Santa Kate Winslet, protetora dos Indicados e nem sempre Premiados,
não ando com a barra muito limpa com a senhora, confesso.
Não vi "O leitor". Faltou tempo. Mais que isso, faltou vontade.
Vi "Foi apenas um sonho", que a senhora fez com seu marido e com o Leonardo... Pô, gostei bem.
Comecei a torcer por sua premiação no último Oscar quando li uma declaração sua, várias vezes indicada e sempre voltando pra casa de mãos abanando: "A gente ensaia bastante e faz uma cara de indicado derrotado e tudo bem". A declaração era mais elegante que isso, mas a idéia é essa.
Santa Kate, me empresta a tal cara! Ou, pelo menos, me dá uns toques pra eu fazer bonito na terça-feira, quando entregam o Prêmio Femsa. Pela primeira vez, em 17 anos de carreira, sou indicado como melhor autor - de texto adaptado, por "O Médico e os Monstros", uma das montagens mais deliciosas de texto meu... A produção do La Mínima, que foi apresentada no Sesi da Paulista, tem outras indicações e, claro, torço por todas.
Estou excitado com o lance e seria muito mentiroso de minha parte dizer que ser indicado já é uma vitória. É uma delícia ler o próprio nome na lista dos finalistas. Mas legal mesmo deve ser ganhar. Uma coisa é certa: se perder, terei perdido pra um concorrente de qualidade (os outros indicados são bem bacanas, nossa!). Já ganhei prêmios de dramaturgia, mas com peça montada, testada pelo público, é a primeira vez que concorro. E olha que até hoje não me conformo com esses comitês julgadores, que sequer indicaram Karin Rodrigues ou Rubens de Falco, por seus trabalhos em peças minhas. Talvez porque fizessem peças em que faziam o público rir, estes atores foram injustiçados, digo pra quem quiser ouvir - ou ler, no caso do blog.
Agora, o que modetamente peço, Santa Kate Winslet, é a expressão elegante, de quem perde com chiquê. Agora, se ganhar, eu juro que não vou reclamar... e até tomo uma cerveja em seu louvor, minha santa, lá no bar dos Parlapatões. Quando a senhora baixar por aqui, dá um toque e eu levo lá. Se coincidir de ser mês de Satiryanas, a senhora vai viciar.
Se cuida, santa Kate. Amém.
domingo, 29 de março de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Os olhos azuis do Lula - Praxis
A caminho da ACM, passo pela rua Avanhandava. Uma sem-teto negra, magra como esses viciados em crack, levanta-se e berra para alguém que estaria atrás de mim, mais distante.
-- Ô loirinha, me dá comida! Eu tô com fome!
A interpelada, pelo jeito, ignorou. A sem-teto, entredentes:
-- Fiadaputa.
E sentou-se na calçada, conformada.
-- Ô loirinha, me dá comida! Eu tô com fome!
A interpelada, pelo jeito, ignorou. A sem-teto, entredentes:
-- Fiadaputa.
E sentou-se na calçada, conformada.
Os olhos azuis do Lula
Vamos deixar o passional de lado e, por um instante, esquecer as besteiras que Lula e Os Seus andam cometendo. Vamos nos concentrar nas recentes declarações do presidente diante do alto coronelato internacional. A crise, disse Lula, foi causada "por gente branca de olhos azuis que, antes da crise, parecia que sabia tudo e agora demonstra não saber nada".
Minha pergunta é: ele mentiu?
Quando a grana rolava solta, ninguém convidou o terceiro mundo pra comer uma fatiazinha do bolo. Agora que a água atingiu a região glútea, neguinho olha pra baixo e vê a gente?
Lula diz que nunca viu banqueiro preto ou índio - o homem não para de passear pela África, algum banqueiro escurinho ele deve ter visto, mas esqueceu.
Pode não ser uma das dez frases mais elegantes da História, concordo - e até levou o Tutty Vasquez a dizer no Estadão que o Lula está aplicando a lei das cotas racistas, digo, raciais na economia mundial - mas uma coisa é certa: o Lula fala a língua que a maioria entende. Se tivessem coragem de falar a mesma coisa, Fernando Henrique Cardoso ou José Serra usariam estruturas gramaticais tão empoladas que nem seus assessores entenderiam o sentido. Lula fala que nem o zelador do seu prédio ou o tio caipira que adora cuidar da churrasqueira nas festas de família.
