quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Oração pra Santa Apolônia


Só Deus e a Mônica, assistente do meu dentista, sabem o quanto eu peno naquela cadeira - e olha que o Ary é dos bons. Mas não tem jeito: o barulhinho da broca girando dentro da minha cabeça me deixa atordoado. Sentar na cadeira do dentista é o prenúncio de 60 lentíssimos minutos. Confesso tudo isso pra dizer que foi um verdadeiro conto de terror a história do menino de Brasília que teve todos os dentes extraídos por um açougueiro juramentado. Todos!
O rapaz tem problemas mentais, me parece - quer dizer, no fim da história quem tem problema mental mesmo é o dentista, mas continuemos - e, por isso, recebeu anestesia geral antes da extração de dois dentes. O trabalho devia estar uma moleza, porque o chamado profissional de odontologia se entusiasmou e passou a extrair um por um os dentes do menino. Esse cara - que trabalha num hospital público e dá aula em universidade - cometeu uma amputação. Não sei se o termo médico-legal é esse, mas na prática o que aconteceu foi isso: de uma hora pra outra, um menino de Brasília se viu sem nenhum dente. É como dormir bípede e acordar sem uma perna.
A última notícia que consegui do fato dizia que o dentista seria preso e indiciado. Outra, mais cedo, dava conta que o IML de Brasília reconhecia que não havia necessidade da cirurgia radical. Alguém tinha dúvida? E o Conselho Regional de Odontologia pedia pra preservarem o nome do carniceiro. Eu, se fosse dentista, exigiria a identificação do indivíduo - até pra não acharem que ele e eu frequentamos o mesmo clube.
E hoje, nada nos jornais e sites. A história morreu ali mesmo, enquanto o rapaz se esconde em casa, com vergonha dos dentes ausentes. Não sei detalhes, realmente, mas posso concluir que o tal rapaz é pobre. Se fosse, pelo menos, classe média, teria direito a um pouco mais de indignação dos meios de comunicação. Coitado, banguelo e anônimo, sem muitas portas onde bater - a não ser naquelas que querem explorar o sensacionalismo do caso, expondo suas gengivas de maneira pornográfica nos programas de TV. Também anônimo, até agora, continua o dentista - mas vejam como são as coisas: o anonimato protege o criminoso, mas não a vítima.
Graças a tipinhos assim é que a categoria dos dentistas é tão, digamos, temida. Ninguém brinca com dentista, ninguém entra no consultório só pra dar um alô e matar as saudades. Nem na ficção dentista marca muita presença. Você lembra de algum personagem de novela que fosse dentista? Aguardo colaborações, eu não lembro.
Em cinema, teve o dentista nazista vivido pelo Lawrence Olivier em "Maratona da Morte" - a cena em que ele torturava um jovem apavorado Dustin Hoffman é um clássico. Teve o dentista do "Procurando Nemo" e aquele outro, acho que "A Pequena Loja de Horrores", algo assim. Tem o personagem do Diogo Vilela em "Toma lá, dá cá", mas aquele programa é tão ruim, que nem merece ser lembrado.
E nem vou desenvolver minha teoria de que dentistas são péssimos ouvintes. Seja amigo de um dentista e faça o teste. Ele tá tão acostumado a falar para um coitado espremido e boquiaberto que não costuma dar muito espaço para as respostas. Mas isso é uma teoria minha, não tem muita base científica. Aliás, não tem nenhuma.
Só resta mesmo acender uma vela pra Santa Apolônia, que - viva o google - descobri ser a padroeira dos dentistas. Mas daí a retratarem a santa com um boticão é de um tremendo mau gosto. Prefiro continuar achando que Santa Apolônia é apenas o nome da principal estação ferroviária de Lisboa. É bem mais agradável.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Auto-merchan

