sexta-feira, 27 de março de 2009

Os olhos azuis do Lula

Vamos deixar o passional de lado e, por um instante, esquecer as besteiras que Lula e Os Seus andam cometendo. Vamos nos concentrar nas recentes declarações do presidente diante do alto coronelato internacional. A crise, disse Lula, foi causada "por gente branca de olhos azuis que, antes da crise, parecia que sabia tudo e agora demonstra não saber nada".
Minha pergunta é: ele mentiu?
Quando a grana rolava solta, ninguém convidou o terceiro mundo pra comer uma fatiazinha do bolo. Agora que a água atingiu a região glútea, neguinho olha pra baixo e vê a gente?
Lula diz que nunca viu banqueiro preto ou índio - o homem não para de passear pela África, algum banqueiro escurinho ele deve ter visto, mas esqueceu.
Pode não ser uma das dez frases mais elegantes da História, concordo - e até levou o Tutty Vasquez a dizer no Estadão que o Lula está aplicando a lei das cotas racistas, digo, raciais na economia mundial - mas uma coisa é certa: o Lula fala a língua que a maioria entende. Se tivessem coragem de falar a mesma coisa, Fernando Henrique Cardoso ou José Serra usariam estruturas gramaticais tão empoladas que nem seus assessores entenderiam o sentido. Lula fala que nem o zelador do seu prédio ou o tio caipira que adora cuidar da churrasqueira nas festas de família.
Mais interessante ainda é tentar relacionar essa "crítica ao olho-azulzismo" com a ascenção de Obama e com a safra de filmes multiraciais que tomou conta dos cinemas. Não é questão de cotas. É realismo: o mundo mestiça-se cada vez mais. Os países europeus - brancos, de olhos azuis - pagam agora (e com má vontade) a fatura do colonialismo. No século 19, eles não se incomodaram de cruzar mares e mostrar pra negrada quem é que sabia das coisas. Os colonizados aprenderam e foram à fonte. São cidadãos europeus, sim. Foram transformados nisso e agora exercem seus direitos. No cotidiano, quem caminha pelas capitais européias atualmente não se sente mais numa grande Santa Catarina - avista casais mistos de monte, crianças mulatas, avista a melange.
O mundo vive agora o que nós vivemos desde abril de 1500. Foram séculos de educação européia nos provando que essa mestiçagem era vergonhosa, enfraquecia o moral e explicava nossa miséria histórica. Agora que eles, lá em cima, viram que a mistura é inevitável, estão tentando nos convencer que white is beautiful, que é preciso separar por raças e cotas, que o bom é ser puro feito cocaína sem talco.
Agora que a conta chegou e é alta, a turma branca de olho azul quer rachar a conta com os escurinhos. É como em mesa de bar que o sujeito mama um litrão de uísque e quer dividir meio a meio com o coitado que só tomou suco de melão sem açúcar. (Lula não gostará dessa metáfora, mas ele não lê blog, mesmo...).

12 comentários:

  1. Tempos atrás, na época daquela explosão de violência do PCC em São Paulo, o então governador Cláudio Lembo cunhou o termo "elite branca". Acho que a frase do Lula é prima dessa, saiu das páginas do mesmo dicionário político. E eu acho que as duas são muito felizes por retratar bem esse período em que vivemos...

    Por falar em Cláudio Lembo, bons tempos aqueles em que fazíamos plantão de fim de semana no jornal (anos 80) e tínhamos que repercutir alguma coisa política com alguém. O chefe de reportagem ordenava: liga pro Cláudio Lembo. E ele, sempre muito simpático, falava sobre qualquer coisa. Na redação a gente dizia que o homem não saia de casa nos fins de semana só para atender ao telefone e dar declarações sobre qualquer assunto. A gente ganhava pouco mas se divertia....

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  2. O Claudio Lembo era uma espécie de Cacá Rosset, falava sobre tudo. Tinha um psicanalista também, que opinava sobre qualquer coisa, lembra?

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  3. Cuidado, Mario. Algum acessor pode ler e contar pra ele. E ai, companheiro?! :))

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  4. Lembrei! Era o Jacob Goldberg. Tinha chefe de reportagem que proibia o repórter de pedir a opinião desses caras...

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  5. beleza, heitor! gostei do seu blog, viu?