Mais interessante ainda é tentar relacionar essa "crítica ao olho-azulzismo" com a ascenção de Obama e com a safra de filmes multiraciais que tomou conta dos cinemas. Não é questão de cotas. É realismo: o mundo mestiça-se cada vez mais. Os países europeus - brancos, de olhos azuis - pagam agora (e com má vontade) a fatura do colonialismo. No século 19, eles não se incomodaram de cruzar mares e mostrar pra negrada quem é que sabia das coisas. Os colonizados aprenderam e foram à fonte. São cidadãos europeus, sim. Foram transformados nisso e agora exercem seus direitos. No cotidiano, quem caminha pelas capitais européias atualmente não se sente mais numa grande Santa Catarina - avista casais mistos de monte, crianças mulatas, avista a melange.
O mundo vive agora o que nós vivemos desde abril de 1500. Foram séculos de educação européia nos provando que essa mestiçagem era vergonhosa, enfraquecia o moral e explicava nossa miséria histórica. Agora que eles, lá em cima, viram que a mistura é inevitável, estão tentando nos convencer que white is beautiful, que é preciso separar por raças e cotas, que o bom é ser puro feito cocaína sem talco.
Agora que a conta chegou e é alta, a turma branca de olho azul quer rachar a conta com os escurinhos. É como em mesa de bar que o sujeito mama um litrão de uísque e quer dividir meio a meio com o coitado que só tomou suco de melão sem açúcar. (Lula não gostará dessa metáfora, mas ele não lê blog, mesmo...).
Minha pergunta é: ele mentiu?
Quando a grana rolava solta, ninguém convidou o terceiro mundo pra comer uma fatiazinha do bolo. Agora que a água atingiu a região glútea, neguinho olha pra baixo e vê a gente?
Lula diz que nunca viu banqueiro preto ou índio - o homem não para de passear pela África, algum banqueiro escurinho ele deve ter visto, mas esqueceu.
Pode não ser uma das dez frases mais elegantes da História, concordo - e até levou o Tutty Vasquez a dizer no Estadão que o Lula está aplicando a lei das cotas racistas, digo, raciais na economia mundial - mas uma coisa é certa: o Lula fala a língua que a maioria entende. Se tivessem coragem de falar a mesma coisa, Fernando Henrique Cardoso ou José Serra usariam estruturas gramaticais tão empoladas que nem seus assessores entenderiam o sentido. Lula fala que nem o zelador do seu prédio ou o tio caipira que adora cuidar da churrasqueira nas festas de família.
Mais interessante ainda é tentar relacionar essa "crítica ao olho-azulzismo" com a ascenção de Obama e com a safra de filmes multiraciais que tomou conta dos cinemas. Não é questão de cotas. É realismo: o mundo mestiça-se cada vez mais. Os países europeus - brancos, de olhos azuis - pagam agora (e com má vontade) a fatura do colonialismo. No século 19, eles não se incomodaram de cruzar mares e mostrar pra negrada quem é que sabia das coisas. Os colonizados aprenderam e foram à fonte. São cidadãos europeus, sim. Foram transformados nisso e agora exercem seus direitos. No cotidiano, quem caminha pelas capitais européias atualmente não se sente mais numa grande Santa Catarina - avista casais mistos de monte, crianças mulatas, avista a melange.
O mundo vive agora o que nós vivemos desde abril de 1500. Foram séculos de educação européia nos provando que essa mestiçagem era vergonhosa, enfraquecia o moral e explicava nossa miséria histórica. Agora que eles, lá em cima, viram que a mistura é inevitável, estão tentando nos convencer que white is beautiful, que é preciso separar por raças e cotas, que o bom é ser puro feito cocaína sem talco.
