quarta-feira, 2 de março de 2011

O crime ao lado

Ainda outro dia, apoiado na experiência de ex-repórter policial e até hoje leitor de reportagens do gênero, eu explicava a alguns amigos que a morte do estudante da Fundação Getúlio Vargas, semana passada, só podia ter alguma explicação subterrânea - dívida de jogo ou drogas, quem sabe... "Nos dias de hoje, matar alguém por causa de mulher...", eu falava. Na hora, fazia sentido. Até aquele instante, dizia-se que os estudantes haviam se envolvido num bate-boca por causa de mulher havia cerca de um mês. Ninguém planeja tão longamente um crime desses - bom, pelo menos nisso eu acertei: o crime foi cometido por um rapaz que se sentiu ofendido pelos estudantes, que teriam mexido com sua namorada. Em uma hora, um deles estaria morto e o outro, quase.
Errar o palpite me fez sentir um dinossauro, sobrevivente dos tempos em que ninguém matava outra pessoa por causa de um olhar enviesado pra bunda da namorada - se é que houve isso (a moça disse na polícia que não ouviu ninguém mexer com ela). Matar por um "dá cá aquela palha", como se lê nos romances antigos... A vida humana virou desenho animado, um filme-catástrofe sem consequências - posso matar o cara, porque no filme que vem ele faz o mocinho.
A ironia cruel é que o assassino só foi preso porque uma das balas disparadas por ele e seu irmão atingiram seu pé. Ao sair mancando do boteco, conforme se vê no filme da câmara de segurança, ele deu a pista pra polícia. É bem capaz da defesa alegar que o destempero emocional era tamanho que o atirador errou até o alvo - embora uma vítima esteja morta e a outra, sem um rim, ainda hospitalizada. Não há justificativa para tamanha violência e só mesmo o choque entre mundos tão opostos como o dos estudantes e o dos atiradores lança alguma luz estrobo sobre o fato.
Sou vizinho do boteco onde ocorreu o crime. Não há 50 metros entre o portão do meu prédio e o bar. Naquela noite mesmo, eu voltava para casa e encontrei uma amiga tomando cerveja exatamente na mesa que aparece no tal video. Fiquei ali uns 5 minutos, de pé, trocando notícias. Devo até ter visto a mesa dos estudantes, porque tenho mania de lançar aquele olhar periscópico pros lugares. Se vi, não registrei. Fui pra casa e, uma hora depois, um dos meninos estaria morto.
Naquele instante em que eu estava ouvindo as histórias da Cidinha, o futuro atirador e sua namorada deviam estar ali também. Não houve briga, não houve bate-boca. Em vez de resolver a coisa à moda antiga, de chamar o don juan lá fora, o rapaz magrinho preferiu levar a namorada em casa e convocar o irmão, edificante figura que chegou com uma pistola do Exército e um revólver. Montaram numa moto e rumaram para o campo de batalha, certos do anonimato, protegidos por dois capacetes de motociclista que faziam deles uma cópia da biônica formiga atômica. Duas formigas atômicas no papel de Exterminadores do Futuro.
Teriam mesmo entrado pra história do crime sem solução, caso um deles não tivesse atirado no próprio pé. Levar para um hospital da zona leste, pra disfarçar, não adiantou. O ferimento a bala chamou a atenção da polícia, que encontrou armas suficientes pra justificar uma prisão preventiva. Sem querer, solucionava-se um crime.
O trágico disso tudo (além da morte) é que certos crimes mandam telegrama. O irmão fornecedor de armas já havia sido preso antes. Em outro caso tristemente recente e famoso, o suspeito de estuprar e matar uma vizinha também havia sido preso e era considerado uma figura perigosa. Estava solto. Hoje, a Justiça condenou o assassino do rapaz na Livraria Cultura a um ano de internação psiquiátrica, um ano - mesmo com avaliações nada otimistas de seu estado mental e sua periculosidade. A juíza que assinou a sentença certamente não frequenta, nem tem parentes ou amigos que frequentam, ambientes perigosos como uma livraria na Avenida Paulista.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Cara de Mané


