.
Agora, fico sabendo que minha amiga Neusa Barbosa lança dia 28 o seu livro sobre Fernanda Montenegro. É um daqueles depoimentos da coleção Aplauso, da Imprensa Oficial - um catálogo que mistura gente interessante com outros que, francamente, não valem dois parágrafos... mas deixa pra lá... O que importa é que Neusinha colheu um depoimento de Fernandona ao longo de vários meses e me deixou com água na boca... Como pessoas adultas, amigos há mais de muitos anos, Neusinha e eu concordamos em várias coisas e, mais importante, discordamos em outras... Mas carregamos uma admiração comum por dona Fernanda (e pelo Chico, também...).
Tudo isso, só pra dizer "feliz aniversário, dona Fernanda! A senhora é o máximo!"
E tem mais uma coisa: sim, esse post é uma babação de ovo, descarada e assumida. São as delícias da blogosfera...

13 comentários:

  1. Essa mulher merece toda a babação de ovo do mundo!! Se a Neusinha avisar do lançamento do livro, quem sabe compro um exemplar? hehehe

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  2. olá Mário - obrigada por lembrar do lançamento do livro que demorou quatro anos para sair, por várias coisas, inclusive a agenda "dona doida" de dona Fernanda - que não pára de trabalhar, nem deve. E o fato de morarmos em cidades diferentes...
    Compartilhamos sim a admiração por essa atriz magnética e única. Se houver outra igual, está para nascer.
    Claro que eu gostaria de ter convivido mais e melhor com ela e ter revelado mais a pessoa - que é reservada, mais do que a atriz que todos conhecemos, o que faz parte do mistério humano que às vezes gostamos de manter.
    Mas, de todo modo, o depoimento do livro, que eu espero ter organizado razoavelmente, traz de volta muita coisa que foi esquecida - como os anos de formação de Fernanda, suas gratidões - a Henriette Morineau e a Maria Della Costa, a quem ela se penitencia -, suas relações com 'feras' como Nelson Rodrigues (que escreveu dois de seus maiores textos pra ela)e sua entrada tardia, mas grandiosa, no cinema.
    Para Fernanda, não é preciso desejar nada, ela já tem tudo. Longa vida, inclusive.
    bjs

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  3. Ana, aproveito o espaço para convite geral - o lançamento é dia 28-10, a partir das 19h, no quarto andar do Shopping Frei Caneca. Lançamento geral de títulos da coleção Aplauso, inclusive o meu. Apareça sim!
    bj

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  4. Neusa, vamos bolar umas frases-dedicatória pra vc não ficar enrolando muito na fila...
    Ana, minha fiel Ana... vai, compra e pede autógrafo em branco... rs

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  5. vou fazer um carimbo geral, pode ser??

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  6. eu amo o trabalho da fernanda montenegro. beijos, pedrita

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  7. O ruim de saber que Fernanda completa oitenta é lembrar que eu faço cinquenta ano que vem. Eu e você, né, Mário?
    Caramba se nada der errado a gente ainda tem trinta anos no mínimo pela frente, quanta reponsabildiade. Ainda bem que eu voltei para o divã. Eu não sou dama do teatro mas quero chegar bonitona no pedaço, integra e bela como a Arlete.

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  8. Pois é... cinquenta... e eu me sinto com... cinquenta... gente como a Fernanda e outros "velhos", aliados ao avanço da medicina, mostram que dá pra esticar a corda cada vez mais e em boas condições. O chato é criar artrite no pensamento, osteoporose no raciocínio, esclerose na vontade de viver... O resto - ruga, dor nas juntas, etc - é da mãe natureza.

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  9. Quanto otimismno, Mário, é que a gente ainda está com as carinhas boas, quero ver na hora que enrugar tudo, como vai ficar esse seu belo discurso.
    Eu acho que seria bem capaz de trocar uma rugas na bochecha pela osteoporose no raciocínio (rs).

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  10. As rugas incomodam, é claro mas o que mais nos surpreende é a "perda de interesse diante da vida", a atitude interessada de que falava Mario de Andrade, o engajamento, com o tempo ficamos mais egoístas e deixamos de pensar no outro....

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  11. É verdade. Se a gente reparar bem, todos esses "velhinhos exemplares" - não só os famosos, mas outros que a gente conhece pelo caminho - têm um olhar curioso para a vida, têm um interesse autêntico pelo outro... Não é preciso ser "velhinho prafentex", essa coisa de imitar jovenzinho também é falso e cafona. O respeito à própria idade (o que não é sinônimo de conformismo, vejam bem) faz parte da receita, acho eu.

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  12. Ester, é bem difícil obter a barriga tanquinho e o peitoral largo... um rosto entre Brad e Depp... um pinto de ator de filme pornô... a agilidade física do Cesar Cielo... e a grana daquele moço do Buscapé... e mesmo assim a gente continua vivendo, feliz e saudavelmente insatisfeito... Tentar melhorar, that's the secret.

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  13. foi uma viagem lindona, aquela noite fria, nebulosa e muito interessante. bjs,

    valeu a lembrança, fofo.

    ceça

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