Agora que a conta chegou e é alta, a turma branca de olho azul quer rachar a conta com os escurinhos. É como em mesa de bar que o sujeito mama um litrão de uísque e quer dividir meio a meio com o coitado que só tomou suco de melão sem açúcar. (Lula não gostará dessa metáfora, mas ele não lê blog, mesmo...).
quarta-feira, 25 de março de 2009
Manhã, tão bonita manhã
Parecia uma manhã carioca, de tanto sol e céu azul. Animado e querendo dar um pulo no Paraíso, dispensei o metrô e peguei um ônibus no Trianon. Subimos eu, uma estudante, - e um mendigo. O cobrador logo olhou feio - "Eh!" -mas o mendigo não se deu por achado. Mulato, jovem, cabelos raspados de qualquer jeito, revelando cicatrizes e outras marcas, ele vestia roupas que nunca foram suas - e que há muito tempo não sabiam o que era um sabãozinho.
Passei, ligado nos movimentos do rapaz, que estava atrás de mim. Sentei numa cadeira vazia e logo temi que ele quisesse ocupar o assento ao lado. Ele passou por baixo da roleta e optou por um lugar vago ao lado de uma jovem ruiva, de nuca bonita. Em voz baixa, trocou com ela umas duas ou três frases e, pra minha surpresa, ela respondeu. Quando eu quase me esquecia de sua presença ali, ele perguntou alto: "Que hora que é agora?". Não sei se ela respondeu, porque eu estava distraído pensando no que levaria alguém tão desprovido de tudo a se preocupar com a hora do dia. Atrasado, pra quê?
Três pontos depois, o rapaz levantou-se para descer. Ficou parado, esperando o ônibus encostar no ponto. Não empurrou ninguém, não pressionou. Mas ficou olhando, interessadíssimo, na bolsa de uma senhora que estava sentada próximo à porta. A mulher usava fones de ouvido e eu seria capaz de apostar que o mendigo queria roubá-la. O ônibus parou, a porta se abriu e ele desceu. Não roubou nada. Levou apenas a minha auto-imagem de cidadão sem preconceito.
Passei, ligado nos movimentos do rapaz, que estava atrás de mim. Sentei numa cadeira vazia e logo temi que ele quisesse ocupar o assento ao lado. Ele passou por baixo da roleta e optou por um lugar vago ao lado de uma jovem ruiva, de nuca bonita. Em voz baixa, trocou com ela umas duas ou três frases e, pra minha surpresa, ela respondeu. Quando eu quase me esquecia de sua presença ali, ele perguntou alto: "Que hora que é agora?". Não sei se ela respondeu, porque eu estava distraído pensando no que levaria alguém tão desprovido de tudo a se preocupar com a hora do dia. Atrasado, pra quê?
Três pontos depois, o rapaz levantou-se para descer. Ficou parado, esperando o ônibus encostar no ponto. Não empurrou ninguém, não pressionou. Mas ficou olhando, interessadíssimo, na bolsa de uma senhora que estava sentada próximo à porta. A mulher usava fones de ouvido e eu seria capaz de apostar que o mendigo queria roubá-la. O ônibus parou, a porta se abriu e ele desceu. Não roubou nada. Levou apenas a minha auto-imagem de cidadão sem preconceito.
terça-feira, 24 de março de 2009
No meu blog ou no seu?
Sabe aquela amiga que disputava com você o título de maior conhecedor de sushis da cidade? Casou, teve filho e hoje fica horas falando de como é difícil encontrar uma babá que não seja ninfomaníaca ou alcoólatra. E aquele amigo, parceiro de todos os filmes e teatros? Ganhou um cachorro e trocou as filas do Unibanco Artplex pela espera na pet shop do bairro. "Pai de blog" é a mesma coisa. Depois que o blog nasce, a gente só sabe falar dele. Faz tudo depressa na rua e chega em casa ávido para saber se houve comentários... Troca idéias com outros blogueiros... Feito um vampiro da Anne Rice, passa a reconhecer espíritos blogueiros por onde quer que passe... E aproveita qualquer situação pra falar, de boca cheia: "No meu blog...". Hoje mesmo eu divulguei o Olharesloiros no meio da aula de hidroginástica.