Devo ter cara de otário. Só pode. Já perdi a conta das vezes que estou andando na Paulista lotada, em pleno horário comercial, e o cara que vive eternamente com uma receita na mão dizendo que precisa comprar remédio vem até mim. Ele mira e vem. A velhinha que precisa de 1 real pra completar a passagem é outra, que mira e vem. Eles podiam, pelo menos, ter boa memória fotográfica e não atacar sempre a mesma vítima. Mas, nessa hora eu surpreendo. Tal qual um Giannechini fazendo papel de vilão (ok, menos bonito, mas nem tão canastra), olho friamente pra pessoa e digo: não. E sigo, impávido, rezando comigo mesmo pra pessoa não ser realmente uma necessitada. Vai saber...
Hoje pela manhã, a caminho da fisioterapia, numa rua relativamente calma dos Jardins, um carro parou ao meu lado e um sujeito bem vestido pediu ajuda. Aproximei-me e ele perguntou se eu falava inglês. Yes. Italian? No. Español? No, English is ok. E ele desandou a falar como as pessoas nos Jardins não falam inglês e não sei mais o quê. Na mão, um passaporte e uma passagem aérea daquelas antigas, sabe como? com capinha de papel e tudo. E sobre o banco, uma papelada da Armani e de outra grife internacional, Ferré, não lembro. Na hora me deu o estalo: é um daqueles picaretas que tentam te empurrar casacos de couro, roupas importadas, tudo de marca estrangeira, porque ele precisa viajar ainda hoje e te faz por um preço camarada, etc etc. Cortei, disse que tinha hora marcada - e era verdade - e o cara engatou a primeira e saiu. Me arrependi de não ter anotado a placa do carro.
O episódio me fez ficar pensando na minha cara de Mané. Ou de ambicioso. Porque todo golpista, quando mira um pato, está enxergando nele um ambicioso em potencial, um outro golpista ainda adormecido. O conto do vigário só tem resultado porque as duas partes querem dar o golpe uma na outra. O sujeito que "pede" ajuda está exibindo ao outro a chance de, investindo 10, ganhar 30. E o "bom samaritano" se dispõe a ajudar, porque se acha mais esperto... É tudo um grande conluio.
Nunca caí num golpe desses. Assim como existe a falsa magra, eu devo ser o falso pato. Mas sempre escuto histórias de quem entrou pelo cano. Narrada pela vítima, a história sempre tenta despertar a piedade - nós temos pena de quem perdeu grana. Mas quando você vai um pouco mais fundo, descobre a verdade e a piedade vira sarro. Não dá pra levar a sério.
E essa é a grande utilidade de um conto do vigário. Revelar a você mesmo que existe mais um tratante neste mundo de pilantras. Nem é preciso procurar longe, basta olhar o espelho.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cuidado: cidade frágil


Devo estar muito antigo. Sou de uma época em que todos nós acreditávamos que esta era uma cidade forte, inabalável. Nada. É uma cidade frágil e só mesmo a memória ajuda a esclarecer.
Lembro do tempo em que as tempestades de verão inundavam meu bairro, a rua (de terra) transformava-se num rio e os meninos comportados tinham de ficar à janela vendo os moleques danados "nadarem" nas águas amarronzadas. Passada a chuva, as águas baixavam, ficava uma lama descomunal em todo canto - muitas vezes, no quintal ou dentro de casa, quando "dava enchente". Mas, repito, as águas baixavam. Íamos estudar ou fazer o que fosse preciso e encontrávamos a cidade no mesmo lugar em que estava antes do toró.
Já adulto, enfrentei várias enchentes - às vezes, na Folha, sobrevoando a cidade inundada a bordo de um helicóptero; outras, durante a longa temporada no Estadão, aprendendo a 'ler' as nuvens e avaliar onde haveria transbordamento. Só uma vez, dia de caos absoluto, ninguém conseguiu chegar nem sair da redação. Quem tinha entrado de manhã dobrou o horário e fez o serviço da turma da tarde. Uma vez.

O tempo passou e, pelo visto, a única tecnologia que não avançou um centímetro foi a que administra a cidade pós-chuva. Pelo contrário, recuou e muito. Agora, cada vez que chove, temos de pensar em várias coisas: onde há risco de encher mais rápido é a primeira. Além de adivinhar buracos e trechos intransitáveis, temos de ficar atentos cada mexidinha de árvore, porque o perigo da enchente vem do alto, quando um carvalho ou jequitibá ou sei lá que mastodonte arvóreo despencará em cima do seu carro, muitas vezes mirando o seu crânio. E aí, end of story.

