segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tira o tubo! Tira o tubo!


Preparem o carbono 14. No começo dos anos 80, Jô Soares ainda não se achava mais inteligente que seus entrevistados e fazia alguns ótimos programas de humor. Um de seus melhores quadros foi o do general que entrou em coma no dia 1.º de abril de 1964 e só voltou à consciência durante o período da abertura política. Suas cenas eram sempre no hospital, com ele recebendo o soro que o mantinha lúcido. O cara levava um choque a cada programa, quando contavam de quem era situação em 64 e tinha virado líder da oposição, etc. A cada surpresa, ele chorava: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!” O bordão virou um sucesso.
Atualmente, cada vez que leio a primeira página do jornal sinto uma devastadora vontade de gritar “tira o tubo!”. Mas gritar pra quem? Pra onde o ceguinho corre na hora do tiroteio? Os escândalos se sucedem com a velocidade de um seriado de aventuras – e daqueles com produção de quinta (atores péssimos, elenco feio, uma desgraceira só). A coisa chegou a tal ponto que o maior perigo, hoje, é nosso corpo deixar de produzir o hormônio da indignação. A anestesia moral nos ronda. Isso é apavorante.
Câmara dos Deputados e Senado Federal entraram num racha de devassos: competem para ver qual entidade produz mais pouca vergonha às custas do dinheiro público. Depois de decidir que podem viajar pra cima e pra baixo com nossa grana, os políticos acobertam uma série de “atos secretos”, nome educado para uma calhordice sem tamanho. Em vez de cobrar um mínimo de decência, o presidente do Senado, José Sarney, sobe à tribuna para chorar as pitangas e se dizer injustiçado, perseguido, caluniado – mas resolver o problema, que é o mínimo que se espera, nada.
Com isso, já teríamos assunto suficiente para chamar mais uma cerveja indignada. Mas lá do Cazaquistão – um daqueles lugares que ninguém encontrava nas partidas de War – o presidente Lula mete sua colher no angu e acaba de enfeiar o que já não era bonito. Dizer que ninguém pode falar de Sarney... pessoa comum... Enfim, quem lê o noticiário sabe do que estou falando. É doloroso ver a que ponto desce um político de passado combativo. Nada justifica, nem mesmo as negociações escusas pra se manter no poder a qualquer custo.
É de tirar o tubo de qualquer um. Em outra página do jornal, políticos do PT flertam com Orestes Quércia, oferecendo a ele uma cadeira de senador, com a promessa de 4 milhões de votos garantidos. Quatro milhões de quem, cara pálida? O meu voto, o Quércia não leva. Pra senador do PT, eu sempre votei no Suplicy, mas até ele saiu chamuscado com a farra das passagens aéreas. Flertar com Quércia, notório freqüentador das listas de políticos com enriquecimento estranho, equivale a pegar todos os panfletos, brochinhos, faixas, bandeiras e passeatas do glorioso passado petista e jogar na caçamba do lixo reciclável – quem sabe, dê pra fazer alguma coisa que preste com esse entulho democrático.
Numa terra que prima pelo império das leis – não pode fumar, não pode beber, não pode fazer festa na Paulista – chega a ser comovente o cinismo aviltante dos políticos. Ou você não tem vontade de sentar no meio-fio e chorar feito criança que se perdeu da mãe na feira? No mesmo país em que o seu suado imposto de renda ajuda a governadora Roseana Sarney a pagar seu mordomo em Brasília, um político de Brasília apresenta projeto obrigando teatros a exibir legendas para surdos – teatro com legenda, vocês leram bem – sem especificar de que bolso sairia o dinheiro para tal benemerência. A cada mês surge alguém com uma nova taxa, um impostinho aqui, uma obrigaçãozinha ali... E a nosso favor, nada.
Com o que contam os protagonistas dessa patética comédia de erros? Com a nossa pouca memória, fundamental para suas constantes reeleições? Com a nossa falta de vontade de esperar por eles ‘lá fora’ e descer o merecido cacete? Que reação, enfim, será necessária para que eles parem de se lixar para a opinião pública? Aquele deputado, coitado, foi o único sincero – os outros também se lixam, mas não abrem a boca.
Do início da abertura pra cá, passaram-se 30 anos... Tempo em que muita coisa mudou – mas algumas permaneceram tristemente as mesmas. Ainda dá pra rir de quem grita “Me tira o tubo!”. Mas, antes, nós ríamos do general recém-saído do coma. Agora, são os políticos que ouvem nossos gemidos na enfermaria da moralidade pública – e riem da nossa cara.