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  6. seus argumento são bem concatenados, mas a frase foi tão terrível como inúmeras outras do sr. lula. "zelador"? não. conheço um que pensa antes de falar... rsrsrs. entretanto, gosto do lado nonsense do lula. sou do tipo que se interessa por tudo que é bizarro! ;-)

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  7. Mário,
    Deu hoje no New York Times sobre a frase do Lula. Apesar de o artigo ser longo, é muito interessante. Como sou otimista sempre acho que existe vida inteligente no jornalismo, principalmente no NYT. Mas só o JB deu, por que será?

    Olhos azuis e pele branca sempre foram ‘ideais’
    Maureen Dowd

    THE NEW YORK TIMES

    Enquanto a insanidade internacional predomina, é difícil superar a declaração do Papa de que a camisinha dissemina a Aids. Porém, o presidente do Brasil, conhecido simplesmente como Lula, deu a sua melhor tacada. Num encontro em Brasília, na quinta-feira, com o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown – que tem um talento em se colocar em situações delicadas – Lula começou a engasgar sobre o pão de queijo, e de repente se tornou acusatório.

    – A crise foi causada pelo comportamento irracional de pessoas brancas de olhos azuis, que antes da crise pareciam saber de tudo e agora demonstram que não sabem de nada – acusou o presidente socialista de olhos e barbas castanhos.

    Enquanto o homem de olhos castanhos Brown ficava pálido, Lula levantou o ponto óbvio de que os pobres do mundo estão sofrendo nesta turbulência global por causa dos atos impensados dos ricos.

    "Não conhece nenhum banqueiro preto ou índio" disse Lula.

    Ele também disse à CNN que também iria abordar este tema durante o encontro do G-20 esta semana. Disse que seu passado como um pobre, faminto, desempregado, metalúrgico deu a ele uma ótica diferente de ver as coisas.

    Morei em casas que foram inundadas", ao completar que "algumas vezes tive de disputar espaço com ratos e baratas e o lixo que vinha junto com a água".

    O ‘Lula Lulu’ pelo "Brasil maluco" como apelidou o The New York Post se tornou a grande notícia, exatamente como o presidente Barack Obama encontrou Vikram Pandit e um grupo de banqueiros de barba branca, que receberam ajuda financeira do governo americano, na Casa Branca – alguns dos quais, como Jamie Dimon, tem distintos olhos azuis.

    É verdade que os líderes anglo-saxões que permitiram que os mercados financeiros americanos se transformassem em cassinos como George W. Bush e Dick Cheney são muito, muito homens brancos de olhos azuis.

    É como a banda The Who cantava: "ninguém sabe como é ser um homem mau, ser um homem triste atrás dos olhos azuis. Ninguém sabe como é ser odiado, ou ser pré-destinado a somente dizer mentiras".

    Toda vez que o Dick Cheney olha para a câmera com aqueles olhos azul gelo e diz que Obama está nos deixando menos seguros soa como se ele estivesse secretamente esperando que nós fôssemos atacado somente para provar a sua visão de que Obama é fraco mesmo se ele ficar no meio da fumaça também.

    (Quando chequei a cor dos olhos do Cheney sua filha Liz Cheney me enviou de volta um e-mail brincando "desculpa mas essa informação é restrita").

    Antes de Obama, cujos olhos castanhos são opacos quando você os olha, presidentes eram mais conhecidos por seus olhos azuis. Aqueles com olhos castanhos, Richard Nixon, Lyndon B. Johnson, foram um fiasco.

    Durante a história, encontramos um Jesus sem a aparência de um palestino ou barbies que não parecem negras. Olhos azuis e pele branca sempre foram vistos como ideais.

    O ator Paul Newman, cuja marca sempre foram os olhos azuis, uma vez previu em seu epitáfio: "aqui jaz Paulo Newman que morreu fracassado porque seus olhos se tornaram castanhos".

    Pesquisas mostram que pessoas com olhos azuis são consideradas mais inteligentes, atraentes e sociáveis. Um estudo de 2007 da universidade Louisville conclui que pessoas de olhos azuis são melhores planejadores e pensadores estratégicos – superiores em atividades como golfe, corridas e preparação para exames – enquanto pessoas com olhos castanhos têm maiores reflexos, fazendo delas boas em hockey e futebol.