Sobrevivendo à leptospirose e ao traumatismo craniano, resta ao paulistano a tarefa de encontrar uma paciência de jó e encarar as dezenas de semáforos queimados a cada chuva. Alguém consegue me explicar por que isso agora virou moda? Até cinco anos atrás, chovia, inundava, às vezes acabava a luz, os pobres perdiam tudo e os ricos tinham de trocar o estofamento do carro - mas ninguém enfrentava uma fileira de semáforos apagados ou em pane. O que acontece? Os relógios e termômetros quebrados, vergonhoso, são fruto de alguma licitação que não rendeu o suficiente para quem de direito. Isso é uma explicaçao. Mas, até o momento, não vi nenhuma reportagem que explicasse o sumiço dos faróis de trânsito. Será algum descaso de administração pública? Ou teremos de esperar que venha um governo estadual ou municipal de partido não-plumário para que a imprensa se indigne e denuncie como deve?

Sei que numa cidade em que bairros inteiros sucumbem à força das águas, à violência urbana cada vez mais irrefreável e a um sistema educacional que só não é humor negro porque é trágico e real, numa cidade dessas até parece frescura reclamar de um sinal de trânsito. Não é. Prejudica a madame de carro, o boyzinho e o trabalhador, apertado num transporte público imoral. Não dá para fingir que isso é da natureza.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Famílias do Obama


Pouco tempo depois da queda do World Trade Center, já no ano de 2002, apareceram na TV americana seriados que davam explicação pra tudo. Bones, por exemplo, reconstituía crimes a partir de ossos. Cold Case curava velhas feridas, reabrindo casos antigos e solucionando assassinatos graças à memória espantosa das testemunhas. Without a Trace reencontrava desaparecidos. E, o melhor de todos, Monk era protagonizado por um portador de transtorno compulsivo que colocava ordem no caos de São Francisco. Mesmo quando não eram histórias policiais, o efeito Torres Gêmeas aparecia: em Brothers & Sisters, a família Walker resistia a todos os abalos possíveis. Era uma maneira de a ficção dizer ao público que havia, sim, e sempre, a esperança do mundo voltar ao seu eixo. Era só manter a cabeça fria e a irmandade, unida.
Na atual safra de cinema americano - com o país administrado por Barak Obama e submetido a uma série de decepções econômicas e políticas -, a realidade novamente dá as caras. E, como sempre, a família ocupa um posto importante nos filmes. A família unida, mãos dadas contra todas as ameaças externas, é sempre um grande apoio pra quem vive de ficção. Não há tema mais universal do que as complexas relações entre pais e filhos, irmãos, primos, etc. É tiro e queda.
Em pelo menos três dos filmes candidatos ao Oscar, a Família surge de forma impositiva. Em Inverno da Alma, a protagonista precisa reencontrar o pai para salvar a casa em que vive com os irmãos menores e a mãe doente. É uma jornada clássica do herói, desta vez em versão mulher. Tudo é feminino, no filme - dirigido por uma mulher: as personagens mais fortes e que decidem as coisas, pro bem e pro mal, são mulheres. Elas espancam, elas ameaçam, elas fazem a segurança, elas cortam cadáveres. O homem acompanha, meio de longe, mas sempre presente. É um filme que avança nas velhas discussões do feminismo e coloca machos e fêmeas em situação de igualdade. Os homens do filme podem não decidir, mas não são frouxos como numa novela do Manoel Carlos. Tempos de Obama: é preciso unir forças, esquecer as diferenças (ou, pelo menos, não torná-las impeditivos) e sobreviver no mais áspero inverno.

Em Cisne Negro, uma mãe possessiva infantiliza o quanto pode a filha talentosa, até torná-la perfeita para o balé mas incapaz para a vida e suas contradições. Talvez não seja à toa que o único personagem masculino forte - que poderia ser visto como um paizão da bailarina - seja também o elemento sedutor. Aqui a família é uma ameaça, que não se restringe ao lar. Quem se dedica com afinco ao emprego, faz dele sua razão de viver e tal, transforma o ambiente de trabalho em sua casa: espalha as coisas diante do espelho, como se a mesa do escritório fosse a penteadeira do quarto. É o lar, a caverna onde se busca refúgio e sobrevivência (financeira).

