terça-feira, 26 de julho de 2011

Chico!


Antes de convidar à leitura, vou logo avisando: este é um território chiquista, com evidente e democrático espaço para discordantes, desde que mantido o nível de civilidade. Isso posto, vamos ao post em si. Saiu Chico, o CD novo de Chico Buarque. Mais que novo, é um grande CD. Maior que seus 31 minutos de duração. Poderia ser um resumo da carreira de Chico desde os anos 60, mas é evidente e audível a vontade do compositor de não ser o mesmo, de avançar, de arriscar. Chico escapa do olê olá, com métrica certinha, e abusa do descompasso entre verso e música, as palavras faltam aqui, sobram ali, como que deslocadas. E estão - é esse o segredo.
Como em outros discos anteriores do compositor, Chico começa com um sobrevoo. "Querido diário" mostra as ruas e as pessoas que olham o narrador, oferecem-lhe Deus enquanto ele fala da mulher sem orifício. Chico Buarque, de 1989, abria com "Dois irmãos", lindamente. No álbum Carioca, de 2006, ele começava com "Subúrbio" e falava da cidade que tinha Cristo de costas. Em As Cidades (1998), o abre era "Carioca", aquela que usava o refrão 'gostosa, quentinha tapioca' e falava das meninas com peitinhos de pitomba. É sempre um prólogo, uma situada no tempo e no espaço. Desta vez, não foi diferente.
A pista para Chico está na segunda faixa. Rubato, informa-me o Aurélio, é a "execução caracterizada pelo emprego de certas liberdades rítmicas, num intuito expressivo que depende unicamente do gosto musical do intérprete". Não por acaso, "Rubato" é o título da canção que Chico fez com Jorge Helder. E é ela que explica o disco todo, cheio de quebras, sílabas alongadas, frases aparentemente imperfeitas. O cd é um grande rubato.
Em "Essa pequena", Chico melhor retrata a passagem do tempo. Chico e Caetano estão envelhecendo, isso é fato. Não lembro de outros compositores a explicitar tanto em suas obras como o envelhecer afeta. Chico, há tempos. Caetano, mais nos últimos CDs e shows, apoiado numa ainda novata Maria Gadu. Em "Essa pequena", o narrador de cabelos cinzas já se conformou com as filhas que saíram de casa ( "As minhas meninas", de 87) e agora se espanta com o à vontade da namorada de cabelos vermelhos. "Acho que nem sei direito o que é que ela fala", confessa. "Mas o blues já valeu a pena". Valeu mesmo.
Daí pra frente, é um reencontro com os personagens que Chico cria desde Pedro Pedreiro. "Se eu soubesse" é uma canção de amor inesperado, acompanhado pela voz zizipossiana de Thais Gulin, e de certa maneira nos aproxima da "Renata Maria", de Carioca. "Sou eu", o samba feito em parceria com Ivan Lins, é a voz finalmente dada ao marido de "Deixa a menina", dos anos 80. E o que dizer de Nina, a personagem de uma delicada valsinha? Prima irmã da emigrante de "Iracema voou", só que desta vez, ela não liga a cobrar, mas fala pelo Google Maps. E Chico ainda rima mapa com rapta, toca com vodca - e vai. "Barafunda" é um sambinha gostoso, fala de Cartola, Garrincha e Mandela - e aproxima-se de "Feijoada Completa" e "Futebol", de safras passadas.
O cd termina com "Sinhá", uma tocante criação de Chico e João Bosco. Mais uma vez, como em "O velho Francisco", do álbum Francisco (1987), somos apresentados a um personagem sofrido. Daquela vez, era um velho abandonado num asilo. Agora, é um escravo preso ao tronco e torturado por ter visto a dona nua. Em cinco estrofes, temos o panorama completo. Mais uma vez, fico com a impressão que Chico sabe, como raros, compor sobre gente que mente. Assim como a mulher de "Olhos nos Olhos" sempre me pareceu ainda desesperada pelo amor do homem que a deixou, o escravo de "Sinhá" mente. Ele viu, sim, a sinhazinha nua, mas nem por isso merece o castigo que vai sofrer. A capacidade de deixar entrever uma possível inversão do que está sendo dito é fascinante e é o que me atrai na obra do Chico. E o cd, que começa com um controverso "mulher sem orifício" termina com um homem que tem os olhos furados...



