sábado, 11 de abril de 2009

O Espírito da Páscoa


Hoje não tem coelhinho. Nem ovo. Nem nada pascal desse tanto. Tem um São Pedro, pintado por um pintor português do século 17 ou 18, chamado Grão Vasco. Antes de virar rótulo de vinho, e dos bons, Grão Vasco foi um pintor de temas religiosos. Seus quadros podem ser apreciados com deleite no Museu Grão Vasco, em Viseu. A cidade fica a uma hora e pouco de Coimbra e tem uma linda cor de pedra, toda ela.


Páscoa. Eu acredito em muita coisa. Menos em coelhinho da Páscoa. Desde pequeno. Talvez por não ser tão fã de chocolate. Ou de coelho. Sei lá.


Mas acho legal Páscoa. Talvez porque seja uma festa três dias depois daquela sangreira toda da Sexta-feira Santa. A Sexta da Paixão. Demorei anos pra entender onde entrava a Paixão no meio de tanta maldade. E até hoje tenho dúvidas se entendi mesmo.


Semana Santa me lembra infância. Histórias da infância. Me lembra eu adorar ser criança, porque estava livre do jejum. Minha família - pais, tios, avós - adoravam dizer que faziam jejum na Semana Santa. Ou num dia dela, já não lembro. Jejuavam e guardavam o apetite para o bacalhau do domingo. Mas a criançada podia comer à vontade. Eu nunca queria crescer.


Minha mãe adorava contar do pai dela, que tinha uma vendinha lá no interior de Pernambuco. "Na semana santa, ele não aceitava dinheiro. Só tomava nota das despesas e cobrava depois. Dinheiro na Semana Santa era pecado".


A Semana Santa mudou muito. "Seu" Zé Cândido - meu avô - estranharia. Mas como era de paz, daria de ombros, abriria sua cerveja sem gelo e cuidaria dos fogos de artifício pra festa da padroeira. Avô fogueteiro. Vê se pode.


P.S. BACANA: acabo de conhecer um blog muito divertido: http:/desilusoesperdidas.blogspot.com
É um blog sobre jornalismo. Inteligente, porque bem humorado. Toca em alguns pontos G da profissão - como quem é o tipo mais chato de se entrevistar. Eu queria responder mas fiquei na dúvida entre arquiteto, militante ecológico ou artista plástico explicando a própria obra. Deu empate técnico.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Aplausos roubados


A notícia da morte do ator Francarlos Reis, ontem, demorou algumas horas pra chegar aos sites dos jornais. Demorou bastante mesmo. Eu até pensei que se fosse a morte de um figurante que ficou na lista de espera pra entrar no forno da Lista de Schindler, do Spielberg, a notícia teria sido mais rápida. Talvez. Não sei.

Só percebi que um ator que dedicou sua vida ao teatro conseguiu espaço bacana no Caderno 2, mas não chegou a tempo de ocupar uma notinha que fosse na Ilustrada. Saiu algo na Mônica Bérgamo, sim, mas uma nota certamente divulgada pela assessoria do espetáculo "A Noviça Rebelde", informando que o show não pode mesmo parar e que outro ator já estava escalado para a substituição. O tema da nota não era a morte. Houve mesmo espaço pra contar que uma das atrizes da peça prepara um livro sobre técnicas de canto...

Francarlos fez muito teatro - e nos últimos anos vinha conseguindo com regularidade aquilo que todo ator secretamente sonha: um caloroso aplauso em cena aberta, por justo merecimento. Suas intervenções em "My fair lady" eram deliciosas. Disseram que também roubava a cena em "A Noviça Rebelde". Em "A Cabra", era o amigo fofoqueiro do protagonista. Não chegava a brilhar em cena, mas a força da peça é mesmo o texto primoroso de Edward Albee. Ele dividia o palco com José Wilker, Denise del Vecchio e Gustavo Machado, como se vê na foto.

Não éramos amigos. Mas nos conhecíamos, nos cumprimentávamos, trocávamos uma frase aqui, outra ali. Ele fez minha peça "Galeria Metrópole", substituindo o ator Fernando Neves no papel de Nenzinho, a bicha fantasma ainda apaixonada pelo personagem do Rubens de Falco. Fernandinho dava um tom divertido e patético, Francarlos acrescentou uma amargura - ah, eu gosto disso em teatro! Francarlos entrou na peça por amizade ao Rubens e ao Zé Renato, que dirigia o projeto (a peça era dirigida pelo Paulinho Capovilla) e certamente não ganhou o suficiente para pagar o táxi. Mas fez com carinho, com dedicação. Um dia, no Luna di Capri (claro), ele me parou e perguntou se eu não topava escrever um pequeno monólogo. Era pra se juntar a outros pequenos monólogos de autores contemporâneos, espetáculo pra ser feito pelo prazer de atuar - ele já tinha feito algo assim, com o Bortolotto e outros autores. Topei - mas não escrevi nada, nem ele me cobrou. Os musicais conquistaram o ator.