Tudo isso pra dizer que ontem fui cortar o cabelo e fiquei um tempão futricando sobre bloguices com o Ricardo Heleno (não, não vou fazer merchan e dizer que ele dá suas tesouradas numa franquia francesa, que fica ao lado Fran's Café da Haddock, não insistam). O Ricardo - além de simpático, inteligente, bem humorado, fã de cinema, estudante de fotografia e etc - tem um divertido e curioso blog sobre cabelos: http://mundodoscabelos.zip.net. Nele, o moço dá dicas, palpites e exibe um monte de fotos com as novas tendências capilares. Se você tiver 20 anos, uma pele de pêssego e cabelos macios como seda, vai se ver nas fotos. Agora, se for pixaim ou tiver olheiras de buldogue pobre... vai ler as dicas do Ricardo.
Ele me contou que recebe um monte de fotos com imagem de gente pedindo consultoria. Tem resistido a responder, porque depois da primeira, vai ser um deus nos acuda. Fiquei imaginando possíveis respostas para as consultas - respostas que só um espírito de porco como eu daria, porque o R.H. é fino e talvez não as desse. "Ô, meu anjo, seu caso merece uma consulta personalizada. Aparece no endereço abaixo sábado à noite, traz um vinho. Tinto". Ou então: "Meu bem, tá na hora de colaborar com o ecossistema mundial: tranque-se em casa e não saia nem pra falar com o porteiro."
Esse negócio de blog deixa a gente bem imaginativo...
Tudo isso pra dizer que ontem fui cortar o cabelo e fiquei um tempão futricando sobre bloguices com o Ricardo Heleno (não, não vou fazer merchan e dizer que ele dá suas tesouradas numa franquia francesa, que fica ao lado Fran's Café da Haddock, não insistam). O Ricardo - além de simpático, inteligente, bem humorado, fã de cinema, estudante de fotografia e etc - tem um divertido e curioso blog sobre cabelos: http://mundodoscabelos.zip.net. Nele, o moço dá dicas, palpites e exibe um monte de fotos com as novas tendências capilares. Se você tiver 20 anos, uma pele de pêssego e cabelos macios como seda, vai se ver nas fotos. Agora, se for pixaim ou tiver olheiras de buldogue pobre... vai ler as dicas do Ricardo.
Ele me contou que recebe um monte de fotos com imagem de gente pedindo consultoria. Tem resistido a responder, porque depois da primeira, vai ser um deus nos acuda. Fiquei imaginando possíveis respostas para as consultas - respostas que só um espírito de porco como eu daria, porque o R.H. é fino e talvez não as desse. "Ô, meu anjo, seu caso merece uma consulta personalizada. Aparece no endereço abaixo sábado à noite, traz um vinho. Tinto". Ou então: "Meu bem, tá na hora de colaborar com o ecossistema mundial: tranque-se em casa e não saia nem pra falar com o porteiro."
Esse negócio de blog deixa a gente bem imaginativo...
segunda-feira, 23 de março de 2009
ATORES...

Anna Cecilia Junqueira tem 20 e poucos anos, uma beleza diáfana, uma doçura que espalha ao andar, sem se dar conta. Seria a pessoa menos indicada a encarnar uma mulher que acaba de matar o amante, por quem fora louca de paixão. Acontece que Anninha é ótima atriz. Mergulhou no texto e dele emergiu como a mulher sofrida que as palavras exigiam. Toda vez que ela entra em cena, olhos fundos, ar perdido, para iniciar uma conversa com o pintor invisível, faz-se a magia do palco. Começa "Natureza Morta", no Espaço dos Satyros 1, toda sexta e sábado, meia noite. É um deleite para o público - e para o autor, também.
Escritores são figuras muito estranhas. Trancam-se em seus quartos-laboratórios-redomas-edens e criam mundos. Imperfeitos, violentos, doces, amorosos mundos. Dentro desse universo, o autor de teatro é o estranho entre os estranhos. O autor de teatro nunca completa sua obra sozinho. Ele precisa do olhar do diretor, da mão do iluminador, da ajuda do cenógrafo - e do corpo dos atores. E todos, juntos, precisam do público. Sem o conjunto de olhares difusos na escuridão, atentos a cada movimento em cena, não há teatro.
