
Quando ainda era vereador, o hoje deputado Jooji Hato estava em seu carro e foi assaltado por um motoqueiro - ou melhor, pelo carona do motoqueiro, que ia na garupa. Foi traumatizante, diz o deputado, e ninguém duvida. Por conta disso, o político vem há anos tentando emplacar uma lei que proíbe o transporte de caronas em motos. A motocicleta, como todos sabem, tem espaço para duas pessoas - o piloto e seu convidado. Em qualquer lugar do mundo é assim. Menos no Estado de São Paulo, a depender da vontade de Jooji Hato e seus colegas de plenário. Espera-se agora que o anjo que soprou um pouco de bom senso nos ouvidos da então prefeita Marta Suplicy tenha igual fôlego quando o projeto estiver diante do governador Geraldo Alckmin - e, assim como fez a petista, o tucano vete o projeto de lei, sob risco de sair de destaque no grande desfile dos ridículos a que somos expostos pela incansável classe política.
Jooji Hato ficou chocado com o assalto sofrido, qualquer um de nós ficaria. Mas nós não temos a máquina legislativa a nosso serviço. Jooji Hato poderia ter ficado chocado também com o tanto de crianças pedindo esmolas nas esquinas, vendendo bala e pano de prato, nariz escorrendo e medo do adulto que as controla de um ponto adiante. Isso não chocou o vereador-deputado. Nem as hordas de miseráveis que se espalham pelas calçadas de todas as cidades, é só olhar pros lados - mesmo em carros com vidro fumê dão acesso a essa deprimente paisagem.
É mais fácil atacar os motoqueiros - categoria que irrita onze em cada dez motoristas, é verdade, mas nem por isso formada só por assaltantes. Talvez seja difícil pro senhor Hato e sua equipe acreditarem, mas há pessoas que usam motocicletas como... digamos... meio de transporte. Nem digo para trabalhar, mas para se locomover, levar o filho à escola, levar a namorada ao cinema ou a mulher ao trabalho dela. Enfim, as pessoas usam o veículo que o deputado e seus parceiros querem vetar. Aliás, o rasgo de genialidade é proibir a prática da carona nos dias úteis - partindo-se do princípio que assaltantes obedecem a semana inglesa. O deputado e seus assessores confundiram os horários dos ladrões com os dos políticos. Acontece.
O engraçado é que, assim como os jornalistas que pautam seus cadernos e revistas pelo que acontece em seus horizontes cotidianos (quem tem filho pequeno faz matéria de preço de escola, quem sai na noite fala dos bares que frequenta, etc), os políticos pautam seus projetos pelo muito que lhes acontece fora de seus ambientes de trabalho - onde, convenhamos, eles vão muito pouco. O projeto do Hato é assim, nascido de uma traumática experiência pessoal, que teria sido evitada se a cidade fosse mais iluminada e tivesse segurança pública, etc etc.
Mas o Brasil é o país em que se receita aspirina pra combater tumor no cérebro. Tem assalto na saída do banco? Proíbe-se o uso de celular dentro da agência. Aconteceu outro dia comigo: um problema no Bradesco exigia que eu falasse imediatamente com a advogada, mas eu só poderia fazer isso se saísse da agência e perdesse meu lugar na fila... Outra modalidade tipicamente verde-amarela: somos o único país do mundo onde banco 24 horas funciona em horário comercial.
Vivemos também em uma cidade onde gangues andam pela Avenida Paulista agredindo gays, pretos e pobres sempre nas madrugadas - e o policiamento que o governo anuncia acontece das 6 às 22 horas. Tente passar depois disso e você não verá ninguém fardado por quilômetros. É como a turma que faz blitz da lei seca, que só trabalha até as 4 horas - que é quando bares e baladas estão fervendo: os briacos pegam seus carros depois das 4 e tudo bem.
É mais fácil sair proibindo isso e aquilo, em vez de atacar a verdadeira causa dos males. A hipocrisia impera, os governantes relaxam porque sabem que nós, do lado de cá da urna, logo esqueceremos - e muitos desses políticos de quinta retornarão aos cargos, premiando-se aumentos infinitos e, de vez em quando, aprovando leis sem nem sequer se importar se ferem ou não a Lei. Estamos na terra do faz de conta, no labirinto do fauno, onde a polícia finge que protege, o fiscal finge que toma conta e o deputado finge que legisla em nome do povo. Só mesmo os assaltantes e agressores é que levam a coisa a sério.