Neste sábado, à meia-noite, será apresentada uma pequena peça de humor negro, de minha autoria: "Dois pra lá, dois pra cá", com Rachel Ripani e Alex Gruli, dirigidos por Flavio Faustinoni. Será na Tenda do Dramamix, no meio da Praça Roosevelt, durante mais uma Satyrianas, a grande festa de teatro que os grupos da praça promovem todo ano.
Vale a pena dar uma olhada na programação completa, que está no site www.satyros.com.br. Tem de tudo para todos. E quando não é de graça - como são as peças da tenda, gratuitésimas - é bem baratinho. Apareçam.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Frases da lua


Concordo com o Aldir Blanc: as frases e as manhãs são espontâneas, levantam do escuro e ninguém pode evitar. Mas tem hora que dá vontade de não ter que ouvir certas coisas... É o preço que se paga por não ser surdo e viver em sociedade, eu sei... Grandes eventos multiplicam por mil alguns chavões que me fazem hesitar entre manter na cara um sorriso de leite morno ou partir pra mais irrestrita ignorância. Um dos terrenos mais férteis é a Mostra de Cinema de São Paulo, com seus 100 filmes diários - cem! alguém consegue imaginar? Pode reparar: você sempre vai encontrar alguém que está saindo do quarto filme do dia a caminho acelerado do quinto... Se você ainda não viu nenhum - "Nenhum? Mas já é o se-gun-do dia!" -, a figura vai fazer questão de recomendar um filme, acrescentando com pausas dramáticas: "É im-per-dí-vel!"

Esse 'imperdível' me mata. Porque, quando você vai procurar na programação, as próximas sessões agendadas são quarta-feira, 13h15, e sexta, duas e meia da madrugada. Como saiu matéria na Folha, no Estadão e em todos os sites, os ingressos estão esgotadíssimos. E você fica com aquela sensação de ter perdido o filme da década, do século, do milênio. O antídoto está na próxima sessão de cinema, quando outro apressado vai recomendar outro filme, obviamente imperdível. Na Mostra de Cinema o adjetivo "imperdível" é que nem o "suculenta" para feijoada. Do botequim mais pé-sujo ao Fasano mais Fasano, toda feijoada é suculenta. Ô saco.

Outra frase que me tira do sério é sempre ouvida em exposição de artista consagrado. "Matisse Hoje", que ocupa a Pinacoteca até 2 de novembro, é uma dessas mostras que valem o sacrifício da fila - não muito demorada, pelo menos. Como atrai muita gente, atrai também muitos experts. Diante do trabalho que ilustra esse post (cujo nome é algo como "Nu cor de rosa", algo assim), dois rapazes de visual antenado lançaram um olhar enfadado: "Acho que vou começar a desenhar", disse um deles - uma frase aparentada de "Esses rabiscos até meu neto faz". Meu impulso foi tocar o ombro do rapaz e esclarecer, educadamente: "Não, não faz" ou "Então por que não faz?"

Também tive vontade de explicar pro rapaz de talento ignorado que Matisse não partiu daqueles traços - ele chegou àqueles traços. O artista que começou a engatinhar influenciado pelos impressionistas foi limpando seu trabalho, foi descobrindo a síntese mais absoluta, até desembarcar nos trabalhos em que tudo é uma silhueta colorida. Parece fácil, não é? Mas só porque o cara era bom.

É essa simplicidade que os artistas de qualquer área parecem buscar quando tateiam seus caminhos - na pintura, na fotografia, na literatura, no teatro... A simplicidade esconde um profundo mistério, justamente porque chega facilmente às pessoas - e esse é seu grande mérito.

