domingo, 8 de novembro de 2009

A butique dela


Demorei pra escrever a respeito do caso da minissaia. Queria ver até que ponto ia a coisa toda. A história da menina que foi avacalhada no campus da Uniban porque estava usando uma roupa "inadequada" rodou jornais, colunas, blogs e programas de TV. A menina virou uma instant-celebrity e deve ter deixado seus agressores ainda mais incomodados: ela denegriu a imagem do instituto de ensino... Sábado, veio o troco: ela foi expulsa da universidade. Vamos combinar: precisa escrever algo a respeito?

Digamos que. Vamos supor que. Vá lá, quem sabe os caras. Mesmo que algumas entrevistadas (sim: mulheres) ao longo da semana tenham razão, que a Menina - vou chamá-la assim, ok? - tenha se exibido com mais despudor do que o 'permitido'... mesmo que ela tenha se recusado a trocar de roupa para evitar um tumulto maior... não dá pra entender o motivo do tumulto em si. Um par de pernas? Ok, o fundamentalismo moralista tá tomando conta da cidade, a Lei Cidade Limpa tirou das paredes dos prédios aqueles outdoors com gente gostosa em trajes íntimos - mas daí a achar que gente bonita ofende é um passo maior do que as pernas (perdão pelo trocadilho). E na direção errada.
A história continua mal explicada, mas uma coisa é certa. Os alunos foram de uma agressividade pré-histórica, a Menina fez muito bem em botar a boca no trombone e a universidade perdeu uma excelente ocasião de injetar um pouco de esperança no futuro da educação no Brasil. Ao expulsar a aluna, a reitoria está punindo a vítima do estupro. Pior, está agindo com uma ética troglodita. A Menina só foi informada da expulsão pelos repórteres. A universidade pensou primeiro no release, antes de comunicar o fato à principal interessada.
Estamos, não é de hoje, numa nação de moralidade hipócrita: os colonizadores portugueses inauguraram a prática do turismo sexual ainda no século 16, atravessando o mar-oceano pra saracotear com negras e índias em terras brasileiras. Até mesmo numa novela (salvo engano, "Água Viva", de Gilberto Braga), uma personagem era quase linchada em Ipanema por fazer top-less, copiando na ficção um fato real acontecido no Rio. Nosso carnaval exibe corpos em detalhes de livro de medicina e uma mulher não pode mostrar os peitos na praia. Nossas praias de nudismo, um convite à liberdade, são um dos territórios mais machistas e escrotos que já vi: homem sozinho não entra, dois amigos não entram - só entra casal hétero ou duas mulheres. Isso é norma! Tentem explicar isso pra um casal gay francês que só queria dourar o pingolan em águas naturalistas du Brésil...
Vivemos uma época em que, abrindo qualquer revista, podemos saber detalhes anatômicos do ator tal, quantas vezes o cantor X goza ou quem frequentou a cama da modelo Y - contado por ela! O que poderia ser a manifestação sadia da sexualidade, em seus mais variados formatos, se transforma num exercício exibicionista totalmente sem graça. Mas há pessoas, como a Menina da Uniban, que acreditam nisso: elas acham que a sensualidade tão elogiada nas revistas é privilégio democrático. Enfia-se numa minissaia, de repente até fica meio vulgar, mas ela gosta assim e pronto. Como dizia o Garrincha, ela só não combinou com os adversários.

18 comentários:

  1. É isso mesmo, Mário. Concordo com tudo o que você escreveu. Fiz uma provocação sobre esse episódio: http://www.umaviagemimovel.blogspot.com/

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  2. Pois é, Mário. Pleno século 21, na maior metrópole da América Latina, uma das cinco maiores do mundo e acontece um episódio fundamentalista destes.
    O que a gente pode dizer?
    Que o feminismo não realizou mesmo todas as tarefas para as quais nasceu, como lembrou há dias o Contardo Caligaris, é apenas um dos comentários possíveis.
    Que essa pseudo-universidade não cumpre com os mínimos requisitos pedagógicos e educacionais, é outro - perdendo, assim, uma enorme chance de debater o assunto dentro de seus muros, que era a única atitude cabível.
    Ao passar a mão na cabeça dos vândalos machistas, apenas suspendendo 6 ou 8 das dezenas que participaram de um quase linchamento, a universidade chancela a impunidade dos estupradores em potencial. E o que é pior - manda o recado de que aprova esse tipo de atitude.
    Também não vi o prefeito, o governador, o secretário da Justiça, secretário de Direitos Humanos, secretária de Conselho da Mulher, Ministério Público, etc, tomarem a frente de uma investigação.
    Meninas, da Uniban ou não, cuidem-se. Não vivemos tempos libertários, nem tolerantes, apesar da imagem passada pelo Brasil do Carnaval e das praias aparentemente despudoradas. Que é também o país do turismo sexual (como vc lembra, desde as Caravelas) e da prostituição infantil.
    É bom a gente botar a boca no trombone e cuidar disso já. Senão, sabemos, piora muito.

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  3. A atitude da Uniban é inconstitucional. Se eles estão certos ao afirmarem, mesmo que não diretamemte, que a moça é puta, não consta que putas deixem de ser cidadãs e não possam ter acesso a universidade.
    É um caso para a Gabriela Leite, a socióloga ex-puta, militante porreta contra a hipocrisia, criadora da Daspu. Sugiro que ela crie uma coleção dedicada a Uniban.