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Portinari, para poucos


A menina magricela, de uns 10 anos mais ou menos, estava entre inconsolável e revoltada. "Por que não posso fotografar os quadros que eu quero?", perguntava-se sem obter resposta do segurança gentil (porém desinformado) nem dos pais, de aparência de quem tem pouca intimidade com o ambiente dos museus. A cena se passou domingo no MAM, onde foi aberta uma delicada exposição de Cândido Portinari. Tenho uma tendência quase psicopata de dar informação a quem se encontra perdido na rua e, desta vez, não reprimi meus instintos. Expliquei pra menina que alguns quadros pertenciam a colecionadores particulares, que o emprestavam, mas proibiam fotos. O pai ou a mãe da menina tentavam ajudar. "É pra ninguém fazer cópia e vender na rua". A menina assumiu a frustração e decidiu: "Quando eu ficar grande, vou comprar quadros bem bonitos e deixar todo mundo fotografar". Tomara.
O que gira em torno dessa história é a exposição - recorte de um período curto na vida de Portinari (1903-1962), com vários estudos e rascunhos - bem bacana. Tão bacana, que esqueceu da popularidade de Cândido Portinari. Domingo, dia de entrada grátis, o MAM estava bem cheio, havia fila de espera para entrar. E o grátis não explicava a presença de outras famílias "simples", daquelas que normalmente não se vê em exposição de pintura. Há uma delicadeza nessa visita, a preocupação de o filho aprender alguma coisa nas férias, fora da escola (Portinari é um daqueles nomes que caíram no imaginário popular, virou sinônimo de algo bom no mundo das pinturas). É para esse público que a exposição parece voltar as costas.
Não há a menor explicação didática e, no caso de um artista popular isso é fundamental. No caso do MAM, todo mundo sai desinformado. Por exemplo: mostra-se vários estudos para o preparo de belos murais. Mas onde estão esses murais? Por que não colocar uma foto da Igreja da Pampulha ou do prédio do Ministério da Educação no Rio? Em uma parede, há uma linda série de retratos que Portinari fez de sua mulher, Maria - mas eu só sei que era a mulher dele, porque li a resenha da Vejinha. Quem entra no museu sem saber nada antes sai com o mesmo nível de informação complementar. Pena que a curadoria não tenha pensado nisso.
Lembro que, alguns anos atrás, fiz um curso de produção cultural na Fundação Getúlio Vargas e, numa das palestras, ministrada por um diretor do Masp, ouvi bestificado o seguinte: exposições muito populares não nos interessam, porque atraem um público despreparado, sem pedigree. Numa hora dessas, a função social de um museu, escoa pelo ralo do esnobismo e revela exatamente o que boa parte do mundo da Arte reflete: Arte é para poucos, para os eleitos, para os bacanas. Quem é do povo deve dar graças a Deus por ter televisão e estátua viva na Paulista. Quer pintura? Compra um quadro de palhacinho chorando e passe bem. Deixa o Portinari pros lindos.
Ser didático não significar ser chato. Dá para ensinar sendo lúdico. Quando uma família da
periferia avança o sinal e entra no Museu, está dando sinais claros de que quer mais do que
o domingo de faustão e gugu. Pode não suspirar embevecida, nem comentar que a exposição de Fulano
em Paris era melhor.... Mas chegou ali e não deve ser ignorada.
Às vezes, penso que é justamente a arrogância dos produtores de cultura que afasta
os que querem
aprender alguma coisa. Colocar uma barreira entre "nós" e "eles" ajuda a manter o sistema de castas
em que vivemos. O coronelismo nocivo da política alastra-se no dia a dia e manifesta-se no império
dos chiques sobre os populares, da grande arte sobre a arte popular. Não é um mal exclusivo do Brasil,
é bom que se diga. O cabonismo pirateia-se mundo afora.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Órfãs de filho