É claro que não estraguei meu passeio batendo boca com ninguém. E até sorri de mãe e filha que discutiam diante de uma tela de Juan Gris, na mostra "Cubismo", também na Pinacoteca. Ambas atiraram o pintor espanhol às mais profundas trevas por conta da sombra de uma toalha de mesa, "muito mal feita", segundo elas. Foi engraçado. Dá vontade de parar e explicar, olha, cubismo, assim assado, coisa e tal... Mas, pensando bem, a mostra deveria ter alguns monitores... Deveria, né? Aproveita que a pessoa se dispôs a entrar num museu pra ver quadro pendurado... e dá uns toques. Pode até ser que as duas mulheres se mantivessem firmes em sua demolidora crítica... mas quem sabe elas não sairiam da Pinacoteca com o pobre do Juan Gris um pouquinho só em melhor conta?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O preto errado


O que foi mais chocante no caso da morte de Evandro João da Silva? O coordenador social do grupo Afroreggae morreu na madrugada de domingo, atacado por dois ladrões. Seria mais um caso de latrocínio na zona portuária do Rio, se uma viatura da Polícia Militar não tivesse passado no local. Seus ocupantes - o capitão Bizarro (parece piada, mas o nome é esse mesmo) e um cabo -, em vez de socorrer o ferido, foram atrás dos assaltantes. Mas não para prendê-los. Foram negociar com eles e, pelo jeito, a conversa foi boa, porque os policiais ficaram com o produto do roubo - e Evandro ficou na rua, a poucos metros dali, agonizando até morrer. Para azar dos PMs, a ação foi captada por câmeras de segurança e só por isso eles foram presos.

Policiais militares e câmeras de vigilância têm uma relação conturbada e não é de hoje. Quem se lembra de um caso de anos atrás, em que PMs eram filmados espancando pobres numa favela? Foi São Paulo ou Rio? Já não lembro desse detalhe. Diante da violência, a geografia não passa de detalhe - e só serve para mostrar que a truculência espalhou-se como um vírus.

Para piorar a situação do capitão Bizarro e seu subordinado, Evandro não era o que os boletins de ocorrência chamam de "populares" - anônimos e amorfos seres humanos, que não pecam por serem "elementos" (os maus) mas não chegam à invejável categoria de "cidadãos" (brancos, ricos). Pelas fotos que vi, Evandro nem mesmo era negro - e alguns vão estranhar o título do post. Mas ele foi o preto errado da vez.

Evandro, pelo lugar em que estava e talvez pelo jeito com que se vestia, enquadrava-se naquele verso de Caetano Veloso, que se refere aos "pretos de tão pobres". Evandro não era rico, nem famoso. Andava a pé - logo, um pobre. Dentro da lógica do capitão Bizarro, era alguém indigno de ser sequer olhado por um policial. Mas o capitão se ferrou: o Afroreggae é formado por aquela categoria que espanta, os pobres e pretos que reivindicam seus direitos. Mas, infelizmente, a lei das cotas pegou Evandro na rasteira - sua cota era a de quem paga mico em hospital público, em trem lotado e não dispõe de segurança pública nem mesmo quando a viatura passa segundos depois de ele ter levado um tiro.
Bizarro não é somente o capitão. Bizarra também é a situação vivida pelo Rio de Janeiro. Ainda deve ter confete na Avenida Atlântica, confete que sobrou das comemorações pela escolha da cidade como sede dos jogos olímpicos de 2016. Já tem uma tonelada de economistas fazendo os cálculos sobre quanto, onde e como aplicar o dinheiro necessário pra realização dos jogos - e é bom que façam direito e bonito diante do mundo.
Mas é insólito pensar que a mesma cidade vive desde sábado uma situação de filme-catástrofe. Chefes do tráfico derrubaram um helicóptero da PM e teve bombeiro que morreu tentando salvar os colegas, porque não tinha roupa corta-fogo. Faltou dinheiro pra isso.
No dia seguinte, novas cenas de violência. Um morto apareceu enfiado num carrinho de supermercado, no sopé de um dos morros. Até ontem, o morto era um zé-ninguém, de quem não se sabia o nome. Recado dos traficantes: pobre, pra nós, é mercadoria. Na madrugada de domingo, o capitão Bizarro e seu cabo concordaram: "Pra nós também". A PM deu o troco, com moedas manchadas pelo sangue de Evandro.