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  4. Tá tudo muito esquisito, mesmo. Uma amiga ironizou em cima deste episódio, perguntando se por acaso os agressores desta moça não gostavam de bunda de mulher? Até gostam, acho, mas que a bunda venha embalada pra presente, e só pra eles, não que a bunda assuma personalidade própria e ouse desfilar em baixo dos seus narizes, sem que eles possam tirar uma lasquinha. Tá tudo muito esquisito. Em segundos, um movimento pode explodir e as consequências desta explosão pode ser (vem sendo) bem triste. Ouvi de um mlk de 20 anos: É uma vagabunda, sair de casa vestida daquele jeito. Ora, se alguém com 20 anos de idade (assim como a média dos agressores) ainda carrega uma opinião dessas, a respeito da mulher, então, meu amigo, a coisa está longe de mudar. Salvo as famosas da mídia, que estas sim, podem fotografar ou desfilar semi-nuas, porque aí é bacana, é cool, é hype. Faça-me o favor...

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  5. Fiquei pensando. Mesmo que a Menina consiga na Justiça a "reintegração de posse" na faculdade, será q vai ter clima pra ela estudar lá?
    Ester, eu acho que, por enquanto, a super Gabriela não deve entrar na história. Até prova em contrário, a moça é, no máximo, portadora de mau gosto pra se vestir. Não é puta.
    Heitor, pior que alguns desses meninos saem exibindo a bunda com umas cuecas tão mequetrefes...

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  6. É, eu concordo com vc Mário - se eu fosse a Menina, eu é que não ia querer voltar pra aquele antro...
    Eu só ia querer uma puta grana, sem risco de trocadilho...
    Cada atitude que esses donos da Uniban tomam, só aumenta o valor do que a Menina vai poder pedir.
    Será que eles não tem diretor de marketing??? Porque de Ética não tem mesmo, está bem claro.
    Eles são a reencarnação das Senhoras de Santana, do janismo, do moralismo medieval da pior espécie...

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  7. se por preconceito tivessem exigido q eu mudasse de roupa e eu estivesse em uma universidade, eu teria me recusado. não posso compactuar com preconceito e com a violência contra a mulher. inúmeras celebridades, modelos, apresentadoras e atrizes usam minivestidos e todos se estapeiam pra pedir autógrafo. bastou uma anônima, merece ser apedrejada? e onde estavam os alunos q se uniriam pra defendê-la? defender o direito dela de ser mulher, de vestir o q quer? preconceito e violência contra a mulher devem ser condenados sumariamente. aqueles q se omitiram e não se uniram pra defendê-la, são igualmente culpados. voltamos aquela horrível premissa de q se uma mulher de minivestido é estuprada a culpa é dela. no alcorão é assim, uma mulher q é estuprada pelo irmão, a culpa é dela. q vergonha desse país e desses horrores. pior, vi umas meninas dando entrevistas e condenando como se elas pudessem publicamente julgar alguém só pelo o q a pessoa se veste. triste país.

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  8. Muito bem Mário, usar seu talento para discutir, com fino trato, um episódio tão terrível como esse. Parece que estamos retrocedendo, é inconcebível tamanho preconceito e violência, e o pior é condenar a vítima e justificar, com falsa moral, a atitude dos agressores. Abs, edi

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  9. Hoje, o reitor voltou atrás. "Desexpulsaram" a Menina da Minissaia. Alguém me enviou por email uma ótima. Que a advogada da Uniban teve que se retirar do caso porque só pode entrar no forum de saia.

    Edi, é difícil apelar pro fino trato. Tem hora que uma boa Catifunda é fundamental.

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  10. Mestre, eu não contei tudo, vale a pena assistir, ainda!

    Eu li um texto legal pra adicionar à essa discussão (fora o teu, amado mestre, que é insuperável). Aqui ó. (ah, não dá pra colar mensagens aqui, desisti)

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  11. Mário, você sabe fazer catifunda com classe. Fiquei espantada com o que assisti nos jornais hoje cedo, a juventude,estudantes da tal universidade, expressando opiniões tão reacionárias, que não faria inveja à juventude nazista do século passado. E pensar que a juventude é a esperança de um mundo menos preconcituoso, mais fraterno... Abs, Edi

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  12. Querido, adorei seu comentário. Vamos combinar o seguinte: se ela sair na Playboy, só um de nós dois compra e empresta pro outro, tá bom? Beijão, roveri

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  13. Alguém lembra de um filme pornô que passou nos cinemas do centro há alguns anos? "A COLEGIAL QUE LEVOU PAU". Lembrei agora, não sei porque...

    Serginho, a Playboy vai encarar essa? Fernanda Young na edição de novembro... E a Mary Quant de São Bernardo em dezembro... uau...

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  15. O mais ridículo foi Fernanda Young se defender e justificar dizendo que era a primeira mulher que escreveu dez livros a sair na Playboy.
    Será que alguém que tiver acesso a revista poderia me contar me dizer qual é a diferença entre a xoxota dela a da de Mulher Samambaia, Melancia, Moranguinho?

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  16. Puta ou não puta, o que importa mesmo é que as empresas de educação, afinal é isso que elas são - EMPRESAS, mostram que não têm a menor capacidade pra lidar com essa juventude que está aí. Afinal, alguém viu algum movimento da Uniban pra reunir pessoas tarimbadas pra tentar entender o que aconteceu e pra se prevenir de futuros desastres? A única coisa que importa pra essa gente, é o negócio, é a mensalidade de milhares entrando no caixa no fim do mês.
    Dizem que o futuro do país são as nossas crianças, mas e os nossos jovens, o que são?

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