Um nunca soube do outro e se não fosse a coincidência de frequentarem as páginas do noticiário nos mesmos dias, certamente não haveria porque ligar Juan a Yoham. Mas ambos tinham muito em comum: eram meninos, brincavam na rua, tinham vários irmãos e foram batizados por suas mães com nomes que buscavam tirá-los da sina madrasta que uniformiza os caminhos de tantos zés, joões e carlinhos. Não deu certo a mandinga. Isso foi outro ponto comum entre os meninos. Ah, e o fato de serem, os dois, pobres.

A bala perdida que atingiu Juan numa favela do Rio e a avalanche de terra que cobriu Yoham, entre São Paulo e Diadema, poderiam ser o ponto final de duas vidinhas curtas, mas não foi bem assim que aconteceu. Juan virou "o menino que desapareceu depois de uma suposta troca de tiros entre policiais e traficantes de uma favela". Sua mãe apareceu em jornais e programas de TV, à espera de uma notícia que não vinha. Suspeita-se que a própria polícia tenha sumido com o menino ferido. Só isso bastaria para transtornar uma mãe, acho eu. Mas a coisa não ficou nisso.

Na semana passada, um corpo de criança foi encontrado num rio, lá pelas redondezas do tiroteio. O circo de sempre - emissoras de TV, policiais querendo aparecer, policiais querendo sumir e, pensava eu, um nó apertado no peito da mãe: "será ele, será o Juan? Deus queira que não". E era um corpo que ninguém conseguia identificar o sexo - esse detalhe mórbido é de uma crueldade alucinante: que estado era o desse corpo, que não permitia diferenciar um pinto de uma xoxota? Será que é o meu filho que está assim, maltratado? E veio a autoridade do Rio dizer que era o corpo de uma menina. Bem ou mal, era uma esperança pra mãe do Juan.

Até que, no começo desta semana, muda o veredito: era mesmo o corpo de Juan, aquele que ninguém sabia identificar. E veio mais uma notícia: o enterro teria que ser antecipado, pois temia-se "alguma coisa de inesperado". E eu só tinha na minha mente a imagem da mãe de Juan, de uma mãe que precisou matar várias vezes o mesmo filho. Quantas vezes ainda ela terá que sofrer essa morte? Não passa pela cabeça das autoridades que a incerteza fere mais que a notícia definitiva?

Depois, veio a tragédia das casas soterradas. Dizem que havia uma obra da prefeitura ali e, de maneira pouco direta, tenta-se jogar a culpa nos soterrados, que insistiam em morar nos lugares de risco. A mãe de Yoham apareceu e disse que teria, sim, mudado com a família para outro canto. Chegou mesmo a achar uma casa de 40 mil reais, mas a prefeitura avisou que só pagava 25 mil - mais ou menos, o novo salário do prefeito. Onde o burocrata da prefeitura encontra um barraco que seja para comprar com 25 mil reais?

"Por 15 mil, perdi o meu filho", disse a mulher. Errou a conta, madame. Seu filho morreu porque o dinheiro que pagamos em impostos reverte-se, quase sempre, em propinas, salários a autoridades inúteis e gastos desnecessários com gabinetes de políticos. Não sobrou muito para tentar livrar algumas pessoas das avalanches. É a vida. Deus quis assim.

