
Preparem o carbono 14. No começo dos anos 80, Jô Soares ainda não se achava mais inteligente que seus entrevistados e fazia alguns ótimos programas de humor. Um de seus melhores quadros foi o do general que entrou em coma no dia 1.º de abril de 1964 e só voltou à consciência durante o período da abertura política. Suas cenas eram sempre no hospital, com ele recebendo o soro que o mantinha lúcido. O cara levava um choque a cada programa, quando contavam de quem era situação em 64 e tinha virado líder da oposição, etc. A cada surpresa, ele chorava: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!” O bordão virou um sucesso.
Atualmente, cada vez que leio a primeira página do jornal sinto uma devastadora vontade de gritar “tira o tubo!”. Mas gritar pra quem? Pra onde o ceguinho corre na hora do tiroteio? Os escândalos se sucedem com a velocidade de um seriado de aventuras – e daqueles com produção de quinta (atores péssimos, elenco feio, uma desgraceira só). A coisa chegou a tal ponto que o maior perigo, hoje, é nosso corpo deixar de produzir o hormônio da indignação. A anestesia moral nos ronda. Isso é apavorante.
Câmara dos Deputados e Senado Federal entraram num racha de devassos: competem para ver qual entidade produz mais pouca vergonha às custas do dinheiro público. Depois de decidir que podem viajar pra cima e pra baixo com nossa grana, os políticos acobertam uma série de “atos secretos”, nome educado para uma calhordice sem tamanho. Em vez de cobrar um mínimo de decência, o presidente do Senado, José Sarney, sobe à tribuna para chorar as pitangas e se dizer injustiçado, perseguido, caluniado – mas resolver o problema, que é o mínimo que se espera, nada.
Com isso, já teríamos assunto suficiente para chamar mais uma cerveja indignada. Mas lá do Cazaquistão – um daqueles lugares que ninguém encontrava nas partidas de War – o presidente Lula mete sua colher no angu e acaba de enfeiar o que já não era bonito. Dizer que ninguém pode falar de Sarney... pessoa comum... Enfim, quem lê o noticiário sabe do que estou falando. É doloroso ver a que ponto desce um político de passado combativo. Nada justifica, nem mesmo as negociações escusas pra se manter no poder a qualquer custo.
É de tirar o tubo de qualquer um. Em outra página do jornal, políticos do PT flertam com Orestes Quércia, oferecendo a ele uma cadeira de senador, com a promessa de 4 milhões de votos garantidos. Quatro milhões de quem, cara pálida? O meu voto, o Quércia não leva. Pra senador do PT, eu sempre votei no Suplicy, mas até ele saiu chamuscado com a farra das passagens aéreas. Flertar com Quércia, notório freqüentador das listas de políticos com enriquecimento estranho, equivale a pegar todos os panfletos, brochinhos, faixas, bandeiras e passeatas do glorioso passado petista e jogar na caçamba do lixo reciclável – quem sabe, dê pra fazer alguma coisa que preste com esse entulho democrático.
Numa terra que prima pelo império das leis – não pode fumar, não pode beber, não pode fazer festa na Paulista – chega a ser comovente o cinismo aviltante dos políticos. Ou você não tem vontade de sentar no meio-fio e chorar feito criança que se perdeu da mãe na feira? No mesmo país em que o seu suado imposto de renda ajuda a governadora Roseana Sarney a pagar seu mordomo em Brasília, um político de Brasília apresenta projeto obrigando teatros a exibir legendas para surdos – teatro com legenda, vocês leram bem – sem especificar de que bolso sairia o dinheiro para tal benemerência. A cada mês surge alguém com uma nova taxa, um impostinho aqui, uma obrigaçãozinha ali... E a nosso favor, nada.
Com o que contam os protagonistas dessa patética comédia de erros? Com a nossa pouca memória, fundamental para suas constantes reeleições? Com a nossa falta de vontade de esperar por eles ‘lá fora’ e descer o merecido cacete? Que reação, enfim, será necessária para que eles parem de se lixar para a opinião pública? Aquele deputado, coitado, foi o único sincero – os outros também se lixam, mas não abrem a boca.