    O discurso agressivo de Lula reacendeu um debate histórico.

    Quando eu era pequena, crescendo em uma casa com a imagem de um Jesus de olhos de azuis e um JFK de olhos azuis, por isso eu senti que meus olhos castanhos eram menos atraentes do que os olhos azuis de meus irmãos. Fiquei tão obcecada com isso, que rasguei uma foto de uma modelo de olhos azuis e guardei-a no meu diário. E minha mãe afirmou para mim: "Você olha para os olhos azuis. Você olha dentro dos olhos castanhos".

    Mais tarde, teríamos a trilha do Van Morrison que dizia ‘ a garota de olhos castanhos’.

    Antes de Obama, quando entrevistei os filhos de imigrantes com olhos castanhos que estavam pensando em concorrer a presidente, Mario Cuomo e Colin Powell, pareciam rasgados ao mostrar o quanto longe foram em relação a seus pais.

    Agora, rostos negros estão aparecendo em todos os tipos de propagandas.

    Com a primeira-dama Michelle estimulando os estudantes a se esforçarem por um A e a promessa de fazer a escola "legal", os olhos castanhos podem finalmente e, com todo o direito, superar os azuis como as janelas dos vencedores.

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  8. Não entendi, Vita... Por que os jornais daqui não publicaram? Qualquer flatulência do New York Times vira manchete em nossa imprensa... Deve ter sido distração. Nossa imprensa é democrática e plural. Todos sabem disso.
    Agora, por exemplo, que o Kassab já serviu pra eleger Serra e derrotar a Marta, começaram as matérias falando mal de sua gestão. Só agora ele começou a gerir mal a cidade? Até anteontem, era tudo lindo?

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  9. Será que a repórter do NYT é comunista? Sei não...

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  10. Puta sacanagem comigo! Nunca pensei que meus olhos pudessem causar qualquer crise... Ou será que, distraída, nunca percebi o alvoroço que causo? hehehehe
    Tô amndo o seu "brog", companheiro!
    Beijocas

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  11. Bom, se a mistura cultural é uma coisa ruim ou boa, não sei claramente o que dizer. Vejo um lado bom em poder comer comida japonesa, comida árabe, pizza, etc. Acho que tudo deve ter um equilíbrio. Assim, acho que deve ser legal ir ao Japão e ver a cultura japonesa, comer sushi, ir a Alemanha e ver alemães tomando cerveja quente, ir a Itália e comer umas massas maravilhosas. Também acho legal ter religião cristã. Quando o mundo inteiro se misturar, que graça vai ter ser tudo igual? O legal de ir a Europa, por exemplo, é ver a cultura européia. Como fica quando eu chego em Paris e vejo um monte de árabes e africanos? E a taxa de natalidade deles é muito alta, ou seja, eles serão maioria da população um dia. Pelo amor de Deus, já deixo claro aos demagogos de plantão e aos que têm complexo de inferioridade: Nada contra esses povos! Quero que esses povos existam também mas que também deixem os outros existirem. Já vi notícias de que em cerca de 40 anos a religião muçulmana será maioria em vários países da Europa. Será que essa transformação é legal? Só vendo para saber. Já pensou alguns muçulmanos radicais aqui no Brasil mandando derrubar a estátua do Cristo redentor assim como o Talibã fez com os Buddhas de Bamiyan? Estavam lá desde o século V!!! Eu acho que o muçulmano tem direito de ser muçulmando como o ateu tem direito de ser ateu, o espírita tem direito de ser espírita, o umbandista de ser umbandista, cada um tem que ter o seu direito. Claro que pode haver uma maioria mas cada um na sua, a maioria de africanos na Africa, de orientais no Oriente, de europeus na Europa, essa que é a graça, a diferença. Assim é legal, o que não é legal é ver sua cultura ser engolida por outra. Deixo claro de novo aos demagogos de plantão e aos que têm complexo de inferioridade: todo mundo tem direito de ir e vir de qualquer lugar. Só não acho legal quando essa ida ou vinda transforma a vida do anfitrião. Enfim, é o que foi dito, a Europa infelizmente colhe o que ela infelizmente plantou. Explorou, agora os explorados querem de volta.

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