Juan e Yoham também morrem a cada vez que suas pequenas tragédias somem dos jornais e dos noticiários. Nem mesmo a gente, classe média que ainda se julga capaz de alguma indignação confortável, nem mesmo a gente estica o pensamento sobre eles. Juan e Yoham duram até a próxima vingança de Norma contra Léo. E daqui a poucos dias, nem mesmo Norma ou Léo farão parte das nossas vidas. Esqueceremos e aguardaremos o próximo vilão, a próxima mocinha, a tragédia seguinte. Tudo anda muito fugaz, nas novelas e na vida.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tempo tempo tempo tempo


O tempo nos incomoda. Perturba. Confunde. É um inimigo contra o qual a batalha é sempre perdida. Pode, sim, ser nosso aliado, quando precisamos de calma para encontrar soluções ou queremos apreciar o crescimento de alguém ou alguma coisa. O tempo mexe com todos. Penso no tempo que passa desde o final dos anos 70, quando Caetano gravou "Oração ao Tempo", no LP (era LP naquela época) Cinema Transcendental. Naquela época, um colega da revisão da Abril, o Zeca, todo chegado a papos-cabeça, babava-se pelo Caetano - vocês acreditam nisso, jovens? os universitários babavam pelo Caetano e não pelo vencedor do último reality. "O Caetano fez um tratado filosófico sobre o tempo", dizia o Zeca. E eu passei a prestar a maior atenção na música e, até hoje, quando a ouço, lembro da cena, do Zeca e concordo com ele. "Oração ao Tempo" é mesmo um tratado.
Depois foi o Chico, que começou a questionar a passagem do tempo em sua música. Foi fazer 50 anos e, pronto, começou a falar no retrato do artista quando moço, nas rugas pregadas no canto da boca como estranho sorriso, no amor que seguirá o outro apenas como encantado... Chico deu bandeira e sentiu mesmo que havia chegado àquela idade em que não há mais desculpas. Mas mostrou também que é uma idade em que há inúmeras possibilidades.
O problema do tempo - ou melhor, da nossa relação com o tempo - é que ele é o contrário de um sapato novo. O sapato alarga-se com o uso, amolda-se ao nosso pé, acompanha nosso caminhar. O tempo, não. Conforme passa, estreita-se, aperta cada vez mais, reduz-se. O tempo é o avesso do sapato.
Nossa necessidade de tempo torna-se mais urgente. E isso está se refletindo na arte em geral. Ou será o meu olhar que se liga agora nessas coisas? No filme "Meia Noite em Paris", a mais recente obra-prima do mestre Woody Allen, é a nostalgia por um tempo que não vivemos que move a história. O passado idealizado mostra-se mais confiável que o futuro potencialmente dececpionante. É em busca do tempo em que os ídolos se frequentavam em busca de inspiração para suas futuras obras que o escritor do filme caminha por Paris. E a gente acredita mesmo nisso, por várias razões: por que quer acreditar, primeiramente.
Segundo, por que cidades como Paris, Sevilha, Ouro Preto, Paraty, uns pedaços do Rio e São Luis do Maranhão, Lisboa, Recife, Istambul, Salvador e alguns lados especiais de São Paulo (sim, é a minha lista), esses lugares guardam secretas portas para o passado de glórias, dores, suspiros, amores, festas... Gostaríamos todos de encontrar a passagem na plataforma do trem em Londres, como qualquer Harry Potter. Nestas cidades, a gente caminha sempre à espreita de alguma figura dos tempos idos. E não estranharíamos entrar por uma porta e cair no meio da sala em que Manet pintava, Proust escrevia, e por aí em diante.
Não é a primeira vez que a capital da França desperta esses devaneios criativos. Em um filme russo de 1993, "Salada russa em Paris", personagens de uma Moscou caindo aos pedaços, sem comida nem energia, encontram uma porta mágica por onde chegam à Paris de hoje. É uma comédia ácida, deliciosa, que prova ser Paris a inspiração de todas as viagens pelo tempo. Mas ela não é a única.
Às vezes, o tempo escorre pelas veias de um quintal abandonado. É o tema da peça "O Jardim", do dramaturgo Leonardo Moreira, em cartaz no Sesc Belenzinho. A peça fala da passagem do tempo em uma família, sempre reunida no jardim da casa. É uma encenação criativa (mais criativa que o texto em si, aliás), que passa ao público a sensação de inevitável confronto com o tempo. São três cenas representadas ao mesmo tempo para três platéias e, conforme a peça acontece, você descobre o que aconteceu com cada personagem - ou o que aconteceu para eles agirem do jeito que agem.
Não chega a ser um recurso inédito. Em 1937, o inglês J. B. Priestley escreveu o drama "O Tempo e os Conways", em que o vaivém das cenas conta a história de uma família devastada pela dor. No terceiro ato, nosso choque vem de saber o que ocorreu com aquelas figuras cheias de esperanças e planos. O Grupo Tapa fez uma belíssima montagem dessa peça nos anos 80.
Sentiríamos choque semelhante se pudéssemos prever o futuro. Até o momento sabemos apenas que um dia tudo acaba. Mas, ao contrário das criaturas de Priestley, de Allen e do personagem de um conto de Machado de Assis, não jogamos a toalha, nem desistimos de viver, já que - segundo a figura de Machado - tudo é inútil. Pelo contrário, agimos e jogamos com vontade de vencer, mesmo quando o placar dá empate.
O tempo realmente nos absorve.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