O melhor retrato de um tipo de família, na temporada atual de filmes, está mesmo em O Vencedor. Ao redor do lutador Micky (Mark Wahlberg) giram figuras famintas como carcarás do sertão - o irmão viciado em crack (o estupendo Christian Bale), a mãe leonina e protetora do mais fraco (a também avassaladora Melissa Leo), várias irmãs feias e inúteis e um pai que tenta, mas não fura o bloqueio matriarcal. São figuras que desmentem o chavão da família unida e tornam boa parte do filme a incômoda imagem de um clã auto-devorador. Não há como justificar a ânsia esfomeada de mãe, irmãs e irmão; eles são desse jeito, aprenderam a sobreviver desse modo e a única maneira de escapar de sua energia sugante é cortar o laço de vez. Não é todo mundo que consegue. Pior ainda: o cinema americano acredita que um personagem ideal jamais tomaria atitude tão radical. Uma pena.

Mesmo assim, são retratos que ficam gravados na memória de quem vai ao cinema e tenta entender o mundo ao redor. Uma sociedade que precisa urgentemente sinalizar a importância da união familiar é a mesma que produz figuras capazes de invadir escolas armadas e matar meio mundo. Quando coloca a mãe da bailarina na arrepiante sequência final de Cisne Negro ou quando promove uma forçada paz entre os povos nos personagens que cercam o mocinho de O Vencedor, o cinema da era Obama está querendo nos convencer que, mesmo tendo caráter duvidoso, nossos familiares merecem crédito. Pode ser muito bonitinho como lição de moral, mas é péssimo como dramaturgia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mortos sem Sepultura


Pego emprestado o título de uma antiga peça de Jean-Paul Sartre (tudo do Sartre é antigo, eu sei, ele anda meio fora de moda) para falar do que tenho visto ultimamente nos cinemas. No futuro, quem se debruçar sobre este período do cinema vai achar que tínhamos todos virado místicos, paranormais ou alguma coisa do gênero. Certamente a culpa não é dos espíritas e do sucesso espantoso de "Chico Xavier" - ao que consta nem Clint Eastwood nem aquele diretor tailandês, cujo nome é o encontro mundial das consoantes sem vogal, tiveram o privilégio de ver os bons desempenhos de Nelson Xavier, Antonio Angelo, Cássia Kiss e Cristiane Torloni. Mas tanto o americano quanto o thai apelaram pro além em seus filmes mais recentes.

Não vou aqui discutir os filmes - quem me conhece sabe que não saí nada comovido de "Além da Vida" - mas dividir com os seguidores do blog essa perplexidade: que deu na gente de, cada vez mais, recorrer aos falecidos pra explicar o que acontece? Só esta semana em São Paulo, são uns 3 ou 4 filmes de gente procurando contato com quem se foi, como se o conselho dos mortos servisse para dar alguma luz.

Em geral, o contato dos personagens vivos com os que abotoaram o paletó de madeira tem fundo emocional capaz de fazer uma pedra chorar. Eu choro, não nego, mesmo quando não gosto do filme. É aquele choro que, quando passa, dá raiva. Por que aquele personagem - o vivo - não segue sua vida, diabos? Por que não toca o barco? Uma das coisas mais definitivas até o momento é que não há retorno quando se ultrapassa a última fronteira (gostaram?). Quem fica sabe que o jogo agora tem novas regras e um jogador desfalca o time.

Incomoda-me essa dependência dos que partiram. Essa consciência culpada - "eu nunca disse a ele/a que o adorava/admirava/amava etc etc" - é o que faz a fortuna dos confessionários e consultórios de terapia. Ok, recorramos aos padres e terapeutas, se isso ajudar - pelo menos são seres vivos nos ouvindo e questionando. Há igualdade de condições. Mas com um morto... Convenhamos, a gente recorre a eles porque acredita que eles têm informações privilegiadas sobre o futuro, as quais eles não hesitariam em dividir conosco, seus entes queridos que sobraram neste vale de lágrimas. Haveria, portanto, um interesse aparentado do mesquinho nessa lacrimosa conversa com o além.

