terça-feira, 18 de junho de 2013

O Silêncio no Andar de Cima


            O vento sopra nos palácios. Pelos corredores vazios, tufos de grama seca deslizam fantasmagóricos. Aturdida, a primeira dama - de robe cor-de-rosa, rolinhos e pantufas combinando - arregala os olhos em direção ao marido. O homem da casa, a bordo de um pijama de monograma bordado no bolso, fala para a mulher não acender a luz. "Deixa eles pensarem que nós estamos dormindo. Ou que não tem ninguém em casa." Ela, a ingênua, ainda pergunta: "Você não vai falar com eles?". Ele, veloz: "Tá louca? Deixa assim. Eles cansam e vão embora."
            Deve ser mais ou menos essa, com pequenas variações, as cenas nos endereços do poder brasileiro nesses últimos dias. A rua se manifesta em altos brados e o Poder se faz de morto. Finge que não escutou. Ou, pior ainda, olha com desdém esses "arroubos juvenis". Há realmente uma técnica de deixar a turba acalmar e tudo voltar ao de antes no quartel do Abrantes. Quase sempre funciona, mas o diabo é que às vezes, não. É preciso ficar de olho.
            Líderes carismáticos não surgem da noite para o dia. Getúlio, Jânio, Maluf, Covas, FHC, Lula. Gostemos ou não desses homens, eles sabiam e sabem cativar seus seguidores. Têm "o dom". Agora, passemos em revista os atuais chefes da tribo - puxando o foco para São Paulo: Dilma, Alckmin e Haddad são herdeiros de figuras de tanta personalidade que a eles sobrou pouco para apresentar.
            Geraldo ainda tem uma experienciazinha maior, há tantos anos no poder. Mas não é por acaso que ganhou o apelido que colou feito tatuagem: Picolé de Chuchu. Dilma e Haddad parecem seguir à risca os conselhos de Lula. Acontece que os silêncios de Lula, devido à trajetória pessoal dele, sempre tiveram mais eloquência do que os silêncios de Dilma e Haddad.
            Nem a presidente nem o prefeito de São Paulo, muito menos o governador, são líderes natos. A falta de postura, a consciência de quem não sabe o que fazer quando a coisa aperta, aparece nessas horas. No começo do mandato, Dilma ainda tentou mostrar-se a "tia" que dá bronca, que não tolera funcionário esculachado, etc. Foi sua lua-de-mel com eleitores cansados do presidente que sacudia a cabeça a cada travessura de seus meninos.
            Acontece que os meninos agora são outros. Vêm das ruas, saíram dos becos e tomaram conta das praças. Começaram reclamando do aumento das passagens de ônibus e levaram como troco os esperados olhares de desdém do andar de cima. A moçada insistiu e o pessoal lá de riba mandou a polícia sentar o pau. Foi o que faltava para que gente que sorria dos "meninos sonhadores" também decidisse ir às ruas.
            A turma dos coroas que foi à rua levou um susto. "Falta liderança", "não existe uma causa específica"... É, amigos, a revolução está chegando e eu não sei o que vestir (título de uma peça de teatro italiana, dos anos 80) - mas é preciso saber ler as novas passeatas surgidas à luz das redes sociais. Nos anos 80, todos vestimos amarelo e fomos reivindicar diretas-já. Pintamos o rosto e fomos exigir a queda de Collor. Eram outros tempos, outros manifestos.
            A falta de uma causa única, devemos agradecer e colocar na conta da Democracia pela qual tanto brigamos. A juventude que está gritando por aí não é uma, é várias. Ou são várias. Cada passeata não quer apenas a redução da tarifa de ônibus, mas exige também a não aprovação da PEC-37, reivindica mais cota pra concursos públicos, defende o aborto e o casamento gay, quer o fim da poluição e o impeachment de todo mundo que está aí. É assim mesmo, uma variedade grande de objetivos (e pra nós, que estamos chegando agora nessas paradas, é bom ficar atento e não ser fotografado ao lado de uma faixa que defende tudo aquilo que você mais abomina).
            Isolados, cada um desses grupos não tem força para atrair muita gente. Unidos numa só passeata, eles atraem mais gente, se sentem mais protegidos e voltam pra casa crentes que, agora sim, o mundo muda. É por isso que não há liderança única. São vários líderes e, com cada um, a conversa tem um tom.
            Com a turma que vai pra passeata disposta a tacar fogo em tudo, a conversa precisa ser mais séria - eu acho - sem que isso acabe em tiroteio, feridos e mortos. Mas, também esse grupo mais incendiário está mandando seu recado aos poderosos: "O que nos revolta é o descaso do Poder."
             Não foi por outro motivo que os alvos atacados ontem, dia de manifestações pacíficas em sua maioria, foram o Congresso Nacional, o Palácio dos Bandeirantes e a Assembleia Legislativa do Rio. A turbinha não tem líder, mas sabe farejar onde viceja o fungo da corrupção.
            Chega de silêncio, Andar de Cima. Não dá mais pra fazer de conta. A coisa é com vocês, sim.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Coloridos pigmeus do bulevar


            Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Longe dos 3 milhões de passantes, mas igualmente distante dos 220 mil contados pelo UOL, a Parada Gay deste ano em São Paulo reuniu gente suficiente para um desfile de duas horas ininterruptas. Foi o tempo que fiquei parado na frente do Conjunto Nacional, vendo passar 16 trios elétricos - quase carros alegóricos, de tão enfeitados no andar de cima. Com algumas exceções, como o carro da festa Gambiarra, a maioria dos trios era bancada pelo movimento sindical, numa necessidade quase romântica da organização dar à Parada um tom mais "sério" e menos "carnavalesco".
            Bobagem. No Brasil, a Parada é uma festa e é por isso que atrai tanta gente. Já atraiu mais, é verdade, mas os excessos do passado assustaram. A chuva que despencou na manhã de domingo (não foi, como disseram alguns jornalistas desconhecedores da língua pátria, uma chuva 'intermitente') estimulou muita gente a ficar em casa, no quentinho do cobertor. A violência despoliciada da Virada Cultural também assustou. No fim, foi uma das paradas mais tranquilas, com apenas meia dúzia de mijões presos, acusados de atentado ao pudor. Beira o ridículo a acusação: num desfile em que destaques se cobrem com sungas menores que um dedal, rebolando lascivamente, acusar um mijão de atentado ao pudor é piada. Mais honesto seria prendê-los por sujar a cidade.
            Não houve multidões assustadoras, não houve violência e a equipe de garis limpava as ruas - a Paulista, pelo menos - já durante o desfile geral. O que, então, teria feito a Parada parecer tão reduzida, especialmente aos olhos dos formadores de opinião, mesmo daqueles militantes do movimento gay antenado? Talvez a explicação esteja na "qualidade" de quem veio se divertir na festa. Era "o povo da perifa, de Itaquera, Campo Limpo, Guaianazes, Vila Sabrina"... Era o que a classe média bacana e estudada chama de "gente feia".
            Era mesmo uma população que não se vê nos Jardins - a não ser usando uniformes de faxina, porteiro ou empregada. Eram pessoas vindas de longe - dois ônibus, metrô, trem, tudo junto - para exibir-se na avenida símbolo de uma cidade que também é deles. Quando aqueles meninos e meninas, usando roupas  que só muito vagamente lembram as "de grife", rebolavam os quadris no cruzamento da Paulista com a Augusta, alguma coisa acontecia em seus corações. A cidade era deles, mesmo que apenas durante uma parada.
            No primeiro momento, cheguei a pensar que a visibilidade dos adolescentes gays em bairros distantes da Paulista estava bem avançada. Olhando aqueles rostos maquiados, com perucas meia-boca e boás da 25 de Março, pensei que devia ser muito difícil pra eles fingir um comportamento hétero. Ousada, a molecada dançante. Depois, voltando pra casa, continuei matutando: a barra pra eles continua tão pesada quanto antes, mas talvez agora tenham mais coragem de se expor. Será?
            Isso talvez explicasse aquela "invasão" à Paulista. Era ali, na avenida mais cara de São Paulo, que eles vinham impor a própria cara. Não há espaço melhor, menos agressivo, mais adequado. Protegidos por batalhões de policiais - que não vão bater, nem humilhar, nem nada -, os meninos e meninas com visual pós-andrógino podiam dançar na rua como se não houvesse amanhã. Não haveria mesmo um amanhã igual ao "hoje" daquele momento. Muitos dançavam tão inebriados de si mesmos que pareciam nem ouvir a música que vinha dos trios. Faziam seu próprio ritmo, criavam seus passos, moviam-se no seu mundo interior.
            Faziam, esses meninos e meninas distanciados do "bacana", aquilo que os estudiosos chamam de carnavalização do mundo oficial. Em suas casas lá longe, receberam as notícias de um lugar onde os gays podem vestir uma camisa listada e sair por aí - às vezes, apanhando até a morte, mas isso acontece na rua de baixo também, mas quando é na Paulista vira notícia. Viam a cantora famosa exibir sua companheira e dizer "estou casada com ela" de boca cheia (e nessa hora deu pra sentir que o gesto de Daniela Mercury vai além dela mesma). Era ali, na Paulista, que eles deviam estar.
            Deviam mesmo. O "mundo gay oficial" já cresceu a ponto de poder ser virado do avesso e carnavalizado, sem que seja preciso transformá-lo em personagem caricato de novela. As crianças pintadas e embriagadas nos devolvem - de forma exagerada, over, pantagruélica - o mundo que vendemos pra eles como o mundo certo, sem Felicianos, Franciscos e Malafaias condenando ao fogo eterno. Mas atentemos para o recado que eles trazem: eles não querem ser castigados pelas igrejas, mas também não engolem a ditadura dos cheirosinhos. Sem jeans de grife, sem conhecer Nova York ou badalar no Ritz, eles só querem botar seus blocos na rua. Abram passagem.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Escárnio e Barbárie