É engraçado, mas é inteligente


Há cerca de um mês, cutucado por uma crítica imbecil publicada na Ilustrada a respeito da peça “Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza, em cartaz no Teatro Vivo, escrevi uma espécie de réplica, que acabou não sendo publicada. Com ligeira atualização, eis o artigo.

Numa sociedade em que o direito à felicidade é assunto do Supremo Tribunal Federal e na qual grupos organizados constroem canaletas politicamente corretas por onde acham que o humor deve seguir, não é de estranhar o comentário que uma mulher de meia-idade fez ao sair de uma sessão de “Vamos?”: “A gente ri muito, mas (a peça) é inteligente”, dizia ela em tom elogioso. Associar o riso à falta de discernimento não é culpa dessa mulher. Rir por simples prazer é visto como algo tão menosprezível que até ganhou uma expressão pejorativa: o “riso fácil”.

A expressão, bastante utilizada por críticos da programação cultural, tornou-se um chavão tão vulgar quanto chamar feijoada de suculenta. Atualmente, costuma colar-se a qualquer texto teatral que faça o público chorar de rir e, até, aplaudir em cena aberta. Concordo que há atores especialistas em puxar a cena para si, esquecendo o texto, os colegas e jogando para o público. Mas em nenhum momento o espectador reclama de dificuldades para rir.

Recentemente, a Ilustrada publicou uma crítica à montagem brasileira da peça “Deus da Carnificina”, da franco-argelina Yasmina Reza, na qual se dizia que a direção do espetáculo “consegue tornar prazeroso vermos atores de tamanho calibre se comportando mal no palco”. Para mim, isso é elogio: se o texto é bom, a direção é esperta e os atores, bacanas, por que eu não veria a peça? Entretanto, o título advertia para o efeito do “riso fácil”, como uma micose que tivesse consumido a pureza do texto.

O crítico rotula o efeito cômico de uma peça como sendo de “riso fácil”. Mas aí aparece um problema irônico: não existe riso difícil! Portanto, como um riso pode ser tachado de “fácil”? Fazer comédia é um trabalho complexo: além de a situação apresentada conduzir ao riso, as frases devem ter o número certo de sílabas para que o ritmo e a sonoridade das palavras provoquem uma sonora gargalhada. O ator com tempo cômico é aquele que sabe falar o texto, ao mesmo tempo que sente a respiração da plateia, fazendo as pausas no momento preciso, nem um segundo aquém ou além – acreditem, numa boa comédia nada é por acaso.

Qualquer profissional – autor, ator ou diretor – que leve a comédia a sério sabe que o riso só deve ser difícil para quem o produz, escrevendo ou atuando com rigor matemático. Para o espectador, a risada deve ser fácil e prazerosa – e se ela produz reflexão depois de apagadas as luzes do palco, melhor ainda. Acontece que nenhum dramaturgo do mundo real consegue determinar o pensamento do espectador. Da plateia, ele pode se identificar plenamente com o personagem de uma comédia rasgada ou passar o tempo todo pensando em pizza durante a montagem deslumbrante de qualquer texto denso.

