
Recentemente,
antes de um show no Sesc Pinheiros, uma voz anunciava, de maneira clara e bem
articulada, que era proibido tirar fotos e filmar o espetáculo. Aconselhava
também a desligar os celulares. Mal as luzes se apagaram e o que se viu foi um
mar de celulares e máquinas registrando cada momento do show. Era como se a
regra anunciada no alto falante só valesse para marcianos portando armas a
laser ou duendes recém-chegados de algum arco-íris distante. Nenhum dos
presentes se julgava submetido a uma norma tão esquisita: "Como assim, não
fotografar o show? Eu paguei o ingresso, tenho direito!"
O
grande problema de as pessoas ignorarem o aviso de "desliguem seus
celulares" vai além da desobediência, da travessura. Ela nasce, na
verdade, da falta de punição. Além de avisar que é proibido fotografar o
espetáculo, a casa deveria ter seguranças, fiscais, cães perdigueiros - sei lá
- para alertar os infratores. "Olha, não pode fazer isso". Alertada
uma ou duas vezes, a pessoa que insistisse teria o aparelho confiscado e só
devolvido ao fim do evento. Será que isso é ilegal? Ou a norma anunciada é que
é? Se for, pra que anunciar?
Algo
parecido ocorre com a bliz da Lei Seca. A tolerância zero foi bem recebida até
por aqueles que costumam beber e dirigir sem causar transtornos. Há um ideal de
segurança - "eu posso dirigir bem, o problema são os outros motoristas"
- que justifica a severidade da lei. Acontece que, se beber e provocar um acidente
com vítima fatal, o sujeito vai pagar uma multa menor do que se
"apenas" dirigir alcoolizado! É como se beber e dirigir fosse um
pecado mortal. E provocar a morte de alguém no trânsito não passasse de uma
malcriação. Ah, somos falsos, falsos...
Em
Salvador, uma lei implantada há cerca de dois anos, pôs fim às barracas de
praia, onde nativos e turistas podiam beber, petiscar e passar algumas horas à
vontade. Notem: Salvador é uma cidade com praias belíssimas e a lei caída do
céu queria obrigar todo mundo a carregar um isopor onde guardaria seus
beberets, comerets e lixerets. Funcionou? Claro que não.
Do
Porto da Barra a Stella Maris, o que se vê nas praias soteropolitanas é um
colorido mar de guarda-sóis. Instalado ali, o turista pode tomar sua cervejinha
gelada, comer um acarajé (tem sempre uma baiana ao alcance do "ei,
menino!") e até ter os pés molhados por água do mar, gentilmente despejada
por um funcionário das barracas. Ué, mas elas não estão mais proibidas? Estão,
mas continuam. Elas não existem mais como estrutura física - parede, banheiro,
chuveiro, lata de lixo. Você consome o que quer e deixa por ali, na areia. No
fim do dia, o mar quebra na praia, bonito, bonito - e recebe de prêmio as
garrafas, copos de plástico, palitos e papeis deixados pelos veranistas. É
nojento.
Existem
várias explicações históricas e sociológicas para tamanho desapego da verdade. Uns
culpam a colonização lusitana, outros a série de ditaduras com que nos criaram
e outros, ainda, a indolência tropical. Nada justifica. Num tempo em que todo
mundo defende seus direitos com unhas e dentes, mas esquece da lista de deveres
a ser cumprida, a hipocrisia transformada em hábito cotidiano ganha contornos
doentios, como se fosse uma doença que podia ser tratada com vacina - mas ah,
ninguém quer sentir a dor da agulha...
Mario:
ResponderExcluirBrilhante colocação, como sempre.
Este desrespeito às normas e leis tem nome: Falta de Educação.
Falamos sempre q o país peca pela educação, mas não é algo vago não. Falta de educação se verifica nas mínimas atitudes do dia-a-dia da população, como o desrespeito às leis e normas.
Só pra completar o exemplo de celular ligado em show: em TôTatiando em que Zélia Duncan se apresentava só com dois músicos no palco e era um espetáculo de interpretação das músicas do Luiz Tatit, a Regina Braga (Diretora) veio à frente do palco avisar e pedir pra q não fotografassem (depois do anúncio sonoro). Foi ela sair e a Zélia entrar para 'pipocar' de celulares fotografando a artista!
O máximo!
bjs e novamente obrigado por voltar ao Olhares Loiros com frequência!
Maurício
Muito bom Mario . O Brasil quer ter qualidade de vida como o primeiro mundo mas nao aceita a palavra NAO . É um país de reprimidos que querem ser livres a qq custo, mas sonham com o primeiro mundo .Bem ,um povo cheio de inconsistências , isso enche o saco , e da vontade de ignorar o que as pessoas dizem , pq normal/e como vc disse ,e bem , é da boca pra fora . Os paises que evoluiram no coletivo são cheios de regras e leis q funcionam . O que vc escreveu vai indignar muita gente . Tadinhos , deixa o povo se divertir Marião . Telma Mallet
ResponderExcluirBoas suas colocações. Tão verdadeiras que nos deixa a todos constrangidos.
ResponderExcluirAmei seu blog e seu post.Bjos do amigo e leitor atuante...Bemvindo Sequeira
ResponderExcluirSomos criados, quando crianças, por castigos. Mesmo quando filhos de pais tratantes e ausentes. Porque na fase adulta haveria de faltar castigo. Se é isso que nos moraliza e "induca"?
ResponderExcluireu acho q melhorou um pouco mas estamos anos luz de uma vida decente. muitos reclamam de corrupção, mas fazem a lista de material escolar com objetos desviados das empresas q trabalham. baixam livros pra imprimir na empresa e deixar a conta da tinta para o seu chefe. e depois reclamar caso a empresa esteja mal das finanças como se não tivesse nenhuma responsabilidade. há teatros onde pessoas vão até quem tira foto e avisa. em geral param. poucos continuam sarcasticamente fazendo "escondido". beijos, pedrita
ResponderExcluirQue teatro, Pedrita? O do Sesi, eu sei que tem esse "serviço".
ExcluirE Benito, não sei se o termo é "castigo". É mais botar ordem no barraco.
Bemvindo, Telma, Maurício e Maria do Carmo: obrigado pela visita! Voltem sempre!
Querido MV, eu sempre me lembro de uma cena. Estávamos eu, você, Wander e meu amigo Bruno na inauguração da Sala São Paulo. John Neschling avisa que era para todos desligarem os celulares, que o concerto seria gravado. Bastou o maestro se virar pra tocar, altíssimo, um bichinho móvel. Vergonha alheia. Fora os celulares nos aviões, não? Aquela antiga definição que dizia "1 segundo é o tempo que se passa entre o semáforo abrir e o carro de trás buzinar" hoje virou "é o tempo que se passa entre as rodas do avião tocarem o solo e os passageiros todos ligarem o celular". Eu também acho que nada justifica "tamanho desapego da verdade". Fico triste, muito triste.
ResponderExcluirSeria bom haver um pouco de coerência no cotidiano, não é mesmo? Boas colocações, Mário.
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