            
Já faz um tempo que venho ensaiando retomar o blog, mas a velocidade da vida tem sido maior que meu ímpeto opinativo. A cada fato que surge no noticiário, maior é o meu espanto, o choque, o "isso não está acontecendo" invadindo a alma. Das leviandades proferidas pelo deputado pastor Feliciano à discussão sangrenta sobre redução da maioridade penal, passando por crimes que nem os roteiristas mais encapetados de Hollywood conseguiriam bolar... A geleia geral que o Brasil anunciava nos anos 60 virou um sarapatel indigesto.
            Nosso horóscopo, como nação, tem somente dois signos: Escárnio e Barbárie. Um está ligado ao outro, um gera o outro, um consome o outro. E ambos renascem, como paródia da fênix da mitologia, dos próprios excrementos. Colocar o homofóbico racista à frente de uma comissão que deveria lutar pelos Direitos Humanos... colocar um condenado por improbidade na comissão de Ética... Governar fazendo da patuleia uma enorme torcida figurante, pronta apenas para aplaudir inauguração... Dar adeus às ideologias e abraçar de vez o casuísmo... Ou, como hoje, culpar os usuários pelo caos no transporte público da maior cidade do país... Tudo isso é regra de etiqueta no país do Escárnio.
            Poderia ser apenas um filme B de horror, daqueles que passam de madrugada e não nos afetam. Mas não é. O escárnio oficial é um fermento fedorento, um bolor que rapidamente toma conta das juntas morais do país. Vaza dos palácios e chega às ruas, às lojas e bares, aos lares. E quando se mistura a ele o perigoso tempero do "pra farinha pouca, meu pirão primeiro", a desgraça está feita.
            O território do Escárnio, então, cede espaço à Barbárie. É do escárnio oficial que nasce a fama de impunidade, a filosofia do jeitinho, o conceito de que, por aqui, tem lei que não pega - como semente atirada em terreno de pedra. Quando o deputado esbraveja que não vai obedecer o juiz do Supremo Tribunal - e nem vou entrar aqui no mérito do que ordenou o juiz, ele também dado a desvarios absolutistas - , quando o deputado ameaça ignorar a Lei, não há porque esperar que um adolescente criado a iogurte e maçã fresquinha tenha de se submeter às regras. Se o deputado pode, eu também posso - eis o resumo.
            Se o deputado pode ignorar a voz das ruas por que eu devo obedecer o aviso de desligar o celular no cinema, no teatro, no avião? É meu, eu tenho direito de usar. Se o vice-governador só se manifesta sobre a violência urbana quando o carro de sua filha é atingido, por que o filho mimado de um aposentado precisa se preocupar em socorrer o ciclista atropelado na Avenida Paulista? Só por que sobrou um braço dele no carro? Oras.
            Por que devemos discutir a redução da maioridade penal? Por que mataram algumas pessoas de classe média? Enquanto morriam somente os jovens da periferia, ninguém pensou no assunto... Mas reduzir a discussão a esse maniqueísmo social é indigência cultural. Como cidadão, eu não sei ainda o que pensar. Argumentos para os dois lados, há. Ouço, pondero e indecido.
            Só noto, horrorizado, que os crimes crescem em violência e desumanidade. O que fazer com quem ateia fogo a uma vítima? O que fazer com quem atira a sangue frio  no menino que não reagiu? Colocá-lo na prisão não vai resolver o problema. Mas deixá-lo impune também não. A não ser que a ideia embutida na discussão seja adotar de vez e oficialmente a pena de morte.
            Foi isso que me assustou quando começaram a pipocar os bate-bocas sobre a maioridade penal. Os mais radicais queriam mesmo era "meter uma bala na cabeça desses animais"- palavras extraídas de um post no facebook. A barbárie de lá vai ser combatida com a barbárie de cá, é isso mesmo?
            Num país em que o condenado que já cumpriu sua pena mofa na cadeia, porque a Justiça esquece de tirá-lo de lá, é bastante arriscado adotar uma medida tão definitiva quanto a pena de morte. Se não confiamos na Justiça para prender, tratar e reeducar nossos presos, por que haveremos de confiar na que aplica a pena capital?
            Da guerra de barbáries, de selvagerias de parte a parte, brota novamente o escárnio. Defende-se a impunidade de um criminoso cruel e ainda jovem com a mesma energia com que se advoga o direito do jovem em eleger o presidente e até em escolher o próprio sexo. Por fim, qual será o critério adotado pra reduzir a maioridade penal? A julgar pelo comportamento cada vez mais infantil de nossos "jovens" de 30 anos, a maioridade penal deveria ser ampliada, em vez de reduzida.
            Será essa é a filosofia cínica que nos move? Será que o deus que rege nosso signo é Saturno, o que devorava os filhos recém-nascidos para que não lhe tomassem o trono?


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Me barra, que eu também sou blogueiro!