Ao atribuir a uma comédia o carimbo de riso fácil, o crítico nega a quem ri o direito de raciocinar por conta própria. Parece que só mesmo a expressão circunspecta é que leva a alguma reflexão. Observar os homens inferiores – segundo a classificação aristotélica – pode, sim, nos ensinar muitas coisas. Mesmo o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), que não via lá muita profundidade na comédia, dedicou um livro inteiro ao tema, “O Riso”, e nele estabeleceu parâmetros muito interessantes de análise.

Um desses parâmetros mostra que sempre riremos bastante de personagens demasiadamente rígidos em suas convicções , por uma razão simples: a vida real exige de nós um constante jogo de cintura. Um personagem sem esse molejo é fatalmente cômico. Não seria esse o caso das criaturas apresentadas por Yasmine Reza em sua peça? Afinal, são representantes da classe média bem educada que se encontram para resolver, civilizadamente, o entrevero de seus filhos na escola. A reunião formal vai descambando em cenas até escatológicas e divertidíssimas.

Os pontos que mais incomodaram a “crítica” da Ilustrada, na montagem brasileira, eram também os que mais risadas provocavam na apresentação do mesmo texto em Paris, há cerca de 4 anos. A plateia vinha abaixo com as estripulias dos dois casais de classe média que se desmoronam diante do público – especialmente na cena em que a visitante vomita no livro da dona da casa ou quando ela joga o celular do marido no vaso de flores. Estrelada por Isabelle Huppert, a montagem foi dirigida pela própria autora, a quem dificilmente se poderá acusar de não ter entendido o texto.

Birrenta, a jornalista brasileira cismou que um ator – Orã Figueiredo – exagerava no apelo do riso frouxo da plateia. Enganou-se a pobre jornalista. Se há alguma diferença nas atuações daqui e da França, é no personagem Alain, vivivo por Paulo Betti. Em Paris, o ator que fazia o personagem era um escândalo, dominava o tempo cômico como poucos que já vi. A plateia se divertia a cada gesto dele. Vendo a apresentação em São Paulo, fiquei pensando porque Betti não arrancava a mesma intensidade de riso, embora esteja muito bem em cena. Foi triste entender: o personagem do advogado lobista, que defende um laboratório farmacêutico envolvido com um remédio de graves efeitos colaterais, na França, era realmente motivo de piada. Eles têm esse tipo de gente lá, claro. Mas o parisiense médio acha isso tão absurdo, que ri. Aqui, o tipo do lobista escroto é tão comum, está todo dia no noticiário, que ninguém na plateia do Teatro Vivo vê motivos especiais pra dar risada..

O linguista russo Mikahil Bakhtin (1895-1975), quando pesquisou as origens do riso medieval e renascentista na obra de François Rabelais, acabou por iluminar a pouco reconhecida história da comédia. Quando explica que o homem medieval ria de tudo que se referia à porção inferior do corpo – alimentação, metabolismo, sexo -, Bakhtin nos ajuda a entender por que até hoje plateias do mundo inteiro vão rir durante o desastrado vômito da visitante no livro de sua anfitriã, em “Deus da Carnificina”. Quebrar o mundo, virá-lo do avesso e chacoalhar a formalidade são atitudes que mais provocam o riso sempre que as vemos acontecer.

