quinta-feira, 6 de maio de 2010

Bonecas cobiçadas


Durou poucas horas a carreira de mãe de uma adolescente paulistana da zona leste. Do alto de seus 15 anos, ela vestiu um jaleco branco, embrenhou-se em uma maternidade e de lá surrupiou um bebê recém-nascido, dizendo à mãe biológica que a criança passaria por exames clínicos. Teve sangue frio e imaginação, a menina. Quando chegou em casa, os parentes estranharam a criança, apertaram e a adolescente confessou. A polícia foi acionada, o bebê devolvido à família verdadeira e tudo acabou bem. Acabou?


Leio nos jornais que a menina fez isso por frustração: há poucos dias, perdeu a criança que estava esperando, já no quarto mês de gestação. Uma menina de 15 anos grávida já é, por si, uma notícia incômoda. Pela imprensa, chegam os detalhes: era o segundo aborto espontâneo da menina. 15 anos, dois abortos, aumenta o incômodo. O Estadão chegou a dizer que o marido, de 51 anos, tinha ficado constrangido. E tascou isso como um fato comum. O marido, vejam só, teria 51 anos. 51. E isso não constrangia ninguém. Na sexta, o jornal deu a informação correta: 51 anos tem o pai da menina. O marido, pai dos dois filhos não nascidos, tem 'apenas' 18 - ou seja, também um menino.

A menina se diz arrependida, a mãe biológica disse que perdoa a ladra, porque entende seu desespero. O juiz não entendeu assim e mandou recolher a menina a um reformatório ou algo do gênero. Não é a melhor solução, a gente sabe como são esses lugares. Mas também não dá pra deixar passar em branco. Uma pessoa não monta um espetáculo - comprou jaleco, fingiu-se enfermeira, criou uma história - sem imaginar que isso vá ter alguma consequência. Tem, sim.
Mas quem explica a história dessa menina? Ela, certamente, só difere de centenas de outras por ter, primeiro, abortado, e em seguida, ter roubado um bebê. Ainda outro dia, numa denúncia de suspeita de troca de bebês numa maternidade, a TV entrevistou um dos pais - um garoto, que mal tem idade para cuidar do irmão caçula. Reportagens informam que o número de adolescentes a caminho da sala de parto aumenta dia a dia.
Por que isso acontece em escala cada vez mais assustadora? A maternidade é linda, eu imagino, especialmente quando é uma opção ou uma decisão tomada com consciência. E não como desculpa para sair de um lar esbagaçado para outro, certamente parecido. Às vezes, acho que a gravidez na adolescência é tão opcional quanto na idade madura. As informações sobre sexo, uso de camisinha e métodos anticoncepcionais podem não ser nenhuma maravilha, mas estão aí. Fala-se de sexo com mais desembaraço do que há 20, 30 anos. E, no entanto, a situação parece ter sofrido um recuo dramático.
Minha tendência é culpar a igreja e seu moralismo caduco, que impede um investimento maior na política de planejamento familiar. O governo também se esforça pouco para enfrentar o problema com seriedade. Mas também não sei se é só por aí. Só sei que daqui a alguns anos haverá um incontável número de pais e mães jovens, avós jovens, bisavós prematuros... Penso em como pais adolescentes criarão seus filhos... Alguém vai dançar na história - ou os filhos, que crescerão meio que ao deus-dará, ou os pais, que verão sua juventude traduzir-se em fraldas cheias de xixi e cocô. Não acho que haverá uma onda epidêmica de violência, suicídio ou depressão por causa disso. As pessoas se adaptam. Talvez esteja aí a raiz do problema.

10 comentários:

  1. não sei se é esse o caso, mas muitas famílias pobres concordam com esses casamentos como esse, com homens muito mais velhos, q nós percebemos bem o q é, pq ele promete dar melhores condições a criança de uma vida melhor. pq muitos casam com crianças de 12 e 13 anos e os familiares acham q é melhor pq em geral o homem mais velho tem mais condições financeiras. se mesmo pobres as pessoas tivessem mais estudo, informação, talvez não colocassem suas crianças em situações tão extremas achando q melhores condições de vida valem qq sacrifício. beijos, pedrita

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  2. Mais uma vez concordo com a Pedrita. E acrescento que o número de mães e pais jovens já é grande. São crianças criando crianças - desculpem a aliteração, mas não poderia escrever "educando". O o que vemos são relações infantilizadas, quase de irmãos. A inconsequência iniciada na própria gravidez vai se estendendo à alimentação do filho, aos valores que são transmitidos, à condução da educação, à permissividade. Tô me sentindo veeeeelha escrevendo isso. Mas é o que presencio nas minhas idas e vindas nos trens de subúrbio e nessa cidade quase interiorana em que vivo.