domingo, 18 de outubro de 2009

Lembranças lusas


Portugal me comove. Podem falar o que for - país de passado colonialista e predador, racista, etc (e com algumas críticas eu concordo) - mas o fato é que Portugal me deixa comovido como o diabo. Eles, os portugueses, com seu jeito rude e muitas vezes abrutalhado, carregam uma melancolia transparente, mesclada às letras melodramáticas dos fados, a um humor negrérrimo e às expressões do dia-a-dia, com o uso incansável do diminutivo... "Ai, o pobrezito!"...

Portugal voltou ao noticiário, com os lusitanos mordendo as canelas da atriz Maitê Proença. Num momento infeliz, a atriz apareceu num vídeo tirando sarro da propalada falta de inteligência lusa. Maitê foi deselegante, mas os que a criticaram por aqui foram hipócritas. Rir da lógica portuguesa é um esporte tão popular entre nós quanto falar mal de argentinos - mas como foi Maitê que deu a cara a tapa, joga pedra na Maitê. Atenção, eu não estou defendendo a atriz, longe disso - mas questionando os críticos. Quem nunca fez piada com portugueses que atire o primeiro tremoço.

Em campos mais tranquilos, Portugal voltou às minhas lembranças, enquanto lia a deliciosa novela de Luís Ruffato, "Estive em Lisboa e lembrei de você". O livro, com menos de 100 páginas, é uma delícia. Conta a história de Sérgio, um mineirinho de Cataguases que, pelas voltas da vida, acaba num hoteleco de Lisboa. Seus desencontros amorosos com uma prostituta, seus sonhos de vencer na vida trabalhando como subempregado... e sua resistência ao vício do cigarro... Vale a pena ler o novo livro de Ruffato, um autor que manuseia as palavras com prazer e transmite esse prazer a quem lê. Cada página do livro me trazia Lisboa à memória - e olhem que eu, bom paulistano que sou, sou o maior fã do Porto...


Embalado no livro, acabei indo ver "Fados", o novo filme de Carlos Saura. Será um documentário? Não, não é. Ficção, também não é. É um filme de Saura, para o bem e para o mal. É bom, porque faz desfilar diante de nós uma série imensa de cantores influenciados pelo ritmo português - um ritmo que, para minha surpresa, nasceu no século 19. Ou seja, é relativamente novo. E as vozes, as letras... ah, só mesmo em Portugal se pode ouvir um rap influenciado pelo fado. E só mesmo lá uma letra de rap usa a segunda pessoa de forma correta! (E vou defender minha tese: o rap foi feito para a prosódia lusitana - eles comem tantas vogais ao falar que, quando cantam rap, é como se estivessem a falar normalmente).


O mal do filme é o mesmo que atingia "O mistério do samba", o musical que Marisa Monte produziu sobre a escola de samba Portela: se você não conhece minimamente aquele universo, entra do filme mudo e sai calado, sem entender pissiricas. Falta didatismo ao filme, para explicar quem são aqueles cantores e porque Caetano Veloso, Chico Buarque, Toni Garrido e até a mexicana Lila Downs, ótima, estão fazendo ali. Há várias nuances no fado e ele também influenciou vários estilos musicais em países de língua lusa: Cabo Verde e Moçambique aparecem em belos números musicais, mas quem entende?


O problema de"Fados" é ser um filme de Saura - e Saura, senhoras e senhores, enferrujou. Herança de "Carmem" e outros musicais 'saurianos', os balés que enfeitam os números musicais em "Fados" são cafonas até o limite do aceitável. Aliás, eles passam fácil esse limite e batem o mau gosto no número de Lila Downs. Ao mesmo tempo, Saura mostra que continua o bom e velho esquerdista d'antanho. O número que mostra Chico Buarque cantando "Fado Tropical" - que ele compôs para a trilha da peça Calabar - mistura a imagem do cantor a cenas da Revolução dos Cravos. É de chorar, de tão lindo.

Também emociona o número que Carlos do Carmo, um dos maiores fadistas da terrinha, canta "Um homem na cidade" entre imagens lindas de sua Lisboa natal (Carlos do Carmo era o 'fadista da esquerda', enquanto Amália, a grande dama, era a 'fadista da direita'. O tempo se encarregou de limar essas bobagens). Amália, aliás, é lindamente homenageada no filme, que a mostra ensaiando um número e, em seguida, mostra Caetano Veloso cantando "Estranha forma de vida", um dos maiores sucessos da cantora (cuja casa de Lisboa, hoje transformada em Museu, está na foto que ilustra esse post).

Mesmo com defeitos, a gente sai do cinema com vontade de ouvir mais fados - os da nova sensação Mariza, uma moçambicana criada em Lisboa e que tem os cabelos curtinhos, provocantes, a emoldurar um vozeirão fantástico. Ou daqueles cantores que se apresentam numa casa de fados simples, cada um se levantando e se exibindo, numa espécie de desafio sem competição...

Isso me fez lembrar uma noite em Coimbra, quando - ao lado de alguns jornalistas - fomos parar numa casa de fados alternativa. Era uma birosca frequentada só por estudantes (Coimbra...), com fumaça de cigarro até dizer chega, e onde ouvi os melhores fados da minha vida. Ceça Brito, do Recife, estava comigo e deve lembrar dessa linda noitada de fados...

Voltando... A gente sai do filme do Saura (mesmo que se coçando com raiva dos balés), sentindo vontade de abrir um vinho Dão, mandar descer uns bolinhos de bacalhau e ler alguma cousa do Eça... Sejamos patriotas - mantenhamos o Dão, os bolinhos e abramos o livro do Ruffato. Ó pá, isto é muito giro!


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fernanda, 80 anos hoje



Conheci Fernanda Montenegro em 1973. Quem nos apresentou foi Medéia, numa adaptação da tragédia, assinada por Oduvaldo Vianna Filho - e que, alguns anos depois, viraria "Gota d´Água", com as deslumbrantes músicas de Chico Buarque. Devo ser sincero: na época não entendi muita coisa daquele caso especial, a não ser que a mulher enciumada matava os filhos e a nova mulher do ex-marido... Por volta de 1976-77, fui ao cinema assistir "Tudo Bem", uma comédia dirigida por Arnaldo Jabor (e, ao lado de "Toda Nudez será Castigada", um de seus melhores filmes). Me apaixonei de vez por aquela atriz ensandecida, que delirava com as traições imaginárias do marido e tratava os pedreiros com uma "bondade classe média" apavorante.


Desde aquela época já estive com Fernanda em várias situações. Ela era a estilista apaixonada por uma jovem Renata Sorrah, em "As lágrimas amargas de Petra von Kant"... Era a madrasta enlouquecida de amor por um ainda-sem-plástica Edson Celulari em "Fedra"... Era a dona de casa trocada por uma universitária, em "É...", de Millor Fernandes, ou a mulher soterrada na lama em uma peça de Samuel Beckett... Era a prima maluca de Paulo Autran na novela "Guerra dos Sexos"... Era a Zulmida de "A Falecida", a Dora de "Central do Brasil" e a Romana de "Eles não usam black-tie". E era também Adélia Prado, no monólogo "Dona Doida", um recital de poemas da autora mineira.
Não me lembro, nunca, de ter saído menos que hipnotizado por Fernanda. Mesmo quando não gosto muito, como o "Viver sem tempos mortos", em que ela vive Simone de Beauvoir, não posso dizer que ela estava fora de contexto. Fernanda cria o contexto. Cria o mundo.
O prazer da minha companhia, mesmo, ela só desfrutou em duas fugazes ocasiões. Durante a maratona de entrevistas para o lançamento de "Central do Brasil", Fernanda saiu do Espaço Unibanco e deu de cara com uma fila de gente comprando ingressos para outro filme. Era mais que um encontro, era um esbarrão inevitável. Ela encarou a todos nós e cumprimentou um por um, pegando na mão e tudo. Dizia algo do tipo "como vai, tudo bem, que legal que você está indo ao cinema"...
A outra vez foi quando, repórter da Folha, eu fazia uma matéria sobre cultivo de flores... sei lá porque, aquelas pautas da Folha... mas resolvi que Fernanda poderia dizer alguma coisa. Fui direto ao teatro onde ela estava em cartaz (o Cultura Artística, e ela fazia "Fedra") e, sem passar por assessor nem nada, pedi pra ouvi-la, expliquei o assunto ao porteiro e, depois de um tempo, recebi autorização pra subir ao camarim. Ela estava sentada, descansando antes do espetáculo. Me viu parado à porta, meio besta, e sorriu: "Você é o rapaz das flores?" Foram cinco minutos de conversa, da qual obviamente não lembro patavinas.
De resto, só conheço o que todo mundo conhece. E guardo na memória algumas cenas... Fernanda e Guarnieri catando feijão na mesa, em "Eles não usam black-tie" - fala sério, poucas cenas do cinema nacional são tão emocionantes. Fernanda recitando um poema de Adélia em que fala do silêncio cúmplice de um casal limpando peixes de madrugada... Fernanda ressuscitando o desejo pela virilidade de Othon Bastos em "Central do Brasil"... Fernanda e Paulo Autran despejando o café da manhã inteiro um no outro, numa tomada única e perfeita...
Fernanda, aos 80 anos, corre o risco de virar unanimidade. Uns, para criticar, falam que ela adora o dinheirinho do cachê, como se isso fosse pecado. Caramba, a mulher é o quê? Atriz. Vive do quê? De representar. Pra isso, precisa ser paga, pois não? Ah, esse nosso pudor católico em 'rejeitar' dinheiro...
O que me importa é assistir Fernanda em cena, admirar sua inflexão de voz e seus gestos precisos... É entender pelo olhar a alma do personagem... Não é preciso teorizar nem buscar explicações sociológicas: o prazer de um trabalho bem feito e que nos faz reconhecer o humano que existe no outro... Pra mim, dona Fernanda é isso.
Agora, fico sabendo que minha amiga Neusa Barbosa lança dia 28 o seu livro sobre Fernanda Montenegro. É um daqueles depoimentos da coleção Aplauso, da Imprensa Oficial - um catálogo que mistura gente interessante com outros que, francamente, não valem dois parágrafos... mas deixa pra lá... O que importa é que Neusinha colheu um depoimento de Fernandona ao longo de vários meses e me deixou com água na boca... Como pessoas adultas, amigos há mais de muitos anos, Neusinha e eu concordamos em várias coisas e, mais importante, discordamos em outras... Mas carregamos uma admiração comum por dona Fernanda (e pelo Chico, também...).
Tudo isso, só pra dizer "feliz aniversário, dona Fernanda! A senhora é o máximo!"
E tem mais uma coisa: sim, esse post é uma babação de ovo, descarada e assumida. São as delícias da blogosfera...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cartiê, filósofo


Menos de um segundo após o clique, a placidez da água, na foto ao lado, não existiria mais. Remexida, viraria lama talvez e o dono do sapato xingaria o dia todo a sujeira espalhada pela perna. Mas o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) captou o segundo anterior ao mau humor, à lama e ao caos. E é esse momento eternizado que figura na exposição de 133 trabalhos de Bresson - ou "do Cartiê", como diz a ascensorista do Sesc Pinheiros. Não tem desculpa pra falta de grana, a entrada é gratuita.´

É uma ótima exposição, não só pelos trabalhos do Cartiê (gostei), um mestre no uso da luz, sempre em preto-e-branco, um captador de instantes mágicos, de olhares agudos, de gestos jogados. Não vou me estender em análises - tem gente muito melhor que eu pra isso, a começar do curador da exposição, meu bom Eder Chiodetto. Mas se você prestar atenção vai ver um delicioso jogo de linhas retas, curvas e zigue-zagues, que o Cartiê enxergava na "simples" imagem de uma escadaria em Nova York ou de um beco num vilarejo grego.

O melhor da exposição é que você sai dela pensando na vida - não no sentido depressivo, pelo contrário. Também não sai rindo feito uma poliana-sem-neurônio, que os tempos não estão pra isso. Sai pensando, o que já é lucro. Em exposições de fotos antigas - e nessa há várias dos anos 30 - eu sempre penso que nenhum daqueles retratados está mais entre nós. Até o menininho fofo já deve ter cumprido sua trajetória e partiu desta pra melhor. E, no entanto, estão todos ali, vivinhos da silva, me encarando com olhos intensos. E há quem diga que fotografia não é arte!
Cartiê considerava-se um vampiro, pois buscava apreender a essência do que fotografava - seus retratos, no segundo andar, chegam a perturbar. E outros, como os que ele fez do escultor Alberto Giacommetti fazem rir. A obra de Giacommetti é marcada pelas figuras esguias e longilíneas - e os retratos que Cartiê fez do Alberto (ele chama o escultor assim num vídeo, eu ouvi) mostram que escultor e escultura tinham o mesmíssimo porte. Gostei de ouvi-lo falar nesse vampirismo artístico: eu também me sinto assim, quando ouço frases e conversas que vão me inspirar em cenas, diálogos, crônicas... Nossa antena capta e, muitas vezes, demora anos para reproduzir - mas fica tudo guardado em nós.
Voltemos ao Cartiê. Cartiê também dizia que a foto é como um tiro e, ao mesmo tempo, uma briga com a morte. Ao captar para sempre um instante, o fotógrafo dribla a definitiva ausência, ignora a destruição do tempo, eterniza a fração de segundo. Ele diz muito mais coisas - e coisas muito interessantes - no video exibido no andar térreo. Confesso que, em geral, eu pulo a parte do vídeo. É sempre uma babação de ovo besta em torno do artista ou, pior, uma análise indecifrável do trabalho, pior que os textos que 'explicam' os trabalhos. (Eu sempre acho que texto de exposição é escrito pelo mesmo sujeito que escreve manual de eletrodoméstico: não entendo patavinas). É bom dizer que os textos do Chiodetto são claros e, por isso, profundos. Só os incompetentes são indecifráveis, a profundidade é simples.
No caso do Cartiê, veja só, o video é uma delícia. Fiquei me perguntando se a sabedoria daquele senhorzinho de 80 anos só apareceu por volta dos 75 ou se ele já era sábio aos 35. De todo modo, o olhar inquieto de Cartiê, impaciente com as perguntas, ensina muito a quem acha que há resposta para tudo. Cartiê, que dominou a fotografia e, depois dos 70, começou a desenhar - ele fala coisas lindas sobre isso, no vídeo - ensina que se conformar é o pior dos pecados (e o único que a igreja não condena...).
Até a biografia estampada numa parede é curiosa. Lá pelas tantas, você percebe que a turma do Cartiê era qualquer coisa de espantosa. Ele fez um livro e quem fez a capa? Matisse. E assim ia, só gente que hoje recheia catálogo de museu. E todos vivendo em Paris, o que só acrescenta mais charme à mistura. Dá uma inveja...
p.s. Não perca o terceiro andar, "Bressonianas", com os trabalhos de sete brasileiros influenciados pelo mestre francês: Flávio Damm, Carlos Moreira, Cristiano Mascaro, Orlando Azevedo, Juan Esteves, Marcelo Buainain e Tuca Vieira. Chega a ser melhor.