Talvez o “pecado” da comédia – em geral, não somente de “Deus da Carnificina”- seja tratar o mundo com a inclemência que ele merece. E também com uma absoluta e anticristã falta de modéstia. “Eu sou perfeito, os outros é que cometem as gafes, os vexames, que passam vergonha. São os outros os inferiores.” Talvez esteja aí a birra que os críticos alimentam contra os textos cômicos: provavelmente eles acham que o homem só respeita aquilo que inveja. Nada disso, senhores. Vergonha alheia também faz avançar a humanidade. Ou, pelo menos, deveria.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Um tapinha não doi


E eis que, de repente, um senhor de 80 anos sai pelo mundo e até estreia em cinema defendendo uma legislação mais moderna para o consumo de maconha. FHC - por quem nunca morri de amores, mas a quem eu dei meu primeiro voto, nos finais da década de 70 - é o principal nome do documentário brasileiro "Quebrando o Tabu", dirigido por Fernando Grostein Andrade, irmão do Luciano Hulk e, portanto, cunhado de Angélica. Todos no mesmo táxi.
Não me senti muito animado a ver o filme, mas fiquei pensando que esse Fernando Henrique é danado de esperto. Já faz algum tempo, o bom velhinho tem manifestado em entrevistas a saudade que tem do tempo em que fazia oposição e, pelo teor das mensagens, julga-se sério candidato a porta-voz dos contrários. Também acho que falta uma oposição que preste no Brasil. Até uns dias atrás, imprensa e classe média estavam em clima de lua de mel com Dilma Rousseff. É bom lembrar que até ser eleita, ela era apenas "aquela mulher", "eu não voto naquela mulher", etc. Virou Dilma, mostrou-se discreta, agradou os mais conservadores. Escorregou com a história do enriquecimento do Palocci e estatelou-se com a estrada desnecessária em cena do ex-presidente Lula. Agora, todo mundo é oposição - mas não do jeito que FHC imagina, ou seja, em torno dele. É uma oposição tão fisiológica quanto a situação de uma semana atrás.

O que me espantou na esperteza FHCiana é que ele agora tenta ocupar a vaga abandonada por todos os políticos, com a provável exceção do Fernando Gabeira: o de defensor de alguma coisa menos careta. Ainda soam nos ouvidos a gritaria em torno do aborto, que desviou as atenções da campanha eleitoral. Ou os brados retumbantes contra a lei anti-homofobia que ecoam na Câmara dos Deputados. Ao retrocesso mental e ideológico explicitado por Dilma, Serra, Jilberto, o Alcaide, e outros oportunistas interessados no voto dos evangélicos, FHC entrega-se ao papel de vovô bacana, aquele que entende perfeitamente quando o netinho aparece enrolando um beck no quintal de casa.

De todos os políticos, é justamente o imperial FHC quem acena para os jovens com uma flamulazinha menos conservadora. É claro que até agora ninguém perguntou por que ele não fez alguma coisa nesse sentido durante os 8 anos de seu governo. Ou por que o governador de São Paulo, também do PSDB, optou em descer o sarrafo nos manifestantes da Marcha da Maconha, recentemente. Seja como for, FHC - a quem continuo dando o mesmo valor de antes - entra dando cutucadas em Dilma, Serra (um antitabagista de babar na gravata), Alckmin e Jilberto, o Alcaide. E ainda sobra umas espetadas em José Sarney, vencedor inconteste da calhordice ao declarar que o impeachment de um presidente foi um acidente na história do Senado brasileiro. Não deixa de ser coerente: alguém que pensa assim só pode mesmo praticar a política que conhecemos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A verdadeira tropa da elite



