quarta-feira, 29 de abril de 2009

A recriação do mundo


Nada mais é o que parece ser. Desconfiamos de tudo. A gordinha feia de voz cristalina pode ser o próximo golpe publicitário de algum agente muito esperto. O sujeito que nos para na rua e pede dinheiro pra comprar um remédio pode muito bem ser um vagabundo habituado a viver dos trocados alheios. Uma pessoa que há muito tempo não dá notícias resolve, sem mais aquela, telefonar e marcar um almoço – não pode ser só saudades, alguma coisa está querendo.
A imagem que vemos pendurada na parede é uma foto. Pode ser uma pintura. Ou não. É um recorte da realidade ou é uma invenção da lente e do artista? O real não está diante de nós. “Olhar e fingir: fotografias da coleção Auer”, a exposição que está em cartaz no MAM do Ibirapuera desperta mesmo pensamentos atravessados. O mais suave deles é: será que eu também tenho capacidade de recriar o mundo?
As quase 300 imagens selecionadas pela francesa Elise Jasmin e pelo brasileiro Eder Chiodetto estão instaladas de maneira a criar um jogo de inteligência. Uma foto conversa com a outra, mesmo tendo um intervalo de mais de um século entre elas. A exposição junta trabalhos dos primórdios da fotografia a obras contemporâneas – e muitas vezes fica difícil distinguir qual é qual, sem olhar a legenda.
A mostra merece mais que uma visita. Há detalhes que escapam ao primeiro olhar, há outros que se faz questão de rever... Perca alguns instantes diante de “Uma linha entre você mesmo”, trabalho do belga Pierre Houcmant, de 1986: na parede, um rosto de mulher parece colocado diante do espelho, mas é apenas uma montagem. O efeito é perturbador. Assim como a foto “Narciso”, do albanês Gjon Mili. A imagem, de 1952, é a de uma máscara quebrada na altura da testa, cercada por coisas que lembram lixo. Parece pouco?
Nenhuma das fotos expostas é o que aparenta ser. A idéia era fugir do fotojornalismo, a imagem que retrata o que está diante da lente. Assim, mesmo quando parecem ser apenas um retrato comum, as fotos exibem algum traço fora do padrão, algo que não devia estar ali e é justamente o que dá o toque de mestre. O “Retrato de France Gassmann”, de 1935, é um exemplo. A pirada “Surrealisme” (1950), de Pierre Jahah, é outro caso, com a mão que surge do nada para repousar sobre a cadeira... São criações feitas para quebrar a rotina do olhar e dizer que entre o "real" e a "ficção" tudo é muito discutível.
A melhor de todas – e sem autorização para reproduzir – é uma foto de 1975, sem título, assinada pelo suíço John Ducimetiere: um machado com o cabo feito de espinhos. Não há nada mais atual: um objeto cortante, mortal mesmo, cujo manuseio implica em dor e sangue. Essa exposição fala mais de nossos dias do que muitas páginas de jornais...

2 comentários:

  1. Desconfiamos de tudo porque fazemos espelho. Vemos aquilo em que acreditamos, nos vemos.

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