No jornal hoje, li que ele fez uma novela. "Venha ver o sol na estrada", na Record, em 1973. Parece que foi sua única experiência no gênero. Engraçado, porque essa novela de título hippie foi também a experiência única da autora, a dramaturga Leilah Assumpção, e - salvo engano - do diretor Antunes Filho. Imaginem o público, então...

Francarlos ficará mesmo nas coxias dos teatros e nas conversas dos restaurantes onde a classe artística divide um prato na madrugada. Os aplausos roubados, ele os levou na memória.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A carne das palavras

Ando cismado, desde que começaram a divulgar o espetáculo "Por um fio", que estreou semana passada no Teatro Sesc Anchieta. Estrelada por Regina Braga e Rodolfo Vaz, a peça é a transcrição cênica, palavra por palavra, de alguns contos do livro escrito pelo médico Drauzio Varella. A falta de tempo me impediu de ver até agora o que deve ser um bom espetáculo - Regina e Rodolfo são atores que extraem emoção até de manual de instrução de aparelho eletrônico e Drauzio Varella tem um olhar sensível sobre o ser humano. Mas confesso que não sinto um frisson incontrolável de ir ao teatro para 'ouvir' um livro. Podem chamar de cafona, antigo, old fashion - mas livro eu gosto de ler eu mesmo.
Moacir Chaves, o diretor de "Por um fio", já fez outros espetáculos no mesmo molde. Lembro de "Sermão da quarta-feira de cinzas", de Padre Antonio Vieira. O ator Pedro Paulo Rangel arrasava com o texto do século 17. Tempos depois, o diretor Aderbal Freire-Filho montou "O que diz Moleiro" e fez de um romance português que ninguém tinha lido um dos maiores sucessos teatrais da primeira década deste século. Era um espetáculo bonito, mas eu não saí uivando do teatro, não. A peça tinha barriga - e não era barriga tanquinho, não, era pânceps mesmo. Animado pelo sucesso, Aderbal fez "O púcaro búlgaro", encenando o romance do Campos de Carvalho, eu já tinha desistido. Repetindo, livro eu leio.
Não é gratuita a ranhetice. É mais um respeito pela Palavra, assim mesmo, com maiúscula. Existe um mecanismo secreto no ritmo das frases, algo que as destina para serem lidas ou ouvidas. Isso não é regra universal, obviamente, mas eu penso assim. A Palavra, quando é para ser desfrutada em livros, ela respira de outra maneira, ela se articula com as outras de outra forma, ela cria um hábitat próprio.
A Palavra do teatro tem outra carne. Ela sua, é suja, ela desliza da boca dos atores para nossos ouvidos, inventa novos universos e nos faz enxergar e imaginar a vida de outra forma. A Palavra do teatro depende do ator para lhe soprar a Vida esboçada pelo dramaturgo. Os textos de Shakespeare e de Nelson Rodrigues, por exemplo, são um primor, quando lidos. Mas atingem o céu quando bem encenados. É nessa hora que eles cumprem sua missão.
No documentário "Palavra (en)cantada", Chico Buarque dá um exemplo prático disso. Contrário à idéia de que ótimos letristas sejam poetas, Chico lê uma letra escrita por ele e considerada pela audiência como "uma poesia!". Ele lê e vai comentando... "Essa palavra... o poema não pede, mas a canção pede, por isso a palavra tá aqui".
Eu, que já virei parceiro de Mário de Andrade, Rabelais, Robert Louis Stevenson e Murilo Rubião, entre outros, não vejo problema algum em fazer e assistir boas adaptações de contos e romances para o palco ou as telas. Mas a alma das adaptações pode ser tema de outro post. Este aqui quer apenas falar isso: livro na íntegra, ok, mas por escrito. Audiolivro é útil para deficiente visual, quantos mais houver, melhor (os audiolivros, não os cegos).
A Simples Transcrição Cênica pode render lindos e honestos espetáculos - mas Dramaturgia não é, não.

sábado, 4 de abril de 2009

A culpa é da Marisa

-- O senhor sabe por que prenderam a dona da Daslu?

Eu, que leio jornais e sigo o noticiário, sempre imaginei que sabia a resposta. Mas o tom do taxista indicava que eu estava enganado...

-- Foi a dona Marisa.

Opa, como assim? A primeira dama?

-- A dona Marisa foi lá e não atenderam do jeito que ela queria. Ela mandou o exército lá.

É surpreendente a imaginação popular. Quem escreve para teatro, tevê, cinema precisa comer muito arroz-com-feijão até chegar na inesgotável capacidade que o povo tem pra inventar. Mas reconheço que o taxista que me levava à Praça Roosevelt na sexta-feira atingiu um ponto alto.

O cara chegou a dizer que a Eliane Tranchesi era uma coitada, uma vítima das maquinações ardilosas de uma primeira dama que nunca fala. E isso também era motivo pra crítica. "A mulher não faz nada. Devia fazer umas benfeitorias, ajudar os pobres". E ele acompanhava o raciocínio de alguns termos pouco abonadores quando aplicados a primeiras-damas.