Saber que uma associação de moradores de Higienópolis manifestou-se contra uma estação do metrô na Avenida Angélica seria algo absolutamente normal numa sociedade democrática. Nesta cidade convivem palmeirenses, corintianos, santistas e até torcedores da Portuguesa. Gays desfilam de mãos dadas pela mesma Paulista em que homofóbicos dão as caras e, muitas vezes, agridem quem está em volta. Mulher de gravata e homem de saia, madame e faxineira, noiado e alérgico a perfume, esta cidade vê de tudo - por que não veria uma associação que se pretende isolada do que chamaram, poeticamente, de gente diferenciada? É outra maneira de nomear pobre-feio-mendigo-nordestino-preto-bicha e todas as ramificações nascidas do cruzamento dessas categorias. Uma bicha preta sergipana, esteticamente bastante prejudicada e sem CEP pra chamar de seu tá ferrada. Nem na calçada pisa.
O que marcou a manifestação dessa entidade - mais pra pomba gira que pra preto véio - foi a pronta aceitação que o governo estadual deu aos queixumes. "Ah, não querem estação ali? Então tá." Como se construir uma complexa malha de transporte público fosse algo tão simples quanto mudar o sofá de lugar na sala. Sobre tudo isso já se falou, houve churrascada na Angélica e o porta-voz da entidade (eh eh zifio) veio a público queixar-se de bullying. É muito bafafá pra pouco tititi.
A primeira coisa que chama a atenção nesse passo em falso do governo é que qualquer projeto apresentado, idealizado, bolado, lançado, rascunhado pelo governo anterior será imediatamente apagado dos anais da história, pouco importa sua importância para camadas expressivas de paulistas. As aulas de inglês reforçadas foram pro beleléu, porque lançadas pela gestão anterior. Com o metrô não seria diferente. No Brasil, estamos habituados a isso, ao arrasa-quarteirão de todo novo governo, botando por terra o que os anteriores fizeram. Inédito no caso é que há 20 anos é o mesmo partido que "governa" São Paulo. Em tese - e esse povo adora uma tese acadêmica - seriam todos irmãos, interessados em permanecer no poder (a regra da alternância só vale para os outros partidos).
Além de se confundir com essa quizumba interna, o usuário do metrô paga o pato também pra deixar de ser besta e ter algum dinheiro. Coisa mais desagradável é essa mania de querer transporte público decente - mesmo que o preço das passagens seja de primeiro mundo. Mancomunado com seu inimigo íntimo - o sempre lembrado e nunca suficientemente lamentado, Jilberto, o Alcaide - o atual governo estadual dá verdadeiras aulas de menosprezo a quem precisa de ônibus e metrô.
Enquanto foi limitado a uma linha entre Santana e Jabaquara, o nosso metrô era motivo de orgulho paulistano. O "nosso" metrô era mais moderno que o de Paris, mais novo que o de Nova York, mais bacana que qualquer outro. Bastou algum demagogo estender um tantinho mais as linhas e danou-se. Um bando de pobre começou a se apertar nos vagões, apresentando espetáculos deprimentes a cada vez que vai ou volta do trabalho. O metrô deixou de ser "nosso" e passou a ser "deles", os diferenciados. Pra que gastar dinheiro com eles? É de admirar que as estações e trens ainda mantenham um grau de limpeza decente...
Não é apenas a polêmica da estação Angélica que me leva a pensar nisso. É o dia a dia. Eu poderia, por exemplo, sair de minha casa e ir até o Sesc Pinheiros de metrô: a estação Trianon-Masp fica a 5 minutos deste computador e a Faria Lima a dois passos do Sesc. Dispensaria o carro, economizaria o estacionamento... mas não dá, porque, embora inaugurada há vários anos, a tal estação continua em fase de teste, fechando às 15 horas. Dei um exemplo até fútil, mas pense em quantos trabalhadores dependeriam desta estação. Quantos outros vão depender da hoje inaugurada estação Pinheiros, pertinho da Faria Lima. O horário continua esdrúxulo. A estação é inaugurada sem banheiro nem outras "mordomias" que esse povo agora deu pra querer, do tipo celular funcionando. E não se sabe quando a situação será regularizada. Quando o paulistano terá um metrô que atenda, ao menos parcialmente, sua necessidade de locomoção?
É tudo ligado. O horror da associação de Higienópolis aos pobres, o descaso do governo estadual ao usuário de um sistema moderno de transporte e até o desdém com que ele, Jilberto, o Alcaide, trata o trânsito da cidade que deveria administrar - para quem não sabe, Jilberto só usa helicóptero para ir de sua casa, nos Jardins, à prefeitura, no centro. Evita engarrafamentos, buracos, contato com pobres... Ele, que deveria ser o primeiro a ver os buracos do asfalto... Não é de admirar que o pessoal não queira metrô na Angélica. O exemplo vem de cima.