            "Não acredito numa só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-las". A frase de Voltaire, incluída na peça "Liberdade, Liberdade", que Millôr Fernandes e Flávio Rangel escreveram em 1965, só chegou ao Jardim Brasil, onde eu morava, cerca de 10 anos depois. Pra minha cabeça adolescente, aquilo caiu como um machado - e eu nem lembro mais o nome da peça que o grupo de teatro do bairro apresentava nos salões da Igreja Nossa Senhora da Livração, mas lembro que era uma peça de protesto e, na época, eu achava que a Teologia da Libertação tinha vindo pra ficar.
            O pensamento de Voltaire virou uma espécie de lema da minha vida e eu tento - embora seja difícil - sempre me guiar por ele. Por isso, assisto com espanto, tristeza e medo as incansáveis manifestações contra a viagem que a blogueira cubana Yoani Sanchez está fazendo pelo Brasil.
            Feinha, cabeleira de testemunha de Jeová em missão evangélica, figurino de quem se vestiu quando a casa começou a pegar fogo, Yoani se transformou na Musa do Verão 2013. Ela é a voz da oposição em Cuba, é a dissidente que resiste aos safanões do governo absolutista, etc etc etc. Como a última moda - no Brasil e no mundo - é ser de direita,  Yoani virou mito, mártir, uma versão caribenha da donzela de Orleans na luta contra os gigantes barbudos de sua ilha.
            Yoani, é bom que se diga, tem todo o direito de achar o governo dos Castro - o único que ela conheceu em Cuba, aliás - uma bela duma porcaria. Quando visitei a Ilha há alguns anos, tive boas surpresas: educação e saúde são levadas a sério, sim, por lá, isso é inegável. E não venham os defensores de Miss Sanchez dizerem que só isso não basta. Não basta, mas ajuda muito.
            Mas vamos à visita da Señorita Sanchez ao Brasil. Que país estará sendo mostrado a ela por seus anfitriões? Nem dá pra dizer que ela foi recebida pela nata do tucanato, porque o Eduardo Suplicy - depois de dar um abraço em Marina Silva - serviu de guia durante alguns passeios. (Pra mim, Eduardo S. está tentando limpar a barra por ter votado em Renan Calheiros pra presidência do Senado, seguindo orientação partidária e contrariando algo como 90 por cento dos seus eleitores - eu entre eles. Seja como for, o senador petista está sendo uma das vozes mais democráticas no meio desse desfile de protestos ensandecidos).
            Que Brasil Yoani levará na lembrança? Se for o Brasil derrotado que o PSDB apregoa, vai ser uma péssima imagem do capitalismo, é bom tomar cuidado. Não dá também pra levantar a bola dos avanços sociais recentes, coisa de petista apoiador de Fidel. Que sinuca!
            Talvez fosse bom fazer só dois passeios oficiais: a escolas e hospitais públicos para que nossa visitante cubana pudesse comparar. Dados publicados na Vejinha desta semana dizem que 28% dos alunos do quinto ano da rede municipal de ensino chegam ao fim do ano letivo sem saber escrever um bilhete pro pai nem ler um gibi. Dos hospitais públicos, basta dizer que uma das grandes campanhas atualmente é querer obrigar político a usá-los - como castigo. Se comparar esses dados, talvez Yoani consiga elogiar alguma coisa em sua ilha.
            Falta-lhe a liberdade de ir e vir, de se exprimir, de fazer o que lhe der na veneta - e isso é essencial, mesmo. Quem passou pelo regime militar aqui, quando até pra se viajar pro exterior (sem ser exilado), a pessoa tinha um imposto altíssimo pra pagar, sabe bem que o ir-e-vir é sagrado. A falta desses direitos é inquestionável.
            No meio do bate-boca, perde-se a noção do meio termo, do relativismo. Ou bem se é contra ou bem se é a favor. Com muito passionalismo, muito radicalismo, pouquíssima inteligência. Boicotar a exibição do documentário que a moça veio exibir em Feira de Santana foi um dos maiores vexames diplomáticos e políticos que qualquer grupo político poderia ter feito. Ouvir a opinião contrária faz alguém perder pontos no boletim ideológico? Se for assim, por favor, protestem. Me xinguem. Puxem meus cabelos (vai dar mais trabalho, porque estão curtos, mas um verdadeiro militante nunca desiste). Aumentem meu ibope, que nem aumentaram o da Yoani. Eu também sou filho de Deus, oras.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A calcinha da deputada


            Foi mais ou menos assim: a atriz, deputada estadual e missionária Myriam Rios (como está em sua página da internet) apresentou um projeto de lei mirando os bons costumes. O governador Sergio Cabral já assinou e a lei está valendo. Nas reportagens que li, não dava pra entender direito o que eram os tais bons costumes que a parlamentar defendia. Mas na chuva de posts que invadiu as redes sociais deu pra entender uma coisa: preconceito é uma atitude daninha, seja contra ou a favor da gente.
            No caso, o preconceito foi contra a deputada, cujo projeto de lei é mesmo estapafúrdio. As armas usadas para atacá-lo, no entanto, foram as piores possíveis: alguém fuçou na internet e descobriu imagens dos tempos em que a hoje política era somente atriz e tinha um corpinho que não era de se jogar fora. Sucesso em novelas da Globo, jovenzinha com tudo em cima e mais um pouco, Myriam Rios sucumbiu às propostas de fotos sensuais, nua ou seminua - tanto faz. Dizia-se nos posts que uma pessoa que fez aquelas fotos não tem o direito de hoje, enfiar o dedo moralista no nariz da gente mais soltinha e despreocupada.
            Que ela não tem por que se meter nos bons costumes alheios, é ponto pacífico. Certamente o Estado do Rio tem problemas muito mais sérios pra assembleia legislativa cuidar. Se queremos mesmo atacar a lei da Myriam, devemos mirar no que ela tem de tacanha, reducionista, cafona - mas não vamos agir também de maneira tacanha, reducionista e cafona. Recorrer ao passado doidivanas de Myriam Rios não é o melhor meio de anular sua lei do bom comportamento.
            Profissional que era, Myriam deve ter recebido pra posar pras fotos. Assim como são profissionais e recebem o combinado as moças que saem nas capas da Playboy e da Sexy (e os moços da G, da Júnior, etc, também). Se hoje "acusamos" Myriam de ter feito aqueles trabalhos, nada impedirá que amanhã ou depois alguém saque da algibeira as fotos que muitas moças legais fazem por aí. Eu mesmo sou amigo de quatro atrizes que foram capa da Playboy e posso garantir que nenhuma delas tem comportamento moral discutível.
            Myriam Rios já fez muita besteira na vida - inclusive atuar. Casou com Roberto Carlos, virou cristã militante e anunciou com orgulho estar há mais de 10 anos sem sexo. Igualou homossexualismo com pedofilia, causou rebuliço, pediu desculpas. E agora surge com essa lei boko-moko. Se ela tivesse levado uma vida de monja, nunca tivesse blasfemado ou roubado doce de criança, mesmo assim seu projeto de lei seria, no mínimo, risível. Não é o fato de ela ter mostrado as pudendas pra garotada que a desautoriza.
            Como todo mundo, Myriam pode ter mudado de opinião e ponto de vista ao longo dos anos. Quem não muda tem problemas sérios de aprendizado. Até onde eu saiba, conta a favor da deputada ela não ter tentado apagar seu passado de saliências - ao contrário daquela apresentadora loira cinquentona com voz de criança atrasada na escola. Myriam fez o que fez, as fotos comprovam e ela agora tornou-se o símbolo da caretice. O chato nisso é que milhares de pessoas deram seu voto à caretice da moça.
            Meu medo na cruzada moralista anti-Myriam é o que ela esconde: o acanhado limite que cada um que se diz liberado impõe ao outro. Infelizmente, é possível, sim, ser tacanho quando se ataca a caretice.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Enganações