Do início da abertura pra cá, passaram-se 30 anos... Tempo em que muita coisa mudou – mas algumas permaneceram tristemente as mesmas. Ainda dá pra rir de quem grita “Me tira o tubo!”. Mas, antes, nós ríamos do general recém-saído do coma. Agora, são os políticos que ouvem nossos gemidos na enfermaria da moralidade pública – e riem da nossa cara.
Atualmente, cada vez que leio a primeira página do jornal sinto uma devastadora vontade de gritar “tira o tubo!”. Mas gritar pra quem? Pra onde o ceguinho corre na hora do tiroteio? Os escândalos se sucedem com a velocidade de um seriado de aventuras – e daqueles com produção de quinta (atores péssimos, elenco feio, uma desgraceira só). A coisa chegou a tal ponto que o maior perigo, hoje, é nosso corpo deixar de produzir o hormônio da indignação. A anestesia moral nos ronda. Isso é apavorante.
Câmara dos Deputados e Senado Federal entraram num racha de devassos: competem para ver qual entidade produz mais pouca vergonha às custas do dinheiro público. Depois de decidir que podem viajar pra cima e pra baixo com nossa grana, os políticos acobertam uma série de “atos secretos”, nome educado para uma calhordice sem tamanho. Em vez de cobrar um mínimo de decência, o presidente do Senado, José Sarney, sobe à tribuna para chorar as pitangas e se dizer injustiçado, perseguido, caluniado – mas resolver o problema, que é o mínimo que se espera, nada.
Com isso, já teríamos assunto suficiente para chamar mais uma cerveja indignada. Mas lá do Cazaquistão – um daqueles lugares que ninguém encontrava nas partidas de War – o presidente Lula mete sua colher no angu e acaba de enfeiar o que já não era bonito. Dizer que ninguém pode falar de Sarney... pessoa comum... Enfim, quem lê o noticiário sabe do que estou falando. É doloroso ver a que ponto desce um político de passado combativo. Nada justifica, nem mesmo as negociações escusas pra se manter no poder a qualquer custo.
É de tirar o tubo de qualquer um. Em outra página do jornal, políticos do PT flertam com Orestes Quércia, oferecendo a ele uma cadeira de senador, com a promessa de 4 milhões de votos garantidos. Quatro milhões de quem, cara pálida? O meu voto, o Quércia não leva. Pra senador do PT, eu sempre votei no Suplicy, mas até ele saiu chamuscado com a farra das passagens aéreas. Flertar com Quércia, notório freqüentador das listas de políticos com enriquecimento estranho, equivale a pegar todos os panfletos, brochinhos, faixas, bandeiras e passeatas do glorioso passado petista e jogar na caçamba do lixo reciclável – quem sabe, dê pra fazer alguma coisa que preste com esse entulho democrático.
Numa terra que prima pelo império das leis – não pode fumar, não pode beber, não pode fazer festa na Paulista – chega a ser comovente o cinismo aviltante dos políticos. Ou você não tem vontade de sentar no meio-fio e chorar feito criança que se perdeu da mãe na feira? No mesmo país em que o seu suado imposto de renda ajuda a governadora Roseana Sarney a pagar seu mordomo em Brasília, um político de Brasília apresenta projeto obrigando teatros a exibir legendas para surdos – teatro com legenda, vocês leram bem – sem especificar de que bolso sairia o dinheiro para tal benemerência. A cada mês surge alguém com uma nova taxa, um impostinho aqui, uma obrigaçãozinha ali... E a nosso favor, nada.
Com o que contam os protagonistas dessa patética comédia de erros? Com a nossa pouca memória, fundamental para suas constantes reeleições? Com a nossa falta de vontade de esperar por eles ‘lá fora’ e descer o merecido cacete? Que reação, enfim, será necessária para que eles parem de se lixar para a opinião pública? Aquele deputado, coitado, foi o único sincero – os outros também se lixam, mas não abrem a boca.
Do início da abertura pra cá, passaram-se 30 anos... Tempo em que muita coisa mudou – mas algumas permaneceram tristemente as mesmas. Ainda dá pra rir de quem grita “Me tira o tubo!”. Mas, antes, nós ríamos do general recém-saído do coma. Agora, são os políticos que ouvem nossos gemidos na enfermaria da moralidade pública – e riem da nossa cara.



