
Meus combalidos neurônios viveram um domingo de montanha russa... Uma linda exposição de gravuras do Oswaldo Goeldi na galeria da CEF na Paulista... No começo da noite, uma ótima peça: "Cloaca", com o grupo Tapa, no Shopping Frei Caneca (na foto, o afinadíssimo elenco: Dalton Vigh, Brian Penido Ross, André Garolli e Tony Giusti). Antes de dormir, juntei-me à massa que deu um recorde de ibope ao final de "A Fazenda". Foi ou não foi uma montanha-russa intelectual?
Por acaso, os programas tiveram algo em comum: o Homem. Na exposição de Goeldi, que viveu entre 1895 e 1961, chama a atenção a forma como o gravurista registrou a solidão que marcou sua vida. As figuras que aparecem em suas obras, lindas obras, são quase sempre solitárias, flagradas à noite, no desvio... Não há casais em encontros amorosos, nem suspiros românticos. Há ladrões, pescadores, bêbados e putas, todos solitários, mesmo quando em grupo. Goeldi, que viveu e morreu sozinho, deixou uma obra marcante e que merece ser vista na pequena galeria do Conjunto Nacional. Melhor ainda, é de graça. E apesar do tema, não é depressivo: é a arte a serviço de um sentimento possível.
No teatro Nair Bello, "Cloaca", primeira peça da holandesa Maria Gloos encenada no Brasil, coloca em cena quatro amigos quarentões: um funcionário público gay, um advogado cocainômano, um político do baixo clero e um diretor de teatro pretensioso. O político, com olhos numa indicação para o ministério, rompe o casamento e se refugia na casa do amigo gay - que tirou do acervo da prefeitura oito telas de um pintor pouco conhecido, cujo trabalho ganha uma super-valorização inesperada. Acuado, o rapaz pede a ajuda do advogado viciado, um surtado total, dado a ataques de agressividade. O político tem medo que a história vaze e prejudique sua indicação para o ministério, já que ele está hospedado na casa do funcionário ladrão. Para piorar a situação, o diretor de teatro vem anunciar a estréia de sua próxima peça de vanguarda, estrelada pela filha adolescente (e nua) do político, com quem ele vem tendo um affair.
Os quatro homens em cena falam pelos cotovelos, numa visão bastante feminina do que é um homem. Maria Gloos, no entanto, escapa da armadilha de considerar seus meninos um bando de porcos machistas, que oprimem mulheres e passam por cima de qualquer gentileza. Os personagens de "Cloaca" estão em pânico: já não são meninos, insistem em gritar a senha do clubinho (a tal Cloaca - uma palavra latina, que define um órgão ligado a excrementos) e, na única vez em que aparece uma mulher em cena, eles não se entendem por uma razão bastante prática: ela é russa e só fala russo. O público sabe o que ela está falando, mas o homem diante dela, não. É uma linda cena, em que os dois se expõem, não se acusam, pedem ajuda - mas é tudo inútil.
Por fim, acabei a noite vendo Dado Dollabela ganhar 1 milhão de reais na grande final do reality show "A Fazenda". À parte o fato que qualquer reality show, pra mim, é dirigido a Q.I.s de ameba com soluço, este de ontem teve um detalhe curioso. Quase no fim do programa, esticado até a exaustão por Brito Júnior, Dado saiu da casa e encontrou a família que o esperava, após 84 dias de confinamento: a mãe, o padrasto, dois irmãos e a namorada, grávida de seu primeiro filho. Adivinhem quem ele abraçou e beijou primeiro. A mãe. Como exemplo de amor filial, é lindo. Mas como exemplo de Homem... sinceramente, é esquisito.
O cara cresce e, teoricamente, abre as asas para construir seu próprio lar - com mulher, homem, cacatua ou formiga, tanto faz. Somos criados para, a partir do nosso ninho, criar outro. Quando Pepita Rodrigues tomou a frente da mulher de Dado, mandou o recado em rede nacional: "Nem se atreva a tomar meu menino, sua... Você está apenas esperando o filho dele." A moça grávida foi a quinta pessoa a ser abraçada por ele - até a babá dele foi abraçada antes. É lindo, é comovente, mas caramba... era o filho dele, o primeiro, ali. Dá pra entender porque o caso de Dado e Luana Piovani não deu certo: precisa ser uma mulher muito maleável pra enfrentar uma sogra tão super-poderosa, que conta com o apoio incondicional do filho mimado.
Esses homens de hoje... não sei... Os mais velhos estão assustados com a curva descendente. Os mais novos se recusam a crescer. E os velhos, que viraram do século 19 pro 20, deixaram de herança uma melancolia braba...