E não havia uma palavra sequer sobre a farra do boi gordo que era o convívio da Daslu com as notas fiscais. Era como se sonegar, falcatruar, trambicar, se tudo isso fosse absolutamente perdoável- já que a culpa era da dona Marisa...

Eu só tive de concordar com ele numa coisa. "Você já ouviu aquela mulher falando? sabe como é a voz dela?" Não. Eu não lembro...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Control C, Control V

Faço minhas, todas, as palavras de Luis Fernando Verissimo no Caderno 2 de hoje.

"Ainda não li e já gostei do novo livro do Chico. Gostei até do título 'Leite Derramado'. Acho que quando a nossa geração tiver que fazer um balanço dos seus merecimentos e misérias para ser julgada, poderemos todos usar esta credencial: fomos contemporâneos do Chico Buarque. E exigir tratamento especial".

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Gilberto, o atônito

Não deve estar fácil para o prefeito Gilberto Kassab fazer a leitura matinal dos jornais. Nos últimos 10 dias, a chamada grande imprensa descobriu que a administração da cidade anda caótica. Todo santo dia, basta olhar a primeira página de Folha ou Estadão e lá vem: merenda, nova luz, promessas não cumpridas... De uma hora pra outra, acabou-se o que era doce.

Durante esses últimos tempos - especialmente quando interessava louvar Kassab para derrotar Marta ou Alckmin - o prefeito era o ai-jesus dos cadernos de Cidade. Chamavam-no de solteirão cobiçado e até, meu deus, de bonitão. É bom o Kassab - de quem não gosto, em quem não votei - tomar cuidado com uma das coisas que ele mais preserva - sua vida pessoal. Quando esse povo resolve fritar alguém... não há limites morais.

Acontece que os jornais e revistas, em sua maioria, começaram já a campanha eleitoral. Pra prefeito, por exemplo, vão começar a vender a imagem de Andrea Matarazzo como "o" homem. A.M. é mesmo homem - de Serra. Está lá por determinação do governador, este um eterno queridinho dos jornalistas que comandam as grandes redações. Serra e Matarazzo têm passe livre na maioria, determinam pautas, ódios e amores. É um direito dos jornais terem seus candidatos, mas a coisa ficaria mais bacana se fosse assumida, explícita. O chato é a mal costurada fantasia de espaço democrático.

Pausa reflexiva. Sou do tempo em que jornalista e petista era mais que rima, era acusação. Mudaram os tempos. Já trabalhei até com jovem repórter malufista.

Mas, continuando. Daqui a pouco tempo a gestão Kassab, de tão útil passado, será totalmente desinteressante. Por isso, podem reparar, já começaram a descobrir seus defeitos. O mais triste é que a maior parte das denúncias é verdadeira mesmo. Pobre cidade minha.

A santinha fez sua parte

Pois é. Não foi ontem... Quem levou o prêmio de autor de texto adaptado foi o Angelo Brandini, "Doutor Dodói". Eu sabia que, se perdesse, seria pra gente boa. "O Médico e os Monstros" levou o troféu de melhor ator coadjuvante pro Fábio Espósito, o Xepa. Merecidíssimo. O Xepa arrasava de Poole, o Mordomo. As pessoas saíam do Sesi repetindo o bordão que ele criou com o "excuse me". Teve dia de ele ser aplaudido em cena aberta.

Mas a Oração pra Santa Kate é forte, recomendo. Funcionou. Na hora que anunciaram o Angelo, só pensei: "É, não deu". E aplaudi sem fazer cara de Mickey Rourke. Abri mais uma cerveja Sol (talvez, nessa hora eu fiquei rourkiano, mas foi breve) e curti a festa e os amigos, que agora tenho visto pouco. Carol Badra e sua Regina (ainda embutida, mas dentro de 15 dias nos melhores berçários da cidade), Keilinha, Domingos, Fernando, a raça toda.
E a turma do "Cidadania" - Leo, Tuna, Soledad e o Fabio Lucino, que ganhou melhor ator.
E a Missura, melhor atriz, linda, de preto. A Lavínia Pannunzio entregando prêmio disfarçada de Marilyn Monroe... Gente, a mina tá loira-loira. Rosi Campos também esteve lá, falamos de "Ifigônia". Aguardem...

Agora, o meu mundo pertence ao Tony Castellamare e sua gangue. "Poder Paralelo", do Lauro Cesar Muniz, estréia dia 14. A coisa promete. As chamadas que estão no ar são de primeira qualidade.

Ah, quem não viu, veja: "Natureza Morta" termina dia 11. Nos Satyros 1, sexta e sábado, meia noite. Anna Cecília Junqueira em estado de graça.

Hoje, como viram, o post foi institucional.
Em breve, volto a lançar meus olhares loiros pela cidade.