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  3. Dedé e Pedrita, é por aí mesmo. Só esclareço que mexi no texto original, porque o Estadão tinha publicado uma informação errada. Que papelão, Estadão!

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  4. oi Mário - gravidez e maternidade/paternidade adolescentes: taí um problemão nosso, do País, e poucas medidas pra enfrentar a questão, de quem quer que seja.
    Acho que é a prova de que a educação em geral falhou, e falhou feio - seja a dos pais dessas crianças-pais, seja da escola, quando eles vão à escola, bem-entendido.
    Principalmente no caso das meninas, a maternidade precoce precipita uma série de frustrações - até porque geralmente se baseia numa grande fantasia delas, que a realidade do bebê e suas necessidades prontamente desmonta.
    E o que é muito pior - essa mãe precoce geralmente larga a escola, tem seu preparo profissional interrompido, o que é o caminho mais curto para a continuação de um ciclo de pobreza. Pobre da criança nascida nessas condições, que tende a perpetuar o ciclo...
    Agora, quanto à punição da mocinha-ladra do bebê, não seria melhor uma pena alternativa do que um reformatório?????
    Taí uma punição que pode só piorar a situação, eu acho - não que eu seja pra deixar pra lá, o que ela fez é coisa séria.
    bjs
    Neusa

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  5. EU simplismente adoro os teus textos...

    Sobre o post, não acredito que a culpa seja apenas do governo e/ou da Igreja, culpo tbm as novelas e a televisão em geral por este caos da moral. As Novelas pq sempre colocam crianças de 10 anos (ou menos) com namoradinhos, tendo crises existênciais sobre o que fazer pra um garoto ficar com ela. Culpo os pais, que não educam corretamente, que não impõe limites, e culpo tbm as crianças que infelizmente não sabem aproveitar a melhor fase da vida ( infância e adolescencia).

    O Interessante é a hipocrisia e o falso moralismo da nossa sociedade, que trata na normalidade casos como este, mas se indgna quando uma atriz de 16 anos mostra os seios em uma peça de teatro... É e assim vamos construindo o futuroo!!!

    Bjux

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  7. Sabe o que eu achei legal? Foi mostrarem o forte envolvimento de uma familia de gente simples com o sequestro da criança, ficarm desesperados, orando chorando. Sem querer a tv mostrou que pobre também tem coração (rs).
    A imagem que a burguesia faz é a de pobre faz filho por ignorancia, eles não conseguem entender como ter um filho sem poder dar o padrão que eles julgam ser o melhor em termos materiais
    Mas o amor é possivel, senhores, o materno mais ainda entre pobres, ricos e remediados.
    Chamou-me mais a atenção a mãe e familia pobre estruturada, do que a da menina maluquete, que é uma excrescência. A gravidez na adolência reduziu em 30% nos últimos anos,gracas a políticas públicas e informação,o Brasil está sabendo equacionar esse problema.
    Já o amor, ah o amor, só ele nos salva da barbárie.
    Tão bom ser mãe, gente!

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  8. Pô, Isabella, culpar as crianças?! Elas só vão saber que a infância deve ser um período legal quando forem adultas, geralmente é assim... rs.

    Ester, tem certeza desses 30 por cento? Sei não, não é o que parece.

    Neusa, um juiz já tirou a menina do reformatório. Valeu pelo susto. Pra ela começar a entender que ações têm consequência.

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  9. Ah!! Mario. Generalizeiii

    Realmente a culpa é de nossa sociedade que trata as crianças como ADULTOS EM MINIATURA. Certa vez assisti a um documentário (que não me recordo o nome) sobre a perda da infância, e o sociólogo fez a seguinte reflexão:

    - Antigamente as bonecas eram tratadas como bebês, que precisavam de carinho, de colo... Atualmente às bonecas usam roupas curtas da moda e vão pra balada com o namorado que anda de carro...

    Achei bem interessante esta analogia, pra percebermos o quanto nossos valores estão deturpados!!

    Bju (e mais uma vez) Adoooro os teus textos!!

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