Não é por acaso que o filme com menos pegada culpa-no-cartório é o tailandês "Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas" - o da foto que ilustra o post. Talvez por conta da formação budista de toda a equipe. No filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, o Tio do título está à beira da morte e recebe a visita de uma cunhada, um sobrinho - vivos - e alguns mortos. A convivência entre eles é bastante razoável e há momentos de extrema poesia: a mulher morta há 19 anos permaneceu igual e os vivos envelheceram, o que os faz refletir sobre a passagem do tempo. Há consultas sobre o que espera os que morrem e uma frase demolidora: "O ceu é superestimado pelos vivos".

Nossos mortos não envelhecem, não mudam de opinião, não mais nos surpreendem. Nossos ídolos, que morreram jovens, não têm direito a trocar de grupo, partir pra outro estilo, nada. Daria até pra dizer que nossos falecidos são conservadores. Portanto, pedir conselho a eles é meio que recorrer ao tiozinho do sermão. Como se qualquer pessoa se tornasse um guru sensato, ao passar pro andar de cima (acho engraçada essa imagem de morte, que o ator-diretor Otavio Martins volta e meia deixa escapar).

Cada um acredita no que quer e pronto. Eu mesmo já circulei em centro espírita, consultei erê e cigana, fiz o jogo do copinho e assisti a medium incorporando artista plástico. Não acho que nada seja impossível, mas não é por isso que vou correr a cada parabólica mediúnica sempre que estiver com dor de corno, quiser me arriscar num trabalho novo ou fazer uma viagem.

A vida é território dos vivos, mas temos de reconhecer: do jeito que a coisa anda, vamos aposentar de vez o chavão "Morreu, descansou". Nunca, como agora, os mortos tiveram tanto pra fazer.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Elegância anônima


Por alguns breves segundos, aquele pedacinho obscuro da Rua da Consolação transformou-se na passarela do samba. O velho negro, com mais de 65 anos aparentes, caminhava pela calçada exibindo o porte orgulhoso de anônimo Jamelão, vestindo um antigo terno azul-marinho e levando na cabeça um inesperado chapéu de paetê dourado. Como se fosse um componente da velha guarda de qualquer escola de samba, ele expunha sua elegante desarmonia certo de que ela fazia todo o sentido ali, naquele instante.

O que eu vinha pensando em escrever, talvez sobre o show da Amy Winehouse ou mais algum descalabro da gestão de Gilberto, o Alcaide, virou fumaça diante do chapéu de paetê dourado. O sol ainda disputava espaço com nuvens de chuva, mas o brilho do paetê iluminou de maneira fugaz aqueles poucos metros de calçada. O velho negro de chapéu de ouro abriu meus olhos para o recado das ruas.
Acostumados a ver jogadores de futebol erguerem a camisa do time para comemorar um gol - e sob ela, alguma mensagem do tipo edificante - nem percebemos que isso já vinha sendo feito nas ruas há muitos anos e sem gol nenhum pra festejar. O migrante esquálido e quase iletrado passa com a camiseta da Universidade da Califórnia. A gordinha sacode o meio ambiente a bordo de uma miniblusa que ficaria apertada até pra Shakira. Frases em inglês, francês ou até idiomas nada cristãos colorem nossas cidades e enviam mensagens muitas vezes contraditórias. Lembro do atendente do Serviço Funerário que foi trabalhar usando uma camiseta onde estava escrito "Be happy".
No exterior, é comum ver meninos pobres usando a colorida camiseta da Seleção Brasileira, em especial a número 9, do Ronaldo. Para eles, é uma conquista e um orgulho sair disfarçado de canário e eu sempre me pergunto como aquela roupa chegou àquele corpo.

É bem verdade que muitas vezes as pessoas se vestem com o que têm à mão - ou com o que ganham de alguma entidade beneficente. Mas é verdade também que, por mais pobre que seja, a pessoa faz daquela roupa doada o seu Dior, o seu Versace ou Armani. Arrumam-se de maneira cuidadosa para ir ao banco, à igreja ou ao médico. Capricham e injetam harmonia numa rotina de tom pastel.
É essa a mensagem que mandam aos destinatários desconhecidos - a de que é possível, sim, encontrar um pouco de brilho depois de tanto temporal. A prova é o chapéu de paetê dourado daquele preto velho do centro de São Paulo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Então é Natal...


