quarta-feira, 18 de março de 2009

Cor de rosa-choque..

Clodovil, como disse o Otávio, passou pro andar de cima. Não vou rasgar as vestes, jogar cinzas na cabeça e dizer que estou de luto fechado. Mas também não vou festejar. Desde que ele caiu doente, domingo, me peguei pensando em Clodovil. Não com pena, nostalgia ou revanche. Mas - à maneira do Guzik - pensando no que ele representava de nossa alma brasileirinha.

Começava pelo nome, que era bem esquisito. Será que ele teve homônimo?

Lembro de Clodovil no comecinho dos anos 60, dando conselhos de moda e etiqueta no programa TV Mulher - um matinal da Globo que, visto de hoje, era verdadeiramente ousado. Naquela época, crianças, havia pessoas na TV que acreditavam na existência de vida inteligente no mundo real. Sério. Era um programa pra mulheres que não se limitava a dar receitas, entrevistar celebridades e discutir a vida sexual da apresentadora papa-anjo.

TV Mulher juntava Marília Gabriela (não adianta falarem mal, sou fã) e Nei Gonçalves Dias fazendo a parte jornalística, Marta Suplicy despontando com seus destemidos conselhos sexuais (e eram!) e Clodovil fazendo desenhos de roupas para quem escrevesse. Era bonito, sabia? Ele desenhava vestidos de noiva pra moças da periferia, fazia coisas bonitas e factíveis. E dava conselhos hilários. Recordo um dia em que ele chegou no estúdio passado com uma mulher que vira caminhando pela Avenida São João (a Globo ficava na altura do metrô Marechal Deodoro). A mulher era gorda, estava com vestido de malha, carregando uma sacola de feira e com bóbis na cabeça. "Parecia um repolho", disse o Clodovil. "Fiquei torcendo pro Minhocão desabar na cabeça dela".
Numa outra vez, alguém escreveu preocupada com as roupas que os parentes iam usar em seu casamento. E ele: "Meu amor, parente é que nem dente: quanto mais afastado, melhor, porque junta menos sujeira". Um clássico.

Depois, é claro, Clodovil quebrou o pau com Marília Gabriela - no ar! Saiu do programa. Entrou em outro, brigou, a bicha era barraqueira.

E começou a emitir os comentários mais homofóbicos que já vi - especialmente pra quem catava garotos de programa nas imediações do Masp (um amigo meu, também já transferido pro andar superior, foi programa dele, uma vez). Clodovil parecia tão preocupado em ser aceito pela clientela endinheirada, pelas velhinhas que iam ver suas peças, era tão atento a esse público que acabou se tornando mais conservador que eles. A sociedade mudou e Clodovil dava sinais de não acompanhar.

Quando estreamos "Galeria Metrópole", em 2004, ele tinha um programa na TV Gazeta. E convidou seu amigo Rubens de Falco, estrela da peça, pra ir lá. Oba, divulgação. Pois ele só deixou o Rubens falar o nome da peça, mas não quis comentar o tema (um velho homossexual de 70 anos recusa-se a ir na parada gay, levado pela sobrinha lésbica), porque não gostava dessa besteira de parada. Palavras dele. Até o Rubens, que não era exatamente um militante do movimento arco-iris, ficou chocado.

Essas atitudes não me agradavam, claro. As opiniões dele eram patéticas. Sua solidão - quem viu ele posando pra Caras, sentado no banheiro de sua casa em Ubatuba? - era incômoda e assustadora. E ao mesmo tempo, algumas pessoas diziam que, a portas fechadas, sem flash por perto, ele era de uma gentileza comovente.

Seres humanos... ah, seres humanos. Tão enrolados em seus frágeis labirintos...

9 comentários:

  1. CORREÇÃO ABSURDA: TV Mulher era do começo dos anos 80!!!!

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  2. O Teat(r)o Oficina abre 2009 com a remontagem de uma das peças de maior sucesso do grupo. É hora de Bacantes!

    A estreia será no Sesc de Araraquara (interior de SP) dias 28 e 29/03, porém, na próxima segunda-feira, 23/03, os paulistanos terão a possibilidade de acompanhar um ensaio corrido de Bacantes.

    A divulgação desse ensaio será feita apenas por blogs, pois queremos estreitar nossos vínculos com esse poderoso meio de comunicação. Assim, contamos com você!

    Caso interesse a você, envie um e-mail para brunocastro@teatroficina.com.br que lhe mandarei o release e informações adicionais (ou ligue para 11-3104.0678).

    Obrigado,
    Bruno Castro
    Comunicação Teat(r)o Oficina

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  3. Oi, Mario
    Sabe que eu acredito que entre quatro paredes, ele fosse mesmo uma gentileza comovente?! Como vc bem disse, seres humanos geralmente não acham a saída dos labirintos que eles mesmos se enfiaram. E como todos sabemos, ninguém é só uma coisa nesta vida, né não?
    Abraço, e adoro seu blog!!

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  4. Pô, Heitor, legal, obrigado por seu comentário!

    a gente mesmo dá tanta cabeçada em nossos labirintos, rapaz... deve ser por isso que eu sempre torço pelo minotauro... rs

    abraço.

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  5. Ah, nós humanos, tão (des)humanos!
    Gostei do espaço e do conteúdo!

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  6. Valeu, Larissa. Apareça mais vezes, sinta-se em casa. MÁRIO

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  7. O Clodovil é a única bicha do Universo que não vai virar purpurina depois de morto.

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  8. Querido adorei o blog.
    Não entendi a demora para entrar no mundo da Blogosfera.


    Abs


    Ricardo

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  9. Otavio, ia ser uma inundação purpurínica...

    Ricarditcho, eu sempre fui meio lerdo mesmo... Ô tristeza...

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