13 comentários:

  1. O tubo já deveria ter sido arrancado quando reelegeram o Lula. Depois disso, só esbórnia...

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  2. Otavio, se minha memória não deu tilt, o PSDB ajudou bastante na reeleição do Lula (Alkmin? fala sério). O tucanato temia a crise e apostou nos efeitos nefastos dela sobre a popularidade do Lula. Apesar de tudo, o Homi tá com a tal popu lá em cima. Vai entender.

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  3. Você bem sabe que não faço defesa nem de um, nem de outro. O fato é que, depois do Mensalão, passar a borracha por cima e exibir um sorriso sonso passou a ser uma praxe. FHC fez uma merda de governo, e acho até que Lula tem sido melhor (quem diria). O fato é simples: votar num cara que teve todos os seus homens de confiança envolvidos no escândalo sem dar nenhuma explicação e sem sequer ser questionado abriu a porteira. O resultado está aí. Tira o tubo!!!

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  4. Como diria o papa Bento 16, durante o congresso da eucaristia: é foda.

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  6. Brizola, bom de frase que era, acusou Collor de ser "filhote da ditadura". Acho que nós também o somos, não como crias para o mal, mas como pessoas que foram vitimas da ditadura ao serem afastadas da história do três poderes no Brasil. Não vejo outra explicação para termos acreditado tanto, de uma forma ingênua, que um partido chegaria ao poder e não se corromperia, dentro de um sistema criado para ser corrupto e sendo o ser humano o que é.
    Eu fico com o Bolsa-familia, o PROUNI, o Luz Para Todos, o programa de contrução das cisternas no meio sertão, que foram projetos que tinham e tem a ver com que a gente acreditava,com as as coisas consequentes pelas quais sonhamos. Apesar da nossa inocência forjada nos porões da ditadura militar e da censura , mudamos muita coisa.
    E ainda há muito a mudar. Para isso é preciso preservar essa bosta de democracia, para que as novas gerações não fiquem alienadas como nós ficamos. Aos poucos a gente vai avançando, uma trilha clara, apesar da dor e da raiva.

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  7. Ester, eu nunca tinha feito essa relação... Muito interessante! Filhotes da ditadura... ou da ditabranda, como quis a Folha, num momento infeliz.

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  8. Mário,
    Essa esbórnia só termina quando a populaçãoa cordar,não reeleger ninguém e olha, estou começando a considerar posições mais radicais...voce viu o que ingleses e americanos fizeram com as casas dos CEOs quando a crise veio destruíndo tudo?!Pois bem, precisa disso aqui também!Eles acham que tudo podem,e isso não!

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  9. Mário, pedido e observação. pedido: gostaria que você escrevesse sobre como é escrever, colaborar em uma novela. como faz? você fica em casa ou precisam se reunir e até que ponto você pode se permitir criar e desenvolver sob seus criterios e tal? a observação: como já disse aqui, tenho gostado bastante da novela. só acho péssimo esse tic dos personagens falando 'vingança' e, em seguida, 'vendetta'. todos fazendo isso soa falso, barato. Abs.

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  10. Malu, a gente é ordeiro... rs... cordial... cordeiro... kkkkk

    Nathan, me passa o seu email. Esse assunto é mais específico. Quando à vendetta... A culpa é desse povinho monoglota... Obrigam a gente a falar vingança e vendetta... Pior é a coitada da Gloria Perez, que só fala em firaghi estrangeira... o que é a mesma coisa!

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  11. hahaha essa daí, que por aqui se chama 'bestio das indi...', poucos são os que eu conheço que conseguem encarar. meu e-mail: nathanael_garner@hotmail.com

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  12. Um dos sonhos que tenho é trancar o Jô, a Marilia Gabriela, a Silvia Popovic e o Datena num estudio entrevistando o LuLLa e deixá-los lá uns quatro anos... Quando ao braziu varemnós, só há uma coisa séria: A paixão da Fiel pelo Manto...

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