            Somos um povo que se engana. Nosso padroeiro deveria ser o Gepeto e nosso símbolo na Copa do Mundo bem que podia ser o Pinóquio. Mentimos para nós mesmos o tempo inteiro. Criamos leis que, a exemplo de plantas no deserto, podem "não pegar." Espalhamos por todas as empresas um Serviço de Atendimento ao Consumidor que faz pouco dos clientes - e, como diz minha amiga Gabriela Erbetta, o "Fale Conosco" dos sites deveria ter um subtítulo: "mas nós não ouviremos você". Somos campeões mundiais em auto-engodo e isso, estranhamente, não nos afeta. Aliás, até nos deixa orgulhosos e felizes.
            Recentemente, antes de um show no Sesc Pinheiros, uma voz anunciava, de maneira clara e bem articulada, que era proibido tirar fotos e filmar o espetáculo. Aconselhava também a desligar os celulares. Mal as luzes se apagaram e o que se viu foi um mar de celulares e máquinas registrando cada momento do show. Era como se a regra anunciada no alto falante só valesse para marcianos portando armas a laser ou duendes recém-chegados de algum arco-íris distante. Nenhum dos presentes se julgava submetido a uma norma tão esquisita: "Como assim, não fotografar o show? Eu paguei o ingresso, tenho direito!"
            O grande problema de as pessoas ignorarem o aviso de "desliguem seus celulares" vai além da desobediência, da travessura. Ela nasce, na verdade, da falta de punição. Além de avisar que é proibido fotografar o espetáculo, a casa deveria ter seguranças, fiscais, cães perdigueiros - sei lá - para alertar os infratores. "Olha, não pode fazer isso". Alertada uma ou duas vezes, a pessoa que insistisse teria o aparelho confiscado e só devolvido ao fim do evento. Será que isso é ilegal? Ou a norma anunciada é que é? Se for, pra que anunciar?
            Algo parecido ocorre com a bliz da Lei Seca. A tolerância zero foi bem recebida até por aqueles que costumam beber e dirigir sem causar transtornos. Há um ideal de segurança - "eu posso dirigir bem, o problema são os outros motoristas" - que justifica a severidade da lei. Acontece que, se beber e provocar um acidente com vítima fatal, o sujeito vai pagar uma multa menor do que se "apenas" dirigir alcoolizado! É como se beber e dirigir fosse um pecado mortal. E provocar a morte de alguém no trânsito não passasse de uma malcriação. Ah, somos falsos, falsos...
            Em Salvador, uma lei implantada há cerca de dois anos, pôs fim às barracas de praia, onde nativos e turistas podiam beber, petiscar e passar algumas horas à vontade. Notem: Salvador é uma cidade com praias belíssimas e a lei caída do céu queria obrigar todo mundo a carregar um isopor onde guardaria seus beberets, comerets e lixerets. Funcionou? Claro que não.
            Do Porto da Barra a Stella Maris, o que se vê nas praias soteropolitanas é um colorido mar de guarda-sóis. Instalado ali, o turista pode tomar sua cervejinha gelada, comer um acarajé (tem sempre uma baiana ao alcance do "ei, menino!") e até ter os pés molhados por água do mar, gentilmente despejada por um funcionário das barracas. Ué, mas elas não estão mais proibidas? Estão, mas continuam. Elas não existem mais como estrutura física - parede, banheiro, chuveiro, lata de lixo. Você consome o que quer e deixa por ali, na areia. No fim do dia, o mar quebra na praia, bonito, bonito - e recebe de prêmio as garrafas, copos de plástico, palitos e papeis deixados pelos veranistas. É nojento.
            Existem várias explicações históricas e sociológicas para tamanho desapego da verdade. Uns culpam a colonização lusitana, outros a série de ditaduras com que nos criaram e outros, ainda, a indolência tropical. Nada justifica. Num tempo em que todo mundo defende seus direitos com unhas e dentes, mas esquece da lista de deveres a ser cumprida, a hipocrisia transformada em hábito cotidiano ganha contornos doentios, como se fosse uma doença que podia ser tratada com vacina - mas ah, ninguém quer sentir a dor da agulha...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A mesma praça...


Fui checar no dicionário. Praça continua sendo definida como espaço público destinado ao lazer e ao descanso. "Geralmente", alerta o Aulete, "tem bancos, coretos e plantas ornamentais." A dúvida sobre uma possível nova conceituação do verbete me bateu desde que as redes sociais e os jornais passaram a exibir a imagem do confronto entre homens da Guarda Civil Metropolitana e skatistas na Praça Roosevelt, agora reformada e devolvida à população.
            Era mais um imbróglio na história desta praça. O antigo terreno de d. Veridiana Prado foi transformado, no final dos anos 60, num monumento ao concreto desconhecido pelo paisagista português Roberto Coelho Cardozo. Foram décadas de convívio com aquela praça de dois pisos - era até bonito, quando bem cuidado: tinha supermercado 24 horas, banheiro público, correio, espaço pra correr e brincar... Acabou virando tudo um "valhacouto de marginais",  como diriam os antigos repórteres policiais.
            A dignidade do espaço começou a ser resgatada com a chegada dos grupos teatrais... Mas é bom lembrar que, nos anos 70, as mesmas calçadas dos Parlapas e dos Satyros recebiam os frequentadores do Cine Bijou, onde só passava "filme antigo e de arte". Nos anos 80, chegou a funcionar uma cantina bem simpática, "Macarrão". Mas aí o tráfico chegou com tudo. Nos anos 2000, a proximidade com políticos no poder - o então governador José Serra era habituê das sessões teatrais dos Satyros - acabou dando início ao processo de restauração da praça.
            Reinaugurada a praça, com tanto concreto quanto antes, e umas árvores mequetrefes representando sem muito entusiasmo a flora urbana, começaram os problemas. Os skatistas se julgam donos do espaço. Os moradores ao redor também. Os ciclistas, os donos de cachorro, todo mundo tem direito a um pedacinho de seu. Tem mesmo. Mas cadê que o povo se entende?
            Com a arrogância típica da juventude - embora alguns já tenham passado pra fase adulta há tempos -, os skatistas ensaiam suas manobras radicais o tempo todo. É bonito, mas faz um ruído diabólico. Especialmente de madrugada. Junta-se a isso, a prepotência dos guardas civis: um dos principais envolvidos estava à paisana e já responde a outros processos por má conduta. A falta de bom senso dá o toque que faltava. O resultado foi o que se viu: agressão física, xingamento, o diabo.
            Até o momento, ninguém conseguiu sequer sugerir que se estabeleçam regras para o uso da praça. "Skate, das 9 às 18 horas", por exemplo. Vai ser obedecido? Dificilmente, a moçada não é muito chegada a cumprir regras (aliás, essa é uma das funções juvenis, testar o elástico das regras até o limite). Mas haveria pelo menos uma baliza pra guiar a discussão. Do jeito que está, fica tudo por conta do freguês. E o que não falta é freguês.
            A cada dia que passa, mais gente se julga com direitos a tudo. Com razão! O complicado é que poucos entendem que, no mesmo pacote dos direitos, vem o dos deveres. De uma vez por todas, convívio social não é "eu pago imposto, faço o que quero e dane-se o resto". O cidadão do andar de baixo e a vizinha do andar de cima também pagam imposto, também têm direito, também querem puxar a brasa pra sua sardinha. Não é fácil. Com isso, o espaço que deveria servir pra convivência se transforma no epicentro das divergências.
            Nas cidades brasileiras, em particular, onde antes famílias passavam a tarde de domingo, jovens se paqueravam e havia, sei lá, um velhinho do realejo, agora o que existe é uma procissão de desvalidos, miseráveis, mendigos, noiados e outros exemplos de degradação humana. Ai de você se precisar parar pra tomar um ar, dar um tempo, esperar alguém... Vai ficar de pé, porque bancos são raros. E os poucos são anti-mendigos, com ferrinhos separando um assento do outro - namorar juntinho, nem pensar.
            Perdemos a mesma praça, o mesmo banco e o mesmo jardim. Nunca teremos uma Place des Vosges, como em Paris (aquela em que morava o escritor Victor Hugo, linda, com seus arcos)... Jamais ergueremos uma praça como a Grand Place de Bruxelas, certamente uma das mais bonitas do mundo...  Só conseguimos mesmo seguir o exemplo pouco salutar do confronto entre estudantes e militares na China, em 1989. Desde então, nem mesmo a Praça da Paz Celestial fez por merecer nome tão poético.
            Surpreendendo quem não via comunismo em nossas polícias, nossa guarda civil exibiu inesperada coloratura maoísta... Mas, enquanto os chineses mantinham o conflito no nível homem-máquina, nossos bravos policiais tropicalizaram e partiram pro contato humano - e o que se viu foi uma gravata aplicada com empenho. Devíamos ter o mesmo entusiasmo pra tentar entender o outro - isso vale pra todo mundo, incluindo a moradora velhinha que reclama de tudo.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Thiago Klimeck

Thiago Klimeck (à esq.), que morreu como Judas em Itararé


De vez em quando lembro de uma resposta que o ator-diretor Hugo Possolo deu quando o "acusaram" de ser vaidoso. "Eu sou artista, tenho que ser vaidoso", disse ele. "Só a vaidade explica porque a gente fica em cima do palco". Não sei se era um chiste ou jogo de palavras, mas que eu concordo com o Hugo, concordo. A vaidade impulsiona os atores. Em alguns casos, é o único impulso, porque vaidade e talento não são sinônimos.

Voltei a lembrar da frase do Possolo, ao acompanhar a agonia do jovem ator Thiago Klimeck. Thiago quem? Thiago Klimeck morreu aos 27 anos, depois de se enforcar acidentalmente numa encenação da Paixão de Cristo, no interior de São Paulo. Até o dia 6 de abril, poucos tinham ouvido falar no talento dramático dele. Ontem, Thiago Klimeck foi assunto até do Fantástico.

Como milhares de outros estudantes de teatro e atores já formados, Thiago muito provavelmente era vaidoso e sonhava ser conhecido. Ninguém sobe no palco pra ficar anônimo, ninguém escreve peça ou lança livro pra ser ignorado. A vaidade nos faz querer mais. É humano. É óbvio. Doentio é o que algumas pessoas fazem em nome da vaidade, mas isso já é outro assunto. O tema aqui é Thiago Klimeck.

Infelizmente, para Thiago, a fama veio da forma errada. O Judas Iscariotes que ele fez na praça de Itararé entrou para a história do teatro porque seu intérprete morreu em cena. Morreram o personagem e o ator e até agora as pessoas tentam entender como isso aconteceu.

Nem assim o nome de Thiago Klimeck conseguiu o espaço que merecia. Ele se tornou "o ator que se enforcou encenando a Paixão de Cristo", no genérico. Thiago Klimeck, nome sonoro, bom pra ser anunciado em microfone e em elenco de novela, diluiu-se no noticiário. Virou apenas "o ator". E sobre o rapaz que morava com a família sabe-se pouca coisa. A imprensa de celebridades, que nos informa até a cor da cueca que o fulano usava na lua de mel, deixou pra lá os detalhes do jovem Klimeck - ele morreu, mesmo, de que adiantaria?

Vendo a notícia da morte, percebo que nada soubemos do ator. Será que ele queria fazer novela? Quem sabe, cinema? Talvez tentar uma vaga na trupe de Zé Celso, ser mais um dos atores do Oficina? Pode ser que Thiago sonhasse entrar para o CPT e, talvez, ser um novo Luiz Mello, um novo Lee Thalor... Se as coisas apertassem, ele não se importaria em animar festa infantil fantasiado de Pluto ou Cebolinha... Fazer propaganda ridícula, faturar uns trocados como estátua viva na Paulista, batalhar por um projeto, um patrocínio, uma permuta... Bateria a dúvida da carreira certa? Será que ele desistiria na próxima temporada e começaria a trabalhar na loja de material de construção do tio? Ficaria noivo, casaria, teria filhos e, do teatro, guardaria somente a foto dele como o Judas mais impressionante que Itararé já tinha visto... Bom, essa última parte ele conseguiu...

Ninguém diz se Thiago era bom ator. Dedicado, ele era: passou seis meses ensaiando o truque do enforcamento, uma cena que se repete milhares de vezes em toda encenação da Semana Santa... Será que o Judas que ele representou até o fim merecia mesmo um lugar  na história do teatro? Será que as pessoas ficaram com vontade de xingá-lo quando ele veio dar o famoso beijo traiçoeiro em Jesus Cristo? Quem era Thiago Klimeck, além de ser o ator que se enforcou no meio da Paixão?

Ficaremos no vácuo das informações. Talvez no velório alguém lembre que Thiago sempre chorava quando assistia a Paixão de Cristo. Quando tinha a cena do Judas, então... E o ouvinte sacudirá a cabeça, filosófico. "Parece que tava adivinhando..." Uma outra pessoa, também por ali, vai comentar que alguém insistiu pra ele ser Pôncio Pilatos, mas Thiago teimou, queria porque queria ser o Iscariotes. De novo, a filosofia popular: "Parece que tava adivinhando..."

Thiago alcançou a fama em plena transição da vida para a morte. Caso os defensores da vida após a morte estejam errados, ele morreu sem saber de sua notoriedade. Caso estejam certos, ele certamente vai passar um tempinho revoltado, porque, afinal de contas...


sexta-feira, 23 de março de 2012

Pai heroi, filho divino


Tal qual um folhetim pouco criativo, o fatídico encontro de Wanderson com Thor, na noite de sábado, vem cumprindo todas as etapas de crime ocorrido em republiqueta de bananas. Os personagens são o filho de um dos homens mais ricos do mundo, um ciclista sem posses, um delegado, um pai heroi e uma mãe ausente. Falta a mocinha romântica, mas o moço rico é também bonito, então não será difícil encontrar candidata. Até o momento, já se anuncia que o ciclista tinha bebido e, mesmo assim, conduzia veículo automotor. Promoveram a bicicleta a veículo automotor! E mesmo sem o laudo da perícia técnica pra determinar velocidade, impacto e outros itens que esclareçam como o coração da vítima foi parar dentro do carro, o delegado pressupôs que o ciclista estava no lugar errado. Convenhamos, o delegado acertou: o ciclista estava no caminho do mocinho rico.
Tem me chamado a atenção a ausência da mãe do mocinho. Notória foliã, capaz de pisar no sambódromo com o nome do então marido em uma coleira, fã declarada dos soldados do fogo, atriz (perdoem) bissexta, a Mãe tomou um inexplicável chá de sumiço. Talvez por não ter com a língua pátria uma relação de maior intimidade, a Mãe deixou que o Pai ocupasse a linha de frente da batalha do Rico contra o Exército de Pobres Invejosos que Infestam o País, respondendo pessoalmente a todos os ataques da patuleia no twitter.
E aí começa meu grande espanto com a indignação alheia. A não ser que ocorra uma dessas revoluções astrais, que fazem criança gostar de quiabo e gente de mau gosto ouvir música em baixo volume, o fim do filme é previsto: a culpa será do ciclista e, se bobear, o moço rico entra com ação de injúria a sua honra. Como eu disse, o folhetim carece de criatividade. O que não entendo é a indignação com a reação do Pai Herói.
Pense um minuto antes de me xingar. Imagine que você é dono da sexta fortuna do mundo. É dinheiro a dar com o pau. É bufunfa suficiente pra você colocar o carro importado pra dormir numa das salas de sua casa - não na garagem ou na vaga que sobrou na reunião de condomínio. Provando que muito dinheiro nem sempre rima com bom gosto, o sujeito botou o carro dentro da sala. E se você já desceu em seis pra praia, dormindo todos apertados dentro do fusquinha, vai morrer de inveja do carro, claro.
O fato é que, sentado no topo de uma montanha de dinheiro, você é informado que seu filho atropelou e matou um rapaz com um desses sobrenomes comuns, que todo mundo tem... Imagine que você tem dinheiro, dois filhos e mora num país onde a polícia não ficou famosa pela resistência à corrupção. Oras, vamos somar: um rico, um pobre, uma polícia passível de silenciar quando interessa... Você hesitaria em proteger seu filho amado? Não suba no salto do moralismo, tentemos ficar no campo do real. Quantas vezes você já torceu a cara pra vizinha que falou mal da voz do seu filho na festinha infantil do prédio?
O Pai Rico não é o único. Recentemente, tivemos a mãe que catou o filho na praia e fugiu com ele, serra acima, depois que o menino foi brincar de jet ski e matou uma menininha que nunca tinha ido à praia... A princípio, eu fiquei chocado com essa mãe. Depois, pensei melhor e fiquei em dúvida: o que eu faria no lugar dela?
De fora, é fácil apoiar-se no senso comum e na noção de Ética que deveria nos nortear em todos os momentos da vida. Dentro do furacão, é complicado. É claro que contra isso existem as leis. E se a Mãe do Menino do Jet Ski for processada por obstrução de justiça, o que devemos dizer ao Pai Heroi Muito Rico? Ele tem todo o direito de proteger seu filhote e, já que pode, contratar um ex-ministro da Justiça pra assumir a defesa do caso. Quem não deveria se deixar levar pelo canto da sereia milionária é a Lei (e seus representantes).
Em algum momento, uma luz deveria baixar nesses personagens, claro, aquela luz que faz todo mundo se casar com todo mundo e perdoar todo mundo e viver feliz pra sempre... Luz de fim de novela. Esse raio do bem traria consciência a esses pais e mães de atitudes heroicas, mesmo que imorais, e eles se envergonhariam de ensinar a seus filhos que uma boa maneira de se viver é fugir da responsabilidade, virar as costas e correr pra caverna mais próxima.
Até nisso a luta de classes revela sua face irônica: quem tenta fugir e virar as costas é a já muito perseguida classe média, aquela que tenta ascender ao primeiro andar, enquanto o seu piso intermediário está sendo invadido pelos zé-manés da periferia... Os muito ricos - foi o caso desse rapaz da nossa história, o filho do pai heroi e da mãe ausente - dão-se ao luxo de não fugir. Dizem que já por duas vezes o rapaz atropelou um ciclista e que, em ambas, não deu no pé. Levou a vítima ao hospital, no primeiro caso. Parou no posto policial, no segundo.
Para eu e você, que rebolamos pra acertar as continhas no fim de cada mês, essa atitude é chamada de pagar o pato, assumir o risco ou se submeter à lei. No caso do nosso mocinho muito rico, posso estar enganado, mas é apenas a certeza que nada de muito especial vai acontecer com ele. Fez merda, filho? Vai lá, socorre o infeliz, avisa a polícia e vai pra casa, deixa que papai dá um jeito.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Artista entre nós


Em meados dos anos 80, quando a Folha instalou os primeiros computadores na redação, lembro de ter olhado aqueles trambolhos com desdém. "Isso não vai pegar", eu disse. Ainda bem que ninguém tomou nota - se bem que eu não errei de todo. Os computadores eram umas caixas enormes, com tela escura e letrinhas irritantemente cor de laranja ou verde - e tinham o péssimo hábito de sempre apagar tudo quando você estava nas três últimas linhas e, obviamente, não tinha salvado nada. Já no fim da década de 80, quando a Veja informatizou a redação, a empresa teve o cuidado de deixar uma psicóloga por perto - juro. Como as pessoas não arrancavam mais a lauda ao perceber um erro grave, não se extravasava a agressividade. É incrível pensar que já houve quem se preocupasse com isso nas empresas. Mas por que estou reconstituindo esse Jurassik Park da imprensa paulista? Por causa do filme "O Artista".

Sinceramente, não acho que o filme de Michel Hazanavicius mereça tanto oba-oba. Dez indicações ao Oscar, não sei quantos Bafta, não sei mais que prêmio em Cannes... Ufa... O filme é bacana, sim, mas "Tudo pelo poder", "A Separação" e "Triâgulo Amoroso" ainda foram os melhores que vi neste começo de ano. Ao contar a história de George Valentin, popstar do cinema mudo, chocado diante do cinema falado que colocou sua carreira em risco, "O Artista" acerta mais no que não mostra do que no que aparece na tela. Temperado de citações e homenagens - a começar por "Cantando na Chuva", que contou a mesma história, mas com música -, "O Artista" fala de nós. De cada um de nós, colocado diante do novo. Eis aí a pedra de toque do filme.

Assim como eu fui um péssimo profeta, acho que muitos de nós - pra não ser exagerado e dizer todo mundo - tremem diante do novo. Abalam-se quando observam o tempo que passa. Assustam-se quando vêem surgir no portão a geração que vai sucedê-los. Menosprezar ou minimizar ("miniminizar", como diria o diretor de um grande jornal no qual trabalhei muitos anos) o futuro imediato é uma defesa automática de nossos sentidos. Alguns aferram-se a ela, à defesa, e tal qual o protagonista do filme acabam por afundar em seus orgulhos. Há os que aceitam e se adaptam, correndo o risco de incinerar o próprio passado. O ideal seria a aceitação com barreiras...

"O Artista" me pareceu um filme sobre a negação - tanto que a personagem feminina, que é a portadora da novidade, acaba se tornando mera coadjuvante na trama. Não é ela que interessa ao roteirista e diretor. Ela está pronta para o novo, ela usufrui e saboreia o sucesso. Melhor ainda, ela descobre a... Veja o filme, se quiser saber o resto. O que importa aqui é que, ao nos fazer seguir a derrocada de George Valentin, "O Artista" provoca nossa identificação com o conservador, o medroso, o despreparado - não aceitar que o tempo passa e que, como na música, o novo sempre vem, é estar despreparado pra vida.

Posso até não concordar com a chuva de prêmios que "O Artista" colheu e ainda vai colher mundo afora. Mas tenho de reconhecer que não é sempre que um filme nos faz refletir sobre a própria vida. Ponto pra ele.








quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

30 anos e 2 dias


Se é verdade que todo homem é um universo particular, no planeta Mário Viana a cantora Elis Regina ganhou dois dias de sobrevida. Em janeiro de 1982, eu acabava de chegar a Paris no mais perfeito estilo mochileiro: dinheiro não havia, o francês falado era xexelento e o jeito era se virar no subemprego. Fomos morar, Wanderley e eu, no quarto de um amigo pernambucano, no Hotel du Roussillon, Place d`Italie. Era uma verdadeira pensão - por onde haviam passado Alceu Valença, Florestan Fernandes Jr., Geneton Moraes, Ciro Cozzolino e muitos outros -, sem banheiro privativo, nem TV. Telefone, um só, na portaria - para recados.
No dia 21 de janeiro, consegui meu primeiro trabalho - pintar o apartamento de um colombiano que acabara de terminar o casamento com uma brasileira. Munido de um dicionário de bolso, eu li as instruções para aprender a abrir a lata de tinta... Por aí, pode-se imaginar o resultado da pintura: a conterrânea abandonada adorou, o colombiano reclamou que eu tinha deixado o carpete parecendo uma onça (eu li que a tinta era lavável e nem me preocupei em cobrir o chão...). "Vou te pagar só para não ter de ver nunca mais na vida", resmungou o colombiano. Deus ouviu suas preces.
Na hora do almoço, enfrentei a neve e fui encontrar o Wanderley num restaurante universitário próximo à Rue du Moufftard, na parte mais velha de Paris. Eu estava assustado com a primeira manhã de trabalho e ele, meio atônito. "Me falaram uma coisa, eu acho que é mentira", ele começou - havia um toque de carinho no cuidado pra dar a notícia a um fã. "Disseram que a Elis Regina morreu". Eu levei um susto, peguei minha bandeja, sentei. "Mentira". E começamos a almoçar. Eu parava. "Só se foi acidente de carro. Foi acidente?" Ele não sabia, ninguém sabia. Voltamos juntos pro apartamento do colombiano. Entre um e outro golpe de tinta na parede - não vejo outro modo de definir nosso trabalho - descobrimos o telefone do consulado brasileiro e eu liguei. Dois dias haviam se passado desde a morte e o rapaz que me atendeu só sabia confirmar a notícia. A causa, nada.
Em uma semana, começaram a chegar as cartas. No Roussillon, a brasileirada trocava recortes de jornais, revistas, tinha um que ia à loja da Varig roubar jornal antigo, um tinha o Globo, o outro a Folha... Ninguém podia gastar dinheiro em um telefonema ao Brasil e saber o que estava acontecendo... Eram outros tempos, definitivamente. Hoje, saberíamos da morte de Elis antes mesmo do corpo chegar ao IML. Teríamos todos os detalhes, os mais sórdidos, os mais chorosos. Não que isso aliviasse a dor de perder um artista querido. Claro que não. Mas era como um período pra curtir a dor, deixá-la encontrar espaço.
A rapidez das notícias acelerou também a velocidade do esquecimento. Recebemos tudo em grande quantidade e a comoção histérica vem no embalo. Louvações e linchamentos nivelam-se nas redes sociais, com a mesma intensidade. Paixões e ódios também são abandonados no acostamento, sem maiores explicações. E sem que esperemos, chega um artista e ocupa algum território ainda inexplorado de nosso sentimento. As gerações seguintes custam a compreender por que seus antecessores choraram tanto esse ou aquele. O enterro de Carmem Miranda parou o Rio? Chico Alves deixou o Brasil em lágrimas? Por que tantos choraram e choram até hoje por Elis Regina? Da mesma maneira que os seguintes lamentariam Renato Russo, Raul Seixas e Cássia Eller. Da mesma maneira que, talvez, alguém chore no futuro a morte súbita de Amy Winehouse.
Há artistas que completam lacunas. Em suas ausências, nos fazem refletir e crescer. Avançar, um tiquinho que seja. Devolvem-nos a condição de homens perplexos diante do incompreensível.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Posta e deixa rolar...


Quantos posts dura a sua revolta? Você já se habituou a conter sua indignação nos 140 toques do twitter? As redes sociais estão aí e há mesmo quem diga que a primavera árabe começou graças a meia dúzia de twittadas bem dadas. Tenho minhas dúvidas sobre a eficácia do facebook como agente propagador de revolta - pelo menos, do tipo de revolta que derruba ditadores, destitui o senado e avança rumo à liberdade. Como se fosse um personagem de peça enigmática dos anos 70, me pergunto se "O Sistema" permitiria realmente a ampliação descontrolada de um serviço que pode causar tantos danos aos de cima.
Do ponto de vista de brasileiro habituado a navegar nos mares dos perfis e opiniões definitivas das redes, não tenho motivos para muita euforia. Por aqui, o que mais rolou mesmo foi "Lula, vá se tratar no SUS", "Imprensa burguesa ignora A Privataria Tucana" e "Todo mundo morre (ou todo mundo perde o emprego), menos o Sarney". Sinceramente, estamos a anos-luz de uma primavera árabe.
Houve também a caça aos torturadores de animais, com fotos, dados pessoais e chamadas ao apedrejamento moral em infinitos posts. Os acusados foram condenados antes mesmo de qualquer investigação - e as notícias que as coisas não eram bem daquele jeito são ignoradas nas redes. Se for realmente comprovada sua culpa, os tais torturadores merecem ser punidos e não apenas pagar uma multa. Mas não podemos queimar etapas e dar o veredito antes do julgamento. Se queremos que se aplique justiça, devemos começar a partir de nós mesmos. Entretanto, nem os culpados foram punidos, nem os revoltosos partiram para a ação armada. A indignação coube no facebook.
Também pelo lado bom da coisa, a eficácia das redes sociais é duvidosa. Temos pena de quem sofre, choramos por um menino acuado por bullying na França, achincalhamos o prefeito ou o governador ou o/a presidente por não tentar resolver os problemas sociais que se espalham ao nosso redor. Mas poucos de nós levantam realmente o traseiro do sofá e vão à luta, reúnem roupas que não usam mais, compram cestas básicas, aderem ao transporte público ou tomam alguma outra atitude mais elogiável. Trocamos tudo por um post inteligente, de preferência com muita repercussão entre quem nos curte.
Estamos contaminados pelo bom mocismo. Somos instados a nunca mais pisar num supermercado que use sacolas plásticas, mas nem percebemos que a campanha dita ecológica só servirá mesmo para livrar o quitandeiro de pagar pelo saquinho que continua a ser oferecido ao cliente - a diferença é que o Abílio Diniz quer que você pague pelo tal saquinho.
Da mesma forma, os ciclistas - que a colunista Bárbara Gancia apelidou acertadamente de talebikers - gritam em defensa de vias exclusivas. E todo mundo, mesmo quem não diferencia uma Monark de uma Caloi dobrável, inicia a infinita série de posts bem intencionados sobre a ciclovia e sua importância para a sobrevivência da espécie no planeta. Eu defenderei os bikers com muito gosto a partir do momento em que não correr mais o risco de ser atropelado por um deles. Deve ser um dogma da categoria: ciclista ignora sinal vermelho e avança sobre o pedestre com a impiedade de um tubarão faminto. Isso não é bacana.
As lições de convivência e respeito, tão cantadas nas redes sociais, ainda estão no limite das boas intenções. Depois de escrever meia dúzia de palavras legais sobre um tema edificante, nos sentimos liberados a puxar a brasa pra nossa sardinha, dane-se o resto. Desde que possamos espalhar nossos pensamentos profundos e fundamentais sobre qualquer tema humanitário, adquirimos passe livre pra não nos mexermos e fazer o que realmente é preciso para melhorar o mundo.
Uso e acho muito legais o facebook e o twitter. Mas não atribuo a eles a capacidade de melhorar a sociedade em que vivo. Não somente pelo fato de, ali, desfilar muita gente preconceituosa, carola, egoísta e, acima de tudo, sem a menor intimidade com a língua pátria. Tem muita gente legal também. Gente inteligente, bem humorada, do bem. Mas nem os "malvados" partem pra porrada, nem os "bonzinhos" largam sua nuvem. É tudo muito adolescente, tudo muito "amo" ou "odeio", "morte a isso", "fora com aquilo". A convivência, que é bom - e é o melhor desse jogo chamado vida -, está se diluindo nas nuvens do virtual. Isso é real.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Monstros sem Freud


A culpa deve ser do Tom e Jerry. Ou do Bip Bip e Coiote. Não há outra explicação razoável para a série de atentados terroristas que tem vitimado cães, no que parece ser a última moda em bestialidade moderna. O sujeito pega o cachorro, amarra no carro e sai arrastando o bicho estrada a fora. Outro enterra o cãozinho recém-nascido ainda vivo. Soube de crianças em um condomínio que brincaram de atirar gatinhos recém-paridos contra a parede - um deles sobreviveu com sequelas cerebrais. Não é culpa dos astros, dos pais nem da água? Então, só pode ser coisa de Tom e Jerry: as pessoas deram pra acreditar que o mundo é um desenho animado, você explode uma bomba aqui, atira o outro pela janela ali - e no quadro seguinte, a vida prossegue como se nada houvera.
Há também a série de mães que se livram de filhos indesejados largando-os na rua, em sacos plásticos, lixeiras, rios. Outro dia, uma mãe atirou os bebês gêmeos pela janela. Para estes casos, bem ou mal, a ciência parece encontrar explicações. Depressão pós-parto, miséria extrema, vício em crack, sempre se saca algum freud da cartola. É aterrorizante pensar que se possa abandonar assim um neném tão frágil, indefeso. O terror cresce quando quem faz isso é a mãe, o pai, o gerador daquela vida. Não há nesse comentário nenhum cristianismo, é pura sensação de sobrevivência da espécie. Tenho comigo a ideia fixa de que lutamos para preservar os nossos, como quem se assegure da continuidade da própria semente.
A maldade contra animais ainda escapa à análise. À minha, pelo menos. Ninguém obriga um sujeito a ter um cão. Eu nunca tive, não gosto de cachorro, procuro evitar a menor intimidade, meus amigos sabem disso. Nem por isso, abafo em mim um envenenador de cães, um atropelador de gatos, um estripador de sapos. Eles lá e eu aqui, esse sempre foi meu lema em relação a bichos. O lema agora mudou: "eles lá, eu aqui e as feras que maltratam bichos na cadeia". Não é possível que a pessoa arraste um pitbull amarrado ao carro, até o bicho perder as patas e a vida, e não receba mais que uma multa. (Pensando bem, é possível, sim: atropeladores embriagados depositam a fiança e voltam para casa, com a carteira de motorista no bolso, sem sequer serem obrigados a pagar o tratamento ou o enterro de suas vítimas).
Para as mães que tentam se livrar de seus filhos, parece, resta alguma esperança: de que ela se arrependa e volte chorando; de que seu estado de penúria seja amenizado e ela tenha condições de amar sua prole... É a esperança na justiça, divina, terrena ou satânica. A vingança pelos inocentes sacrificados. Agora, quem sadicamente tortura animais abdica dessa esperança. Para covardes assim, não há cura na linha do horizonte.
Quem enterra um filhote recém-nascido ainda vivo não deve ter muita noção dos limites que a vida estabelece. O homem que liga o carro e arrasta o cão que certamente o adorava está pouco ligando para o que sentem outros seres humanos. Maltratar um cão ou um velho ou uma criança ou uma mulher são apenas dobraduras do mesmo origami sangrento. Em algum ponto de suas vidas, essas criaturas sádicas deixaram de ser corrigidas ou simplesmente notadas. Alguma falha no sistema houve. Ninguém sai do comportamento de anjo de procissão para o rally do cachorro arrastado em dois ou três dias.
Assistimos perplexos a essas aberrações. Lemos no jornal, vemos na TV. Ficamos chocados. Mas não conheço ninguém que seja parente, amigo, vizinho ou sequer conhecido de um desses torturadores que brotam dos noticiários como gremlins ensandecidos. A vida torna-se um reality show do terror. O sujeito inspira-se num monstro e decide cometer uma atrocidade ainda maior. Busca o holofote, o flash. Seu cão escapará. O Tom sempre sobreviveu aos ataques do Jerry. E o Tom era apenas um gato!
Me pego pensando em como reagiria se um vizinho fosse esse personagem monstruoso. O primo de um amigo. O irmão de um colega de trabalho. O pavor ganharia corpo e voz. Por enquanto, ainda, a água não atingiu meu quintal...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Muitas Chinas


Quando a escritora Lygia Fagundes Telles embarcou para a China, em setembro de 1960, eu era apenas um bebê de dois meses e meio, nascido abaixo do peso e sem muitas garantias de sobrevida. Lygia já era Lygia, tanto que foi convidada pelo governo chinês, junto com um grupo de intelectuais e artistas, como a atriz Maria della Costa, a visitar o país e constatar com os próprios olhos o que a revolução comunista vinha aprontando havia 10 anos na antiga terra dos mandarins. A tinta revolucionária estava fresca nas paredes, já houvera uma troca de comando na cúpula e a Camarilha dos Quatro, gangue que implantou o terror governista com a Revolução Cultural, ainda não tinha posto as manguinhas de fora. Essa viagem está no delicioso "Passaporte para a China", que a Companhia das Letras acaba de lançar.
O livro é pequeno, menos de 100 páginas, e se você não se segurar é capaz de ir da primeira à última linha enquanto espera ser atendido pelo médico. Ou enquanto o ônibus não chega. Ou enquanto foge das besteiras televisivas. Enfim, é leitura rápida, agradável e - acima de tudo - inspiradora. Dá vontade de terminar o livro já no balcão de qualquer companhia aérea, preferencialmente rumo à China.
O melhor é que Lygia não fez um guia de viagens, nem um querido diário de bordo. Fez crônicas, que foram publicadas aos trancos e barrancos no jornal Última Hora. Na época, não havia facilidades em se transmitir notícias ou enviar encomendas. A viagem em si já era uma maratona: o grupo da escritora saiu do Rio de Janeiro no dia 24 de setembro e só foi pisar em Pequim no dia 29. Pernoitaram em Paris, Praga, Moscou e mais duas cidades da Sibéria, antes de chegar ao destino final.
Não deixava de ter seu charme dormir em Paris e outras cidades. Tomava-se um banho confortável, jantava-se bem, dormia-se na horizontal, feito gente. Hoje em dia, a viagem para a China leva pouco mais de 21 horas, com alguma escala - sem banho nem caminha - em alguma Dubai da vida. Para quem tem medo de avião, como Lygia, a longa duração prolongava o sofrimento de mais uma vez estar a bordo de uma nave misteriosa, piorando a cada etapa, pois as línguas agora não eram mais aquelas que se aprendia no colégio, mas alguma coisa de raiz eslava ou oriental.
Estive na China duas vezes - uma a trabalho, em 1993, e outra, de férias, em 2008. Foram duas Chinas. Agora, que li o livro de Lygia, descubro que há muito mais Chinas do que supõe a nossa vã geografia. A China que Lygia visitou ainda engatinhava no comunismo, havendo mesmo ainda proprietários de casas e terrenos herdados do antigo regime. A primeira China que eu conheci não se abrira para o capitalismo, tentava atrair turistas e investidores, mas pouco oferecia além de suas atrações históricas: era um país ainda agrícola, com uma população mal vestida e maltratada pela vida dura. A segunda China atracara-se de vez com as tentações do dinheiro, exibia-se com todos os brilhos possíveis em sua arquitetura ousada e tripudiava do Ocidente servindo de bandeja tudo o que o consumismo valorizava, em versões assumidamente piratas.
Se na China de Lygia, o líder Mao Tsé Tung era o grande timoneiro, na minha primeira China ele era ainda o modelo a ser seguido. Na new China, era apenas um avozinho cheio de manias a quem os netos tratavam com desdém. Nos anos 60, seria impensável ver Mao enfeitando camisetas, canecas, almofadas e bonés, tal qual um Mickey de olhos rasgados. A minha guia na primeira viagem era uma estudante que impunha um regime de ferro ao grupo - "Temos 20 minutos para visitar a Cidade Proibida" -, mas o segundo era um rapaz bem humorado, que falava espanhol com relativa fluência e que citava o governo sem o medo que seus pais tinham.

No livro, é divertido acompanhar o trajeto entre Pequim e Xangai, as duas mais importantes cidades do país. A primeira, por ser capital, grandiosa, exuberante, megalômana. A segunda por simbolizar, em 1960, o período em que a China foi colonizada por ingleses e franceses. Na época de Lygia, ia-se de trem - 30 horas de viagem! Hoje, pouco mais de 2 horas pelo ar e você deixa o gigantismo pequinês para mergulhar na feérica Xangai, com sua arquitetura ousada, seus serviços de primeiro mundo, seu ar de "cidade de todos". Comum, em 1960 e em 2008, foi a mesma paixão imediata por Xangai.
As viagens eram mais demoradas, viajar para outro país era uma atividade mais elitista, havia o que os nostálgicos chamam de "mais classe" - leia-se "menos pobres". Ir ao aeroporto era quase um programa cultural e até os palitos de dentes que vinham nas bandejas eram guardados como relíquias a ser exibidas aos menos favorecidos. "Olha o saleirinho, que bonitinho!" - o pai do meu amigo João Alberto tinha viajado de avião (a trabalho!) e trouxera pra nos mostrar o saleiro e o pimenteiro distribuídos na Varig. O cobertor de lã, então, chamava mais a atenção do que qualquer tapete marroquino com 1200 fios.
Dos Telles aos Viana, a China mudou - mas mudou também o mundo e a indústria das viagens. Para atender a um público cada vez maior e, claro, embolsar um lucro mais polpudinho, as companhias aéreas agora já não capricham tanto - porque acham que não precisam. O sal vem num saquinho de papel, os talheres são de plástico e a refeição, idem. O espaço das poltronas seria perfeito se o passageiro não teimasse em ter 2 pernas, quadris, costas...
As viagens são mesmo mais rápidas e você chega ao outro lado do mundo sem ao menor ter dormido as oito horas de sono regulamentares. Café preto com pão e manteiga de manhã, pato laqueado no almoço do dia seguinte. Antes, não só por questões de tecnologia, mas também por que o mundo parecia exigir mais tempo das coisas, as viagens eram no gerúndio, iam sendo feitas aos poucos, como se estivéssemos eternamente numa caravela. Hoje, os aviões brincam de Apolo XI e comprimem o tempo e a delicadeza. Até por isso, pra nos lembrar que viajar não era apenas uma maratona de compras e superficialidades disfarçadas de cultura, é que o livro de Lygia merece ser lido. Por ela, claro. Mas principalmente por nós.