Pode parecer uma incongruência falar de outra cidade num dia em que São Paulo amanhece submersa num mar de lama, desta vez também real. Eu deveria estar voltando meu olhar aloirado para a - digamos - administração que Gilberto, o Alcaide, tem imposto a esta cidade. Aliás, impor é um verbo bastante adequado para a (novamente, digamos) administração do presente alcaide. Nunca se lê nada que ele faça que não esteja vinculado a qualquer aumento ou criação de algum imposto. O retorno - como provam os vários mortos dessa madrugada, a situação calamitosa do transporte público, a falência de qualquer semáforo quando chove, etc - não corresponde à tara por taxas. Mas Gilberto, o Alcaide, fica para outra hora.

Desta vez vou falar de Natal, onde passei agradáveis dias no fim do ano. Natal, a ensolarada capital do Rio Grande do Norte, tem como - digamos - administradora uma certa Micarla, cuja popularidade só faz cair entre todas as classes sociais. Como tenho vários amigos ligados ao PT e aos partidos de esquerda, minha tendência natural seria achar que eles estavam pegando no pé da pobrezinha. Estão, mas motivos não faltam.

Durante as caminhadas para acessar a Praia de Ponta Negra, prestando a maior atenção no calçamento para não enfiar o pé em inesperados e imensos buracos, pensei no desconforto que é viver numa cidade turística que não dá a menor pelota pro bem estar do visitante. Se não há sequer interesse em bajular quem traz divisas pros cofres municipais, o que esperar do tratamento dispensado aos nativos? Policiamento nas praias, por exemplo, é outra ilusão de ótica. Em uma semana, a única viatura que vi em Ponta Negra foi dos bombeiros, que estava passeando pela areia, sem pensar que carros em movimento não combinam com turista deitado ou criança brincando na areia.

Nesse ponto, Natal - que é, repito, uma cidade agradável, bonita, gostosa de passar uns dias - retrata o Brasil: para nós, que deveríamos saber viver da chamada indústria do turismo, o que menos interessa é tratar bem o turista. Quando o sujeito é colocado num hotel da Via Costeira, uma avenida bem desenhada, localizada ao longo do litoral, ele pode até pensar que tirou a sorte grande. Afinal, um visual daqueles, com o Morro do Careca reinando absoluto à direita, não se tem a todo instante. Pena que, para se locomover entre as atrações, apresentam-se ao turista (e, por tabela, aos nativos) duas alternativas: o ônibus, uma só linha, com intervalos médios de 30 minutos e uma lotação de matar o metrô paulistano de inveja... Ou o táxi, cuja bandeirada começa alta e assim prossegue até o fim da corrida. A impressão é que o gasto mínimo de táxi em Natal gira pelos 30 reais. É caro, pra distância percorrida.

A ideia que sustenta esse serviço caro é simples, básica, quase comovente: o turista deve ser depenado, escalpelado, depilado, despido de todo o dinheiro que trouxe para a nossa cidade. Como contrapartida social, oferecemos a praia, a areia, um serviço de barracas irregulares e sem o mínimo de higiene - banheiros, pra quê? Cobraremos o aluguel das cadeiras de plástico (R$ 10 ou 15 reais, caso você queira mesinha e guarda-sol) e, se o fornecedor acordar cedo, teremos coco gelado. Se não, não. Policiamento, bobagem. Mas caso o amigo esteja interessado dispomos de meninos e meninas prontos para o que der e vier.

Volto a insistir, Natal é uma delícia de lugar e passar algumas horas refestelado em Ponta Negra faz a gente esquecer da vida. Curtir o cardápio temático do Bar do Rei Roberto Carlos ou comer as tapiocas da Casa de Taipa, a carne de sol do Farofa d'Água e do Farol e os inesquecíveis crustáceos do Camarões Potiguar são atividades que valem a viagem. Mas entre uma refeição e outra, o turista se sente o próprio pato. É assim em várias cidades brasileiras e, pior ainda, é assim com quem vive e labuta em sua cidade. Eu acredito firmemente nisso: o modo com que tratamos o visitante reflete a maneira com que cuidamos de nossos moradores. A diferença é que visita vai embora e, no máximo, vai choramingar as pitangas em algum blog.