quinta-feira, 30 de abril de 2009

Tiro ao Álvaro

Os corredores do Banco Central, em Brasília, devem ter ficado mais ou menos como a redação do Estadão há alguns anos, quando o então diretor de redação Pimenta Neves matou a ex-namorada Sandra Gomide a tiros. Desde quarta-feira, os jornais traziam uma notícia de várias maneiras estapafúrdia: um funcionário do BC, 48 anos, casado, pai de três filhos, com bom nível de escolaridade e salário de 11 mil reais mensais, matou dois mendigos por que eles o incomodavam. Assim, simples.
Certamente, hoje surgiram nas rodas de cafezinho do BC os profetas do pretérito, aquelas almas iluminadas que tinham mesmo notado um brilho estranho no olhar do sujeito (não vou nem atrás do nome dele, por que ele não merece, nem vale a pena correr o risco de um processo). Outros lembrarão frases soltas, sinais evidentes e indiscutíveis de que se tratava de alguém pronto para tirar a vida de outro. Em qualquer lugar onde as pessoas se sintam salvas do risco de matar alguém, o assassinato cometido por “um de nós” é um choque anafilático na alma. A respiração fica suspensa, o frio escorre pela espinha e, como numa canção do Milton, nada mais será como antes.
Mesmo sem ser amigo particular do assassino, choca demais a experiência de saber que o sujeito que pegava o elevador com você, que há dois dias quase esbarrou contigo no banco, com quem você poderia ter dividido um espeto de picanha no churrasco de Natal da firma... Esse sujeito, tão parecido com você, pega uma arma, sai de casa e atira em dois mendigos porque eles se acariciavam em público, em plena luz do dia. Matou porque eram dois veados dando mau exemplo aos seus filhos pequenos.
Matou, porque era maluco – já estão dizendo os advogados de defesa. Matou porque já trazia desde pequeno essa deformação de alma – o pai colecionava armas, coleção que ele – o assassino – herdou. Mas se todos os colecionadores de armas saíssem atirando por aí a seu bel-prazer, haveria de faltar cadeia. Já faltam, mas isso é outra história. A coleção de armas estimulou o cara a matar e talvez ele considere que isso seja um bom exemplo para os filhos.
Freudianos de orelha verão no ataque aos dois mendigos gays uma repressão da própria sexualidade do criminoso. Pode ser, quem sou eu pra desmentir? Mas penso cá com minhas goiabinhas, como dizia Stanislaw Ponte Preta, que o assassino empunhou a arma, mirou e atirou porque se tratava apenas de dois mendigos. Dois miseráveis, dois sem-teto – e, certamente, ele deve ter se espantado ao saber que os mendigos tinham nome e sobrenome: Paulo Francisco de Oliveira Filho, 35 anos, e Raulhei Mangabeiro, de 26 anos. Morreram porque eram uns desvalidos, cuja presença “escandalosa” não servia nem para atrair a polícia.
Está no jornal que o assassino confessou o crime mascando chiclete. Parafraseando uma velha praga judia, “tomara que lhe caiam todos os dentes menos um. E que este doa terrivelmente.” Para sempre.

7 comentários:

  1. Precisamos recriar o mundo, Mario. Porque esse que tá ai, já era...

    ResponderExcluir
  2. Mário,
    Sua santa ira também é a minha. E quer saber de uma coisa: esse fulano não será condenado. Se for condenado não será preso, se for preso não ficará mais do que poucos dias enjaulado comendo chocolate suiço. Igualzinho aquele fulano que desonra nossa profissão. Igualzinho ele, que dorme tranquilo em sua cama, mesmo que seus lençois estejam manchados de sangue. Igualzinho ele que foi acobertado por diversos amigos. Igualzinho ele que circula livremente por aí. Igualzinho ele e tantos eles que continuarão matando e rindo porque têm amigos poderosos que pagam seus advogados.

    Mário, a vida humana não vale o lead de um jornal, aquelas 5 linhas que resumem o que deve ser lido. O nojo que eu tenho por esses fulanos não tenho pela barata que piso ao ver sair do esgoto....

    ResponderExcluir
  3. Será que recriar o mundo resolve? O ideal seria reprogramar o homem...
    Vita, o caso do Pimenta Neves, de triste memória, ainda persiste... E pensar que ele arranjou namorada e tudo...

    ResponderExcluir
  4. arrepiante o texto, mário. emocionante e certeiro no último. muito bom! e sim, o caso do pimenta neves persiste. e ele certamente dorme à noite. e namora. embalado pelos amigos que o acolheram no dia do crime. lembra? que nojo! guza

    ResponderExcluir
  5. Os jornalões precisavam ter textos como os seus publicados. Os jornais estão tão anódinos.... Só os raivosos da neodireita falam o que querem... Tenho lido tanta bobagem. Mas como sou obrigado a ler, tapo o nariz e tomo um dramin para não vomitar em seguida...

    ResponderExcluir
  6. Maria do Carmo Camenote Mendes3 de maio de 2009 16:45

    Minha nossa Mário, finalmente te encontrei...
    Juro q procurei por vários caminhos. Mas aí está você.
    Sou Maria do Carmo Camenote Mendes, estudamos juntos na Cásper Líbero (1977 a 1980)
    Você foi padrinho de meu casamento com Sérgio Roberto Masucci (ainda estamos casados)
    Entre em contato...Abraços
    mccamenote@gmail.com

    ResponderExcluir
  7. Mário, muito boa sua reflexão sobre este crime. Depois que li a notícia nos jornais, saí para jantar com uns amigos e o assunto ocupou grande parte da nossa discussão também. É muito bom ver estes ecos no teu blog. sérgio roveri

    ResponderExcluir