Só consigo chegar à platéia incorporado nos atores. São eles, com voz, gestos, olhares e suores, que vão contar o que escrevi. Eles me traduzem pra quem não faz idéia de quem eu seja. Diretores também são fundamentais, mas é com os atores que o público vai ter contato. Ah, os atores e suas inseguranças, infantilidades, vaidades e intocáveis misteres.
Desde 1993, quando estreou "Ifigônia", minha primeira peça profissional, tenho uma relação amorosa com os atores. E ao longo do tempo fui localizando aqueles que melhor traduziam o que eu tinha escrito. Traduziam, não por fidelidade canina, mas por acréscimo. Os "meus melhores atores" sempre dão ao personagem um toque, um acento ou um tempero que eu não havia pensado. E fica tão bonito, orna tão bem, porque se não estava lá foi só porque eu tinha esquecido, distraído que sou.
Rosi Campos enforcando-se com as próprias mãos em "Ifigônia". Rubens de Falco recitando poemas de Roverto Piva para o amante perdido no passado, em "Galeria Metrópole". Pedro Guilherme injetando uma fragilidade comovente no moleque da zona leste de "Carro de Paulista". Bárbara Paz, Raul Barreto, Napão e Claudinei tornando humanas as barbaridades de "Um chopes, dois pastel e uma porção de bobagem". Otavio Martins revelando-se um filho fracassado em "Vestir o Pai" ou um cara disposto a amar quem quer que seja, não importa o sexo, em "O Amor do Sim". Flávia Garrafa, Tania Castello, Flavio Faustinoni - o que seria de "Assim com Rose" sem a presença deles? Cito esses, poderia citar outros - Zezeh Barbosa, Daniel Dottori, Carlos Baldim, Priscila Carvalho, Karin Rodrigues, Aline Abovski, Leona Cavalli, Xepa, Domingos Montagnier e Fernando Sampaio, Carol Badra, Keilinha... Já tive a alegria de trabalhar com tanta gente legal. E eles foram especialmente bacanas porque partiram do meu texto e trouxeram o seu ponto de vista. É isso o que faz do teatro uma arte sem imitações. É o conjunto e não o solitário.
Tudo isso por um motivo. Ontem, consegui uma folga de "Poder Paralelo" (estréia dia 14 de abril, na Record) e fui ver "A Noite mais Fria do Ano". Não consegui falar com o Marcelo Rubens Paiva, não pude cumprimentá-lo. No meio da apresentação, eu comecei a achar a peça esquisita, a Paula estava infantil, o Alex Gruli estava travado... De repente, uma frase, tudo muda e todas as fichas caem. E de novo, e de novo. A peça é um jogo e fez ainda mais sentido hoje do que ontem. Cada vez que penso nela lembro de um detalhe, um dado qualquer... Belíssimo texto, dom Marcelo!
Mas o que me deixou pleno mesmo foi o elenco - em especial a Paula Cohen e o Hugo Possolo. Com a Paula nunca trabalhei - até agora, mas calma, somos jovens e temos tempo. Já o Hugo... é até covardia falar de alguém com quem tenho uma afinidade profissional e pessoal acima dos padrões convencionais. Na qualidade de segundo autor mais montado dos Parlapatões, posso dizer isso com tranquilidade. Minha parceria com o Hugo, independente do resultado, é um casamento perfeito - inclusive porque não tem sexo. Minha amizade e meu carinho por ele poderiam me impedir de escrever, seria muita babação de ovo.
Mas ontem, vendo o Hugo e a Paula em cena, me comovi muito. Por várias razões: pelo trabalho que eles desenvolvem em cena; pela generosidade de ser ator ao lado do Bortolotto, dois diretores seguindo as orientações de um diretor relativamente verde, como o Marcelo... e pela entrega ao papel. Na história, o personagem de Hugo rasteja por uma mulher que o trocou por outro cara. Lá pelas tantas, beijam-se, tentando resgatar uma paixão perdida. Transam, movidos por um desejo desesperado e inútil. É lindo. E eu me dei conta que nunca tinha visto o Hugo beijando a boca de uma mulher em cena - palhacinhos não beijam. Que coisa.
domingo, 22 de março de 2009
A Menina do Chumbinho
Com açúcar, afeto e chumbinho, uma garota de 17 anos fez um bolo para a mulher de seu amante. Quem comeu o doce foram os três filhos pequenos do casal. Quase morreram envenenados pelo raticida. A serial caker foi presa - ou melhor, apreendida, pois se trata de uma 'de menor'. Do pai das crianças envenenadas, amante da menina de 17, não se ouviu falar.
Desde que li essa história no jornal, fiquei pensando no que levou a jovem à cozinha. Poderia ter pensado nas crianças, mas estavam todas fora de perigo. A mãe, grávida, nem tocou no bolo. Me instigou mesmo a doceira criminosa. Passional, sem dúvida. Ciumenta, possessiva. Mas, acima de tudo, apaixonada por um cara mais velho, preso a um casamento cheio de crianças - e com mais uma a caminho. À polícia, a menina disse que queria se livrar da rival grávida. O que ela faria com as pequenas órfãs? Assumiria?
O que a doceira ouviu de seu amante? O que ele prometeu antes de levá-la pra cama de algum hotelzinho barato na periferia? E, depois do crime consumado, a grávida sepultada e afastada para sempre do homem amado... o que aconteceria? Viveriam felizes como casal de fim de novela - com as crianças sendo criadas pela avó materna? A doceira e seu homem, finalmente sozinhos. Afinal, ele disse mesmo que ia largar a mulher, era só as crianças crescerem mais um pouco... Mas ninguém esperava era que a mulher, a titular, a oficial, pegasse barriga. Fez de propósito, a vaca. Quis prender o marido, tirar o homem da jovem apaixonada.
Isso pode ter passado pela cabeça dela? Pode. Mas ela também pode ser apenas mais uma desmiolada, para quem o desejo não satisfeito justifica qualquer ato vingativo. O desejo à custa da vida de quem quer que seja. Tem sido assim, já repararam? Pais morrem, mães são assassinadas, amigos se destroem, amantes se dilaceram - mas o desejo deve ser atendido. A dor do "não" desemboca em fúria. O sangue lava a rejeição.
Pensar que há alguns anos o Chico avisou: a dor da gente não sai no jornal. Tarde demais, Chico. Agora sai.
Desde que li essa história no jornal, fiquei pensando no que levou a jovem à cozinha. Poderia ter pensado nas crianças, mas estavam todas fora de perigo. A mãe, grávida, nem tocou no bolo. Me instigou mesmo a doceira criminosa. Passional, sem dúvida. Ciumenta, possessiva. Mas, acima de tudo, apaixonada por um cara mais velho, preso a um casamento cheio de crianças - e com mais uma a caminho. À polícia, a menina disse que queria se livrar da rival grávida. O que ela faria com as pequenas órfãs? Assumiria?
O que a doceira ouviu de seu amante? O que ele prometeu antes de levá-la pra cama de algum hotelzinho barato na periferia? E, depois do crime consumado, a grávida sepultada e afastada para sempre do homem amado... o que aconteceria? Viveriam felizes como casal de fim de novela - com as crianças sendo criadas pela avó materna? A doceira e seu homem, finalmente sozinhos. Afinal, ele disse mesmo que ia largar a mulher, era só as crianças crescerem mais um pouco... Mas ninguém esperava era que a mulher, a titular, a oficial, pegasse barriga. Fez de propósito, a vaca. Quis prender o marido, tirar o homem da jovem apaixonada.
Isso pode ter passado pela cabeça dela? Pode. Mas ela também pode ser apenas mais uma desmiolada, para quem o desejo não satisfeito justifica qualquer ato vingativo. O desejo à custa da vida de quem quer que seja. Tem sido assim, já repararam? Pais morrem, mães são assassinadas, amigos se destroem, amantes se dilaceram - mas o desejo deve ser atendido. A dor do "não" desemboca em fúria. O sangue lava a rejeição.
Pensar que há alguns anos o Chico avisou: a dor da gente não sai no jornal. Tarde demais, Chico. Agora sai.
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