quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um post sem jeito


A conversa alheia me fascina. Volta e meia, eu me pego escutando o que pessoas perto de mim conversam, entretidas, sem se dar conta da minha bisbilhotice. Às vezes, são frases pescadas no meio do assunto. Outro dia, no Extra da Brigadeiro, escutei dois funcionários fofocando, enquanto repunham o estoque da prateleira. “Foi na Virada, menina. Ela largou dele no meio da Virada!” Continuei minhas compras, pensando: esse cara vai odiar a Virada pro resto da vida... Depois, pensei: em que show será que foi? O da Maria Rita? Do Marcelo Camelo? Do Reginaldo Rossi? Ou dos Novos Baianos? Não, ninguém larga ninguém no meio de um preta-pretinha...
Essa semana, eu me trocava no vestiário da ACM quando pesquei a conversa de um professor com o faxineiro, um pernambucano palmeirense apelidado de Tiririca. Caí de pára-quedas no corredor ao lado, eles não me notaram e eu só comecei a me interessar pela conversa lá pelo meio. Era alguma coisa sobre saga familiar – e como pernambucano tem família grande, o papo ia longe. Lá pelas tantas, Tiririca conta de um irmão, que ficou doente e morreu. Tudo muito rápido. “Ele perdeu o jeito de viver”, disse o Tiririca. E eu fiquei pasmado, segurando a toalha úmida, esperando passar o efeito da poesia repentina.
“Ele perdeu o jeito de viver” carrega tanta tristeza, tanto machucado... Seria diferente se ele tivesse dito do irmão: “Ele se entregou à doença”. O resultado seria o mesmo, o irmão teria morrido. Mas o motivo é bem diferente. Quem se entrega desiste, joga a toalha, cede, sai derrotado. Quem perde o jeito de viver, não.
Perde-se o que se tinha: o cara devia ser um sujeito alegre, festeiro, aquele que chega e anima a reunião. Ficou doente e alguma coisa se quebrou dentro dele, ele ‘perdeu o jeito’. Viver passou a ter um segredo, a ser um truque escondido numa cartola impossível. Como uma ordem vinda de fora, um fado contra o qual sempre se perde, apesar da luta.
A gente perde o jeito de muita coisa na vida e nem sempre se dá conta. Perde o jeito de amar alguém. Perde o jeito de saborear uma amizade ou de admirar um gesto. Quando perde o jeito, a gente para de regar a planta, não aduba mais o sentimento, deixa a coisa correr por si. Perde o jeito de ouvir o outro, de reconhecer o erro, de pedir desculpas ou de falar coisas bonitas. Falar bobeira, discutir a sério, rir à toa ou deixar cair o choro. Perder o jeito deixa um vazio. Perder o jeito é um perigo.

12 comentários:

  1. ai, eu tb gosto de ouvir conversas alheias. que pecado hehe. pelo menos vc escreve. agora, eu já não sei onde busco o meu perdão hehe. ralmente ele perdeu o jeito de viver em plena acm é muito poético. pelo lugar comum esperaríamos qq outra frase menos poética. seu texto é ótimo como sempre. eu fui na estreia da peça amanhã é natal com o seu texto e comentei no meu blog. beijos, pedrita

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  3. Dá para por legenda na estauta? A ingnorante aqui não conhece. Perder o jeito de viver, aquele que criamos com tanto esforço, pode ser bom, às vezes ele não nos serve mais, caducou, vem uma perda, uma ruptura e a a gente se desconstroe, como se usa dizer atualmente. A gente se vê obrigada a mudar, mas para que se busque alternativa a essa espécie de morte de si mesmo é preciso que o novo jeito esteja a caminho, muita fé e de preferencia a ajuda de um bom psicanalista. Vale a pena, é uam bela viagem.

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  4. Pedrita, seu post sobre a peça foi bem bacana. Humildemente, agradeço.
    Ester... Reconstruir-se é sempre legal, mesmo que custe perder algumas coisas durante a reforma. Mas perder o jeito de viver é outra coisa, eu acho. É não não ver mais caminho.
    Quando vc encontra outro jeito de viver, sim, é lindo. Mas perder... não...
    bjs

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  5. Em tempo, Maria Ester. A foto é do túmulo de dom Pedro (ou dom JOão, agora me confundi), o rei português que era apaixonado por Inês de Castro. Esse túmulo fica no mosteiro de Alcobaça, entre Lisboa e Coimbra. O túmumo dele está de frente ao dela, para que no Juízo Final, um seja a primeira pessoa que o outro enxergar.
    A Inês foi morta por ordem do pai do então príncipe, pra q eles não se casassem. Quando o rapaz subiu ao trono, mandou exumar a falecida e obrigou a corte a beijar-lhe a mão.
    O que eu gosto na foto é o jeito do cachorrinho, eternamente fiel. E eu nem gosto de cachorro.

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  6. oi mário, a ana maria disse que mora em porto alegre. eu lembrava q ela mora no sul pq ela já tinha ido ver peças nos países vizinhos, mas não lembrava qual cidade. eu pedi e ela avisou. quem sabe a produção leva o espetáculo até lá. lá há um sesc bem bacana. beijos, pedrita

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  7. Cara, como é bom ler essas coisas tuas. Adorei o blog, esta nota e a das três meninas em especial. Virei seguidor. Um abração. Marcelo Ventura

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  8. Marcelo Ventura, o mito! Bem vindo, caríssimo!

    Pedrita, Porto Alegre tem um super festival de teatro, lindo! Vou avisar a produção sobre o Sesc de lá. Será que a Ana Maria tem as dicas?

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  9. Denise Del Vecchio12 de junho de 2009 15:47

    Mário
    Um autor como vc só poderia ser um observador agudo, recolhendo na vida a matéria de sua escrita. Transforma o cotidiano em poesia e arte. Por isso emociona e diverte.
    Agora que te achei vou te seguir.

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  10. Parabéns pelo seu blog que foi mencionado no blog que indiga blogs http://ednamoda.blogspot.com/

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  11. Gente, estou impraticável!
    Indicado num blog de blogs!

    E uma das melhores atrizes do Brasil, mulher que enfrenta as cabras mais lúbricas do teatro, diz que vai me seguir!!!! É muita responsa!

    bjs às duas.

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  12. Sr. Mário Viana, gostei do seu blog, é muito interessante ver que temos gente de alta qualidade nesse Brasil. Outra coisa, o senhor, como intergrante da equipe de Poder Paralelo, ajude a tirar a personagem Lígia da geladeira, ela merece ser mais ousada e lutar, inclusive consigo mesma, para conquistar o amor do Tony.

    Parabéns